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Sobre Quadrinhos | Baiacus do Tietê: a arte “udigrudi” reescrita

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Baiacus do Tietê: a arte “udigrudi” reescrita.

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

Olá, Leitor! Há muito que sabemos que a história não se repete. Nem como farsa, nem como tragédia. Os eventos históricos são singulares devido à sua natureza temporal. Se o tempo histórico transcorrido é inexorável, as características que constituem os eventos também o são. Isto significa, basicamente, que qualquer interpretação histórica que busque uma comparação com o passado poderá, no máximo, servir como forma de aproximação. A imaginação histórica é que permite ao historiador buscar no passado formas de entendimento de seu presente. Porque no fundo toda história é uma história do tempo presente na medida em que aquilo que chamamos de passado é uma construção da nossa visão de mundo atual.

Não existe muita prudência em relacionar características biográficas com as épocas distintas. Contudo, parece que o caso da revista Baiacu (Todavia. 2017), editada por Angeli e Laerte, sugere certos riscos necessários e anacrônicos. A revista Baiacu cumpre uma dupla função no atual contexto brasileiro. O primeiro, sem dúvida, está em apresentar os padrões estéticos da arte sequencial produzida no Brasil. Depois, apresenta um apelo político desengajado de ideologias partidárias, mas evidentemente crítico da conjuntura política, social e cultural do país.

Fonte: http://woomagazine.com.br/revista-baiacu-novo-projeto-de-angeli-e-laerte/

Os editores Angeli e Laerte, da antiga Circo Editorial, empresa que produziu uma parte importante de sua obra, colocam-se, mais uma vez, na vanguarda da arte sequencial produzida no Brasil. Em um contexto de autoritarismo renovado, como o que vivemos nesse momento, a revista Baiacu é um quilombo de resistência cultural da tradição “udigrudi”.

A caretice moralista e a pieguice inaciana, então, terminam por nortear uma reação quase xamânica. Explico, o veneno do peixe baiacu é mortal devido à grande quantidade de uma neurotoxina chama tetrodoxina concentrada no mesmo indivíduo. No entanto, apesar de rápida, a morte não é indolor. A revista Baiacu oferece esse veneno, de modo metafórico, para visões fechadas que podem se abrir ou sucumbir de vez. O refinamento dos trabalhos de diversos artistas que fazem parte da publicação é absoluto. Os textos são de uma sutileza espantosa e, os desenhos, demonstram total ousadia na experiência estética. Quer dizer, mais uma vez, Angeli e Laerte capitaneiam uma reação estética contra a ordem das coisas estabelecida.

“A inquisição ainda respira”

Muitas vezes um grande quadrinista não faz sua fama através da sua expertise no desenho, pelo seu traço apurado e clássico ou por ideias extravagantes, muito pelo contrário. Na verdade, o roteiro e a disposição em que está inserido, em alguns casos, se mostrará muito mais importante e até será o grande responsável pela desconstrução e reconstrução de toda a história da arte sequencial, deixando de lado a harmonia estética considerada por muitos a questão principal para o entendimento artístico de qualquer forma de manifestação, seja ela qual for.

Porém, felizmente, sempre irão aparecer grandes artistas que ousarão desafiar o status quo seja ele qual for, mesmo que isso contrarie as escolas artísticas vigentes, as formas de fazer arte condensadas em pequenas caixas com as quais convivemos.

Vindo na contramão do mainstream e incentivado por dois grandes artistas do “udigrudi” (movimento revolucionário da arte sequencial brasileira incentivado pelos traços underground do quadrinho norte-americano) a revista Baiacu revisita muitos temas e desconstrói com vontade as famosas tiras das quais somos acostumados a ler, reconstruindo e exercitando a criatividade numa série de experiências inéditas, visuais e provocativas sob as bênçãos de ninguém menos que Laerte e Angeli. A proposta se passou dentro de um projeto visionário de convivência produtiva multimídia em parceria com o SESC. O projeto completo pode ser observado no site www.revistabaiacu.com.br.

Fonte: http://www.pescasedicas.com.br/baiacu/

 

O resultado não poderia ser outro, senão a de uma revista magnífica que poderia ter sido evocado e se materializado, nas palavras de Laerte, como um fanzini. O que também não deixa de ser verdade de certa forma, pois a todo o momento os traços e os temas lembram em muito estas pequenas manifestações de grande utilidade para quem tem poucos recursos e grandes ideias, porém o resultado acabou sendo dotado de muita elegância, eloquência e irreverência.

Aliás, a genialidade desses grandes mestres está presente em suas páginas provocativas, que não deixam a desejar em qualquer aspecto com suas produções anteriores e faz com que o leitor (que já esteja habituado com o “udigrudi”) reveja muito das ideias presentes em suas outras obras, além de trazer às luzes novos e instigantes questionamentos. Angeli provoca com maestria e propõe novas vistas aos problemas já conhecidos, Laerte é confessional, gênio e impõe suas reflexões com muita facilidade e o sarcasmo de sempre.

A revista propõe uma reflexão quanto ao traço e sua especificidade, nada superficial, muito pelo contrário, é fantástica e suscita vários fantasmas dos nossos dias trazendo uma crítica importante sobre o momento político no qual estamos. E aí está uma questão importante, a relação das linguagens verbais e não-verbais, pois a revista é um grande compilado de textos, poesias construtivistas, evocações de grafites, fotografias e logicamente, tiras e quadrinhos. Não há padronização artística, há uma série de situações evocadas por inúmeros artistas de grosso calibre que fazem da revista uma grande passarela para suas produções. Um exemplo é o impacto que é causado pela paleta de cores de Fábio Zimbres e Gabriel Góes. Este, além de seus próprios trabalhos, conta com a participação de Mr. Egg (personagem recorrente da revista, ou seja, um easter egg literal e gigante).

Destaque também para as obras viscerais de Rafael Sica, e seu olhar profundo sobre o comportamento do brasileiro. Guazzelli com sua simplicidade que analisa os aspectos relevantes dos acontecimentos históricos com um toque de intertextualidade fina com filmes como o Iluminado e Psicose. Juliana Russo com seu Estudo sobre Estranhos Costumes do Homem Contemporâneo e suas falas sobre os muros e seus designes, assim como sua visão da monocultura e impacto sobre o ambiente.

Diego Gerlach, fantástico que nos faz entender com muita profundidade o que é a confecção de um fanzini ao mesmo tempo explora a metalinguagem do tema e a possibilidade de uma produção simplista e pomposa ao mesmo tempo. O texto Vernissage de Anna Claudia Magalhães (outro de uma profundidade ímpar) questiona o racismo e as atenuações infundadas que fazemos para justificar o injustificável, e seu grafite de inúmeras representatividades juntas.

Fonte: https://zupi.com.br/projeto-baiacu-promove-workshops-e-bate-papos-sobre-quadrinhos-no-sesc-ipiranga/

Contudo, aí está, a evocação do grafite e sua representatividade que se faz presente em toda obra. É a busca de trazer a intervenção urbana para a formalidade da publicação, presente em vários momentos e não somente nas ilustrações de alguns artistas isolados. Toda essa urbanidade nos traz às luzes uma reflexão sobre a ocupação dos lugares urbanos e o grito de uma das manifestações mais singulares dos tempos atuais. Não há uma padronização artística, mas sim uma discussão implícita no texto que leva a inúmeras reflexões. O minimalismo também está presente e extremamente expressivo nos desenhos de Mariana Paraizo em Não Existe Abandonar e no trabalho de Fabio Zimbres e seus Mini Zines e no Discursos Sobre a Metástase de André Santana e a desconstrução sobre a arte de Maurício de Souza, pelo olhar de Ilan Manouach, dentre tantos outros e tantas obras maravilhosas que ajudam a compor uma revista única, singular e especial que dá continuidade ao legado do “udigrudi” com primazia.

Ou seja, a revista Baiacu é ousada, como sempre propuseram ser os artistas marginais e todos aqueles que quiseram revolucionar o cenário dos quadrinhos no Brasil mesmo com todas as adversidades. Pois sempre existiram limitações, mas estas nunca deram espaço para que aqueles que desafiaram a status quo com sua característica underground, quer dizer “udigrudi”, pois levaram suas contestações e demandas, sempre atuais, para analisarem com muito humor uma sociedade cada vez mais imersa em contradições.

“A imperfeição criativa”

Estamos assistindo, talvez em escala global, uma ascensão de ideologias autoritárias que lembram, muitas vezes, o que aconteceu em momentos específicos do século XX. Isto é, muitas pessoas estabelecem paralelos com as ideologias autoritárias da primeira metade do século XX e, para o caso do Brasil e da América latina, também com as ditaduras da segunda metade do século XX. No entanto, é sempre bom considerar diferenças contextuais ao fazermos tais aproximações históricas.

As demandas das novas formas de autoritarismo obedecem a padrões diferentes daqueles já vivenciados em outros tempos. É necessário levar em consideração a plasticidade do capitalismo e as novas exigências de implantação de regimes neoliberais em economias periféricas. A ordem econômica determina em grande parte a reação das camadas que apoiam regimes e governos golpistas. Do mesmo modo, também é preciso considerar a participação de novos atores sociais e das mídias eletrônicas na composição do contexto atual.

Fonte: https://quadrinheiros.com/2018/02/01/baiacu-o-custo-da-vanguarda/

A revista Baiacu participa desse contexto com a repaginação das antigas publicações “udigrudi”. É uma voz que se levanta em terra de mudos. É um grito que ecoa desde o submundo da arte sequencial até o mais arrojado mainstream. A revista Baiacu é um projeto ousado em tempos de monotonia estrutural. O importante reconhecimento das subjetividades e a necessidade de se respeitar o lugar da fala do outro, parecem despertar manifestos artísticos em diversos suportes. A revista Baiacu é, assim, uma manifestação de diversidade e tolerância.

Cláudio Diniz é colunista do Sobre Livros. Para sugerir, criticar, elogiar, ou simplesmente bater um papo sobre quadrinhos e cultura, basta adicioná-lo no facebook e dar sua opinião.

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A “poética do detalhe” em Persépolis de Marjane Satrapi: Revolução Iraniana (1979) e resistência feminina

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A “poética do detalhe” em Persépolis de Marjane Satrapi: Revolução Iraniana (1979) e resistência feminina.

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

 

Em 1990, a época dos grandes ideais revolucionários e das manifestações tinha acabado. Entre 1980 e 1983, o governo tinha prendido e executado tantos secundaristas e universitários que a gente não se atrevia a falar de política. Nossa luta era mais discreta. Estava nos pequenos detalhes. Para os nossos dirigentes, qualquer coisinha poderia ser sinal de subversão. Pois é… Tudo era pretexto para nos prender.

(Marjane Satrapi, 2007)

Olá leitor! A cidade de persépolis (Takhte Jamshid – 518-331 ac.) foi a capital dos antigos governantes do Império Persa, os Aquemênidas. As ruínas da capital, redescobertas em 1930, ao sul do Irã, atestam a grandiosidade da cultura persa. Nos seus arredores, ficam os túmulos dos imperadores Dario e Xerxes. A maior parte das informações dessa cultura encontra-se nos relatos gregos porque muito pouco da produção escrita dos persas, que era imensa, chegou até nós. No terceiro século antes da era cristã, Alexandre da Macedônia saqueou e incendiou a cidade de Persépolis. Movido por antigas rivalidades – como o incêndio de Atenas, promovido por Xerxes, em 480 ac. -, o helenista deu provas de sua gananciosa barbárie.

A escritora iraniana Marjane Satrapi confeccionou sua autobiografia, em formato de graphic novel, utilizando-se de elementos épicos da história da Pérsia e a arte pop ocidental. Aliás, como a obra foi publicada na França (2000), é correto se referir ao suporte usado por Satrapi como BD (bande-dessinée). A Persépolis de Satrapi aproxima o antigo do moderno, o épico do pop e o drama do humor. Na leitura da obra fica evidente o fato de que a autora procura afirmar uma identidade muito mais antiga que o regime dos aiatolás. Nesse caso, é perceptível que a orientação política da obra relaciona-se à negação e resistência velada ao regime ditatorial no Irã.

A estética da obra, em branco e preto, também é uma crítica à imposição da sharia xiita referente aos costumes ultraconservadores impostos à mulher iraniana. A imposição do shador (véu escuro), por exemplo, é vista como emblema de repressão. Apesar disso, Marjane Satrapi revela o modo como as pessoas podem desenvolver estratégias de sobrevivência em situações extremas. A vida, que se esvai com tamanha facilidade, recebe um significado especial nesse cenário marcado pela Revolução Iraniana (1979) e a consequente aniquilação das liberdades civis.

A história do Irã, no século XX, foi assinalada pelos interesses da indústria ocidental do petróleo. O imperialismo britânico dominou a região até 1951, quando o primeiro ministro iraniano, Mohammad Mossadegh, nacionalizou a exploração petrolífera. Em 1953, Mohamed Reza Pahlevi implantou uma ditadura comprometida com os interesses do bloco capitalista. O Irã foi tomado de práticas e padrões de consumo do Ocidente. Acrescente-se a isso, o fato de que, em plena Guerra Fria, a fronteira do Irã com a URSS deveria ser interessante aos olhos da OTAN.

Ao mesmo tempo, no interior das mesquitas, um discurso nacional fundamentalista ganhava contornos na figura do aiatolá Ruhollah Khomeini. No fim dos anos 70, Khomeini estava no exílio, mas sua voz era ouvida por todo o Irã, nas fitas K7 que o líder islâmico enviava do exterior. A interferência política conservadora do clero iraniano tornou-se uma espécie de alternativa à administração denominada “libertina” de Reza Pahlevi. Finalmente, em 1979, o governo Pahlevi sucumbiu à onda de protestos e revoltas no país. Khomeini instaurava o regime dos aiatolás.

Um ano após o golpe de Khomeini, o cenário iraniano era bastante caótico e desagradável aos interesses do bloco capitalista. Saddam Hussein, presidente iraquiano apoiado por Washington, promoveu uma guerra contra o Irã. Seus objetivos eram enfraquecer a influência política dos xiitas e controlar as reservas de petróleo iranianas. A Guerra Irã-Iraque matou quase um milhão de pessoas e deixou sequelas nos dois países.

O aiatolá Khomeini morreu logo após a guerra. Seu sucessor, o aiatolá Ali Khamenei, mostrou-se mais receptivo a pequenas alterações na sharia xiita. Uma luz de esperança, mesmo que tímida, acendeu o coração dos iranianos. A eleição de presidentes moderados – como Ali Rafsanjani (1989-1997), Sayed Khatami (1997-2005), Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), Mohammad Khatami (2013-2021) – dá mostras de um país ainda polarizado na encruzilhada dos antigos com os modernos.

Parece-nos, ainda, que existe um nível mais profundo na obra de Marjane Satrapi. Em Persépolis, a instância da memória inventa e assegura a existência de uma identidade capaz de resistir ao próprio tempo. “Nunca se esqueça”, diz o pai de Marjie, “de quem você é e de onde vem.” A identidade, então, é essa rocha que dá sustentabilidade à história da autora e do Irã. Uma terra que sobreviveu a imperadores, califas e xás, só o fez porque soube preservar e reinventar sua identidade. Se o pano de fundo, em Persépolis, é a história trágica do Irã, o eixo central da narrativa é a identidade feminina e sua condição objetiva de existência sob a hostilidade de um regime autoritário.

A propósito, o lado mais encantador da autobiografia de Marjane Satrapi é o olhar feminino lançado sobre a história. É um ponto de vista desfocado da análise consensual. Persépolis escapa às opiniões pré-fabricadas para oferecer um retrato pessoal da sociedade iraniana. Sabemos que Marjane Satrapi é proveniente dos grupos mais favorecidos do Irã, com ancestrais entre os imperadores persas e que sua família ideologicamente aproxima-se de horizontes marxistas. No entanto, não é a veracidade da informação que mais importa à análise da autobiografia, mas a sua sinceridade. Em Persépolis, a “poética do detalhe” aproxima a análise sociocultural do pormenor cotidiano. O processo sorrateiro de luta pela sobrevivência física e espiritual ganha contornos subjetivos. A linguagem dos detalhes evidencia aquela afirmação de Foucault de que onde existe poder também existe resistência.

Fabricar o consenso é obter apoio criando “ilusões necessárias”. A visão orientalistsa, característica indelével do olhar colonizador, evidencia apenas o lado exótico e ou violento do mundo islâmico. Não é preciso dizer que na obra de Marjane Satrapi não há espaço para esse tipo de estereótipo. O que observamos em Persépolis é a narrativa de uma vida nada comum e as delícias, as dores e a resistência que ela pode oferecer.

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Destaques

Conheça “Tudo soma zero – Histórias de outros futuros”

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No último dia 30 de novembro, foi lançado a coletânea de contos “Tudo soma zero – Histórias de outros futuros“, organizado pela Ana Luiza Rizzo e Cris Vazquez. A coletânea reúne escritores da turma de 2015 da Oficina de Criação Literária do Assis Brasil, que pelo quarto ano consecutivo se desafiam a escrever alinhados.

Desta vez, o tema norteador é o futuro. Os contistas aceitaram imaginar cenários distópicos, que apesar da clara caminhada da humanidade, tememos em alcançar.

“O que a literatura faz de melhor é olhar para onde não se olha, nos forçar a encarar o reflexo nos espelhos do labirinto, investigar suas distorções, enxergar imagens ocultas. E a ficção especulativa (palavra que compartilha etimologia com “espelho”) atreve-se a uma pergunta específica: se o passado é prólogo, o presente não é o futuro? Em tempos como estes, a indagação é quase um clamor.”

Apresentação de Renata Wolff

Você pode adquirir seu exemplar no site da editora Bestiário, neste link.

AUTORES
Alexandre Alaniz, Alexandre Baldasso Schossler, Ana Cláudia Martins, Ana Luiza Rizzo, André Roca, Andrezza Postay, Andriolli Costa, Caroline Joanello, Cris Vazquez, Fred Linardi, Gustavo Melo Czekster, Irka Barrios, Kathy Krauser, Laila Ribeiro, Leandro Demeneghi, Lorena Otero, Lúcio Humberto Saretta, Matheus Borges, Nara Vidal, Paulo Pinheiro, Rejane Benvenuto, Renata Wolff, T.K. Pereira, Taiane Maria Bonita, Tiago Germano, T.S. Marcon e Vanessa Maranha.

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Cinema

Coringa, de Todd Phillips, o espelho de um mundo doente

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Coringa, de Todd Phillips, o espelho de um mundo doente

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

 

“É do inferno dos pobres que é feito o paraíso dos ricos.”

(Victor Hugo)

Olá, Leitor!

Uma das tópicas mais importantes do filme Coringa (2019), de Todd Phillips, é a melancolia do palhaço fracassado que enxerga na violência desmedida um caminho a seguir em meio ao caos de um mundo que não deu certo. O cenário é uma Gothan City que poderia se assemelhar a qualquer cidade onde a falta de esperança num Estado que “caga” para o cidadão resulta na revolta das maiorias silenciosas. O desprezo dos mais ricos com os deserdados do capitalismo conduz à carnavalização da miséria no festim diabólico da indústria cultural. No fim, a revolta iminente dos invisíveis da história não é apenas uma visão dantesca de um inferno utópico, mas uma assustadora e complexa escatologia.

Definitivamente, não é um filme que deve ser interpretado com simplismo a partir de uma chave de leitura política de direita ou de esquerda. Tampouco, uma ficção baseada no projeto de desenvolvimento da origem do vilão como já se fez para o próprio Batman. Na Gotham de Todd Phillips, não há espaço para romantismos de qualquer inspiração. Coringa é um filme que impacta porque é perturbador, sanguinário e sem um sentido ficcional previamente estabelecido. Talvez, a chave de leitura mais importante do filme reside na percepção de que o protagonista desse thriller dramático está muito mais próximo do ser humano do que jamais se pensou que tal vilão poderia estar.

Disponível em https://www.cineset.com.br/critica-coringa-joaquin-phoenix-2019/ Acesso em 16.10.2019

“Um soco na cara” é uma possível definição que se pode ter após assistir a este filme perturbador e magnífico.

Logo no início da sessão nos deparamos com um protagonista doente, que necessita da ajuda do Estado para cuidar de si e da mãe convalescente. Sua perturbação e suas preocupações são grandes.

O clima que envolve a trama, sua fotografia e a forma como são expostos os seus dramas nos comovem desde o primeiro momento pois, a imersão no universo do personagem é enorme e tudo o que lhe acomete provoca um grande incômodo.

Se existe uma palavra para definir o que sentimos ao longo das mais de duas horas de filme é desconforto. Desconforto ao ver uma Gotham decadente, suja, desorganizada, sem apoio político para as pessoas menos favorecidas e desconfiada, acima de tudo, de sua classe política que nada faz pelos cidadãos. Afinal, a invisibilidade social e o desprezo aos mais necessitados é recorrente. É neste cenário que está Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um palhaço triste e sem talento, que sobrevive em meio à criminalidade e à dificuldades econômica. Um cara ocupado com trabalhos pouco dignos e que busca ganhar a vida fazendo os outros rir numa Gotham City sem qualquer disposição para isso. A cidade cheia de lixo, fruto de uma greve prolongada do serviço de limpeza urbana, é apenas uma dentre as várias metáforas visuais do filme.

O pobre e solitário palhaço vive com a sua mãe doente (Frances Conroy), que o chama desde criança de happy (uma pequena ironia relacionada com um problema neurológico que faz com que Arthur ria de forma descontrolada quando se sente eufórico ou nervoso). Mãe e filho, carregados de traumas psicológicos, apoiam-se na esperança de que o magnata Thomas Wayne  apareça para ajuda-los porque, supostamente, ele seria o pai biológico de Arthur Fleck.

Devido a sua doença ele carrega consigo um cartão para explicar sua condição e o entrega a desconhecidos sempre que tem um ataque de riso no momento errado, o que é deprimente. Arthur é uma vítima na maior parte da história, humilhado e enganado por todos, e que se afunda cada vez mais numa miséria tão abismal que o suicídio é uma ideia recorrente. No entanto, Arthur acaba se transformando em um assassino frio e cruel. Esse processo é gradual e nos faz questionar se alguns daqueles problemas poderiam acometer qualquer um de nós em algum momento.

É de se esperar, tendo em vista toda a história, canônica ou não, que a transformação de Arthur seja uma coisa previsível desde o primeiro frame, porém a história ainda consegue oferecer algumas surpresas ao longo da descida de Arthur à loucura homicida.

Pode-se perceber as inúmeras influências diretas presentes no filme e alguns fans services. Os rascunhos no diário, no qual anota suas ideias criativas fazem lembrar de Psicopata Americano (2000). A narrativa triste remete a HQ A Piada Mortal (1988) e a sequência no talk show tem uma homenagem ao seminal O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller. A presença de Robert DeNiro como o apresentador Murray Franklin, uma inversão propositada de O Rei da Comédia (1983), em que o apresentador era Jerry Lewis e De Niro fazia o papel do sociopata que aspirava ser comediante. Zazie Beets traz uma normalidade precisa ao papel de vizinha e interesse amoroso de Arthur e, Frances Conroy, representa com brilho uma mãe instável.

Coringas. Disponível em https://nerdficina.com.br/2018/09/25/a-evolucao-do-coringa-nos-cinemas/ Acesso em 16.10.2019

Enquanto o Coringa de O Cavaleiro das Trevas é uma encarnação enigmática, porém de ótimo gosto, de puro caos, imprevisibilidade e animalesco, Joaquin Phoenix concretiza sua interpretação tornando o personagem mais humano e tridimensional.

O Coringa de Phoenix é um personagem renovado, uma versão mais fiel às HQ’s, mais patético, mais performático e, ao mesmo tempo, com sequências de dança e expressões corporais memoráveis que remetem  ao personagem Alex, de Laranja Mecânica (1972). O trabalho de Joaquin Phoenix é fantástico até nos mais pequenos detalhes. Os 23 kg a menos, as unhas roídas até ao sabugo e, propositalmente, manchadas de nicotina, ajudam Phoenix a compor a encarnação real de Arthur, dá a ele substância.

Percebe-se que a linha criativa que Todd Phillips procura seguir é a de Martin Scorcese. Este é sua inspiração e o filme claramente baseia-se nos clássicos dos anos 70 como O Rei da Comédia e Taxi Driver (1976). É uma interpretação profunda, construída sobre um ponto de vista subjetivo de uma pessoa com graves distúrbios mentais que se arrasta lutando para sobreviver. A trilha sonora completa a imersão do filme. É o melhor trabalho de Todd Phillips, incluindo o figurino, produção e fotografia impecável.

Existe, porém, uma tênue camada de interpretação. Para uns isso pode levar a uma glamorização do vilão carismático e seu comportamento. Porém, subsiste certa discussão sobre o fato de o personagem poder ou não incentivar as massas para a desordem e o caos por motivo do tamanho desconforto e inquietação dessa película. Mas, absolutamente, o Coringa não foi feito para ser uma apologia ao comportamento de seus personagens. Talvez seja um instrumento fantástico de questionamento das mazelas do nosso tempo. Entretanto, podemos pensar que ele é uma interpretação fidedigna de uma realidade atual e maçante, aturdido por um sistema, seja ele político e ou financeiro, que espreme as pessoas que precisam de ajuda, que esmaga os mais necessitados. Ao mesmo tempo, é uma crítica a muitos comportamentos da nossa sociedade doente, um questionamento sobre tudo o que fazemos no mundo.

É claro que um filme sobre um dos maiores vilões da cultura pop não poderia deixar de se atirar nos temas atuais levando ao confronto com o espectador. A película é uma obra de arte, uma ode a um reflexo da psique de um personagem de enorme grandiosidade. Coringa é desconfortável, instável, carregado de controvérsias, e um dos filmes que melhor captura o estranho espírito do tempo, nosso Zeitgeist de 2019.

Uma mensagem sobre a nossa falta de empatia que faz com que cada vez mais pessoas com problemas passem despercebidas, sem acolhimento, relegadas ao esquecimento e ao desprezo. É uma crítica contundente a uma sociedade que sobrevive dos restos de uma minoria rica que pouco se importa com seus problemas e sua miséria, fazendo com que toda essa mistura mágica tenha como resultado o caos e a convulsão social.

Enfim, uma obra que se passa num outro tempo, mas que fala tanto de nosso presente e nos faz duvidar do futuro. Isto é, um verdadeiro soco na cara.

Conrad Veidt e Joaquin Phoenix. Disponível em https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/10/02/o-homem-que-ri-o-filme-assustador-de-palhacos-que-inspirou-coringa.htm Acesso em 16.10.2019

O Coringa, principal antagonista do Batman, foi criado em 1940 por Jerry RobinsonBill Finger e Bob Kane para a DC Comics. Sem dúvida, o vilão é uma evidente menção ao personagem Gwynplaine da obra O homem que ri (1869), de Victor Hugo. Com o propósito de exibi-lo como atração de feiras e circos, os traficantes de crianças (comprachicos) da Inglaterra do fim do século XVII cortam os dois lados da boca de Gwynplaine transformando-o num verdadeiro monstro. Contudo, é o mundo em que Gwynplanine vive que é monstruoso. O descaso com os mais desafortunados é a demonstração de uma modernidade medíocre que busca o exótico e o pitoresco na fronte dos invisíveis do capitalismo. Mais tarde, em 1928, a obra de Hugo foi apresentada em suporte cinematográfico pelo diretor expressionista alemão Paul Leni. Essa tradução intersemiótica revelou-se como a base para a criação do personagem dos quadrinhos. O filme de Leni foi visto como uma obra de terror por causa da excelente caracterização de Conrad Veidt (1893-1943), mas o gênero é evidentemente dramático. A relação com o filme de Todd Phillips, nesse sentido, fica mais próxima ainda. Coringa de Todd Phillips é o drama de um invisível que, como procuramos demonstrar, oferece um espelho melancólico de um mundo doente.

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