Sobre Quadrinhos | Baiacus do Tietê: a arte “udigrudi” reescrita

0
3218

Baiacus do Tietê: a arte “udigrudi” reescrita.

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

Olá, Leitor! Há muito que sabemos que a história não se repete. Nem como farsa, nem como tragédia. Os eventos históricos são singulares devido à sua natureza temporal. Se o tempo histórico transcorrido é inexorável, as características que constituem os eventos também o são. Isto significa, basicamente, que qualquer interpretação histórica que busque uma comparação com o passado poderá, no máximo, servir como forma de aproximação. A imaginação histórica é que permite ao historiador buscar no passado formas de entendimento de seu presente. Porque no fundo toda história é uma história do tempo presente na medida em que aquilo que chamamos de passado é uma construção da nossa visão de mundo atual.

Não existe muita prudência em relacionar características biográficas com as épocas distintas. Contudo, parece que o caso da revista Baiacu (Todavia. 2017), editada por Angeli e Laerte, sugere certos riscos necessários e anacrônicos. A revista Baiacu cumpre uma dupla função no atual contexto brasileiro. O primeiro, sem dúvida, está em apresentar os padrões estéticos da arte sequencial produzida no Brasil. Depois, apresenta um apelo político desengajado de ideologias partidárias, mas evidentemente crítico da conjuntura política, social e cultural do país.

Fonte: http://woomagazine.com.br/revista-baiacu-novo-projeto-de-angeli-e-laerte/

Os editores Angeli e Laerte, da antiga Circo Editorial, empresa que produziu uma parte importante de sua obra, colocam-se, mais uma vez, na vanguarda da arte sequencial produzida no Brasil. Em um contexto de autoritarismo renovado, como o que vivemos nesse momento, a revista Baiacu é um quilombo de resistência cultural da tradição “udigrudi”.

A caretice moralista e a pieguice inaciana, então, terminam por nortear uma reação quase xamânica. Explico, o veneno do peixe baiacu é mortal devido à grande quantidade de uma neurotoxina chama tetrodoxina concentrada no mesmo indivíduo. No entanto, apesar de rápida, a morte não é indolor. A revista Baiacu oferece esse veneno, de modo metafórico, para visões fechadas que podem se abrir ou sucumbir de vez. O refinamento dos trabalhos de diversos artistas que fazem parte da publicação é absoluto. Os textos são de uma sutileza espantosa e, os desenhos, demonstram total ousadia na experiência estética. Quer dizer, mais uma vez, Angeli e Laerte capitaneiam uma reação estética contra a ordem das coisas estabelecida.

“A inquisição ainda respira”

Muitas vezes um grande quadrinista não faz sua fama através da sua expertise no desenho, pelo seu traço apurado e clássico ou por ideias extravagantes, muito pelo contrário. Na verdade, o roteiro e a disposição em que está inserido, em alguns casos, se mostrará muito mais importante e até será o grande responsável pela desconstrução e reconstrução de toda a história da arte sequencial, deixando de lado a harmonia estética considerada por muitos a questão principal para o entendimento artístico de qualquer forma de manifestação, seja ela qual for.

Porém, felizmente, sempre irão aparecer grandes artistas que ousarão desafiar o status quo seja ele qual for, mesmo que isso contrarie as escolas artísticas vigentes, as formas de fazer arte condensadas em pequenas caixas com as quais convivemos.

Vindo na contramão do mainstream e incentivado por dois grandes artistas do “udigrudi” (movimento revolucionário da arte sequencial brasileira incentivado pelos traços underground do quadrinho norte-americano) a revista Baiacu revisita muitos temas e desconstrói com vontade as famosas tiras das quais somos acostumados a ler, reconstruindo e exercitando a criatividade numa série de experiências inéditas, visuais e provocativas sob as bênçãos de ninguém menos que Laerte e Angeli. A proposta se passou dentro de um projeto visionário de convivência produtiva multimídia em parceria com o SESC. O projeto completo pode ser observado no site www.revistabaiacu.com.br.

Fonte: http://www.pescasedicas.com.br/baiacu/

 

O resultado não poderia ser outro, senão a de uma revista magnífica que poderia ter sido evocado e se materializado, nas palavras de Laerte, como um fanzini. O que também não deixa de ser verdade de certa forma, pois a todo o momento os traços e os temas lembram em muito estas pequenas manifestações de grande utilidade para quem tem poucos recursos e grandes ideias, porém o resultado acabou sendo dotado de muita elegância, eloquência e irreverência.

Aliás, a genialidade desses grandes mestres está presente em suas páginas provocativas, que não deixam a desejar em qualquer aspecto com suas produções anteriores e faz com que o leitor (que já esteja habituado com o “udigrudi”) reveja muito das ideias presentes em suas outras obras, além de trazer às luzes novos e instigantes questionamentos. Angeli provoca com maestria e propõe novas vistas aos problemas já conhecidos, Laerte é confessional, gênio e impõe suas reflexões com muita facilidade e o sarcasmo de sempre.

A revista propõe uma reflexão quanto ao traço e sua especificidade, nada superficial, muito pelo contrário, é fantástica e suscita vários fantasmas dos nossos dias trazendo uma crítica importante sobre o momento político no qual estamos. E aí está uma questão importante, a relação das linguagens verbais e não-verbais, pois a revista é um grande compilado de textos, poesias construtivistas, evocações de grafites, fotografias e logicamente, tiras e quadrinhos. Não há padronização artística, há uma série de situações evocadas por inúmeros artistas de grosso calibre que fazem da revista uma grande passarela para suas produções. Um exemplo é o impacto que é causado pela paleta de cores de Fábio Zimbres e Gabriel Góes. Este, além de seus próprios trabalhos, conta com a participação de Mr. Egg (personagem recorrente da revista, ou seja, um easter egg literal e gigante).

Destaque também para as obras viscerais de Rafael Sica, e seu olhar profundo sobre o comportamento do brasileiro. Guazzelli com sua simplicidade que analisa os aspectos relevantes dos acontecimentos históricos com um toque de intertextualidade fina com filmes como o Iluminado e Psicose. Juliana Russo com seu Estudo sobre Estranhos Costumes do Homem Contemporâneo e suas falas sobre os muros e seus designes, assim como sua visão da monocultura e impacto sobre o ambiente.

Diego Gerlach, fantástico que nos faz entender com muita profundidade o que é a confecção de um fanzini ao mesmo tempo explora a metalinguagem do tema e a possibilidade de uma produção simplista e pomposa ao mesmo tempo. O texto Vernissage de Anna Claudia Magalhães (outro de uma profundidade ímpar) questiona o racismo e as atenuações infundadas que fazemos para justificar o injustificável, e seu grafite de inúmeras representatividades juntas.

Fonte: https://zupi.com.br/projeto-baiacu-promove-workshops-e-bate-papos-sobre-quadrinhos-no-sesc-ipiranga/

Contudo, aí está, a evocação do grafite e sua representatividade que se faz presente em toda obra. É a busca de trazer a intervenção urbana para a formalidade da publicação, presente em vários momentos e não somente nas ilustrações de alguns artistas isolados. Toda essa urbanidade nos traz às luzes uma reflexão sobre a ocupação dos lugares urbanos e o grito de uma das manifestações mais singulares dos tempos atuais. Não há uma padronização artística, mas sim uma discussão implícita no texto que leva a inúmeras reflexões. O minimalismo também está presente e extremamente expressivo nos desenhos de Mariana Paraizo em Não Existe Abandonar e no trabalho de Fabio Zimbres e seus Mini Zines e no Discursos Sobre a Metástase de André Santana e a desconstrução sobre a arte de Maurício de Souza, pelo olhar de Ilan Manouach, dentre tantos outros e tantas obras maravilhosas que ajudam a compor uma revista única, singular e especial que dá continuidade ao legado do “udigrudi” com primazia.

Ou seja, a revista Baiacu é ousada, como sempre propuseram ser os artistas marginais e todos aqueles que quiseram revolucionar o cenário dos quadrinhos no Brasil mesmo com todas as adversidades. Pois sempre existiram limitações, mas estas nunca deram espaço para que aqueles que desafiaram a status quo com sua característica underground, quer dizer “udigrudi”, pois levaram suas contestações e demandas, sempre atuais, para analisarem com muito humor uma sociedade cada vez mais imersa em contradições.

“A imperfeição criativa”

Estamos assistindo, talvez em escala global, uma ascensão de ideologias autoritárias que lembram, muitas vezes, o que aconteceu em momentos específicos do século XX. Isto é, muitas pessoas estabelecem paralelos com as ideologias autoritárias da primeira metade do século XX e, para o caso do Brasil e da América latina, também com as ditaduras da segunda metade do século XX. No entanto, é sempre bom considerar diferenças contextuais ao fazermos tais aproximações históricas.

As demandas das novas formas de autoritarismo obedecem a padrões diferentes daqueles já vivenciados em outros tempos. É necessário levar em consideração a plasticidade do capitalismo e as novas exigências de implantação de regimes neoliberais em economias periféricas. A ordem econômica determina em grande parte a reação das camadas que apoiam regimes e governos golpistas. Do mesmo modo, também é preciso considerar a participação de novos atores sociais e das mídias eletrônicas na composição do contexto atual.

Fonte: https://quadrinheiros.com/2018/02/01/baiacu-o-custo-da-vanguarda/

A revista Baiacu participa desse contexto com a repaginação das antigas publicações “udigrudi”. É uma voz que se levanta em terra de mudos. É um grito que ecoa desde o submundo da arte sequencial até o mais arrojado mainstream. A revista Baiacu é um projeto ousado em tempos de monotonia estrutural. O importante reconhecimento das subjetividades e a necessidade de se respeitar o lugar da fala do outro, parecem despertar manifestos artísticos em diversos suportes. A revista Baiacu é, assim, uma manifestação de diversidade e tolerância.

COMENTAR