Marvel Comics: uma fábrica de super-heróis

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Marvel Comics: uma fábrica de super-heróis

A tarefa do herói, a ser empreendida hoje, não é mesma do século de Galileu. Onde então havia trevas, hoje há luz; mas é igualmente verdadeiro que, onde havia luz, hoje há trevas.  A moderna tarefa do herói deve configurar-se como uma busca destinada a trazer outra vez à luz a Atlântida perdida da alma coordenada.
(Joseph Campbell. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix, 2000. p. 373.)

Fonte da imagem: http://whatevercast.com.br/universidade-cria-curso-sobre-o-universo-marvel/

Olá leitor! No início dos anos 60, Martin Goodman, dono da Magazine Management Company, resolveu expandir os negócios da sua editora para o ramo dos quadrinhos. Goodman possuía um antigo interesse comercial no negócio dos super-heróis, mas a divisão da empresa que cuidava disso, a Timely Comics, assim como quase todo o mercado americano dos quadrinhos, atravessava uma fase difícil. Diz a lenda que foi numa partida de golfe com Jack Liebowitz – dono da DC Comics – que este sugeriu a Goodman a ideia de reunir equipes de super-heróis como forma de renovar o mercado dos quadrinhos. A DC já havia lançado, com sucesso, a equipe Liga da Justiça e, seguindo a orientação de Liebowitz, Goodman encarregou o jovem Stan Lee de criar uma equipe de super-heróis. Do encontro de Stan Lee com Jack Kirby e Steve Ditko surgiram personagens como Homem-Aranha, Incrível Hulk, Thor, Doutor Estranho e o Quarteto Fantástico. No final de 1962, Martin Goodman e Stan Lee, combinaram que a linha revigorada de heróis da Timely Comics levaria desde então a marca Marvel Comics.

Fonte da imagem: http://gibitecahenfilam.blogspot.com.br/

Uma história da Marvel Comics

O vencedor do Will Eisner de 2013, na categoria que premiou a melhor obra relacionada a quadrinhos, foi o livro Marvel comics: a história secreta (Leya, 2014.), de Sean Howe. Trata-se de uma história épica da trajetória da empresa Marvel Comis e de seus artistas mais conhecidos.

O autor coloca em evidência muitos personagens que, no decorrer dos anos, tornaram-se verdadeiras lendas para os aficcionados com o mundo das histórias em quadrinhos. A começar pela apresentação da trajetória de vida de Martin Goodman, Stan Lee e Jack Kirby, figuras centrais e pais fundadores da Marvel Comics, a obra de Howe oferece dados biográficos dos auteurs (para usar a pertinente expressão de François Truffau) que imprimiram sua marca nessa fantástica fábrica de super-heróis. Ao longo de quase sessenta anos de existência, nomes como os de Steve Ditko, Frank Miller, Len Wein, Chris Claremont, Todd McFarlane, Mike Deodato, dentre tantos outros, passaram a ser conhecidos como demiurgos do universo Marvel.

Evidentemente, não faltam ao livro de Sean Howe os elementos épicos próprios de um inventário do bullpen da Marvel. As idas e vindas dos artistas; a ferrenha disputa com a rival DC Comics; os impulsos lisérgicos dos anos setenta; a violência extremada nas revistas dos anos oitenta; a rota dos quadrinhos para o cinema; a morte de Jack Kirby; Stan Lee, o superstar; a debandada dos artistas para a Image Comics; as séries inesquecíveis como Guerras secretas, A saga da Fênix, Marvels, Guerra Civil etc., tudo isso guarda um inegável sentido nostálgico. Para leitores que ultrapassaram a casa dos trinta ou quarenta anos (aqui cabe uma referência ao autor desse artigo) o livro é um desfile de memórias de sensível apelo emocional.

Fonte da imagem: http://marvel.com/universe/Wolverine_(James_Howlett

Ameaça de uma história desencarnada

Há, no entanto, a necessidade de reconhecer que tantas virtudes não poderiam deixar de trazer no bojo umas quantas desditas. Em primeiro lugar, o afã de Sean Howe em inventariar tantos nomes termina por imprimir uma marca superficial à obra. Existe uma ausência relevante de aprofundamento incisivo na maioria das biografias relacionadas no livro. Depois, a análise das implicações político-sociais e o estudo do contexto de criação dos super-heróis são abafados pela voracidade globalizante do autor. Acrescente-se que as observações estéticas e o aprofundamento no contexto histórico cultural estadunidense também acabam por esbarrar no mesmo entrave da quantificação. A pretensão universalista de Howe aproxima o livro muito mais de um catálogo do bullpen da Marvel do que de uma obra historiográfica.

Uma questão que frequentemente escapa ao leitor “crítico” que procura associar as criações da Marvel Comics à execução de diabólicos planos de domínio ideológico é a da produção artística e literária. Não temos dúvidas em afirmar que ideias colonialistas fazem parte desse horizonte cultural, mas devemos interrogar sobre seu verdadeiro alcance e eficácia. Na verdade, nos anos 50 e 60, nos EUA, a produção de quadrinhos foi duramente afetada pela imposição de uma espécie de “código de conduta” (comic code) das histórias em quadrinhos. O macarthismo e as ideias reacionárias que imprimiram à sociedade americana significou um verdadeiro retrocesso cultural. No entanto, mesmo num tipo de produção gráfica absolutamente voltada para o mercado, pode-se enxergar certa resistência à “caretice” dos tempos. O lugar da resistência encontra-se na estratégia poética do detalhe. É necessário, portanto, reconhecer a dialética das ideias na produção e reprodução da cultura “enlatada” estadunidense no contexto de criação e desenvolvimento da Marvel Comics.

A posição político-ideológica de desenhistas, roteiristas, arte-finalistas, coloristas, editores etc. não pode ser ignorada. Perceber os momentos em que o homem rompe as barreiras que lhe são impostas pela cultura oferece a oportunidade de entender o detalhe. Reduzir a escala de observação parece ser o caminho correto para uma aproximação com a peculiaridade. Entendemos toda uma teia de significados ideológicos que envolve o fato dos “Inumanos” habitarem uma cidade situada nos Andes, mas não é menos emblemático que os X-Men são uma menção direta aa movimento negro dos EUA e a líderes como Malcom-X ou Martin Luther King. O Peter Parker universitário criticou os movimentos sociais no campus, mas o Pantera Negra, príncipe de Wakanda, era uma referência explícita ao grupo Black Panther. O Quarteto Fantástico surgiu para combater a “ameaça” comunista em plena Guerra Fria, mas a escalada da violência interna nos EUA pode ser acompanhada nas páginas do Demolidor de Frank Miller.

Fonte da Imagem: http://funny-pictures.picphotos.net/doctor-strange-was-created-by-spider-man-team-stan-lee-and-steve-ditko/strangeorwhat.com*wp-content*uploads*2013*06*Play-Doh-Was-Originally-Used-As-a-Wallpaper-Cleaner-02.jpg/

Uma jam session por volta da meia noite

Podemos até dizer que a produção artística da Marvel Comics expressa aquilo que de melhor os EUA legaram ao mundo. Isto é, a capacidade de construção coletiva da obra de arte. A expressão mais emblemática disso, sem dúvida, está no jazz. O jazz é uma criação coletiva que soube incorporar as diversas influências que circulavam justamente onde ele surgiu: nas ruas dos bairros pobres de New Orleans. Nesse tipo de música, mesmo que cada solista tenha espaço definido para improvisar, as intervenções dos parceiros influem diretamente nessa criação. Assim como Duke Ellington, por exemplo, sugeria um tema para improviso da orquestra, boa parte das personagens e estórias da Marvel Comics também resultaram de um semelhante processo de criação coletiva. Do roteirista ao diretor executivo, todos aqueles envolvidos no processo terminavam por determinar a estória.

Às revistas da Marvel faltava o estilo elegante da DC, mas isso era compensado pela sofisticação do traço de jack Kirby e a visão excentricamente estilizada de Steve Ditko. No entanto, ao final da década de 60, a energia criativa que havia alimentado a indústria dos super-heróis havia arrefecido. No início dos anos 70, com a saída de Jack Kirby, Steve Ditko e Jim Steranko da Marvel o que restou foi um forçado estilo da casa que todos os “criadores eram incentivados e até forçados a copiar.” Isso não quer dizer que a história da Marvel termina nessas duas décadas. A reinvenção dos personagens clássicos seria uma tópica das décadas seguintes.

Em princípios dos anos 70, quando a Marvel decidiu dar sequência mensal à série Os fabulosos X-Men, Chris Claremont, pelos catorze anos seguintes, levaria os quadrinhos na direção de tramas e caracterizações mais complexas. Claremont deu ênfase ao tema do herói deslocado em busca de algo (uma esquipe?) que se assemelhasse a uma família. Um tema com o qual muitos fãs das revistas em quadrinhos iria se identificar e pelo qual poderiam se interessar profundamente.

Frank Miller impôs o tom sombrio da “década perdida” ao personagem Demolidor. A figura do anti-herói impunha-se naqueles anos 80 e Miller capitaneava essa mudança. O impacto dos quadrinhos japoneses e dos filmes de artes marciais foi marcante em seu trabalho. Nunchakus, katanas e shurikens inundavam as páginas de violência extremada das suas produções. A figura quixotesca do herói deslocado e niilista refletia um mundo caótico de brutalidade extrema.

Nos anos 90, a Marvel buscou atrair o público masculino adolescente insistindo na cultura de superstars como Todd MacFalrlane, Jim Lee e Rob Liefeld. A celebridade que esses nomes alcançaram era algo inédito no mundo dos quadrinhos. Seus trabalhos eram bem feitos e divertidos, sem dúvida, mas “boa parte dessa obra enfatiza machões musculosos e heroínas improvavelmente sexualizadas.” Aos personagens fortões e armados somava-se o recurso do design e do marketing pesado para alcançar vendas estratosféricas de obras de pouco mérito. O boom especular que alardeava as edições como se fossem obras de colecionador impulsionava o valor da expectativa de venda. A maioria dessas publicações, como não poderia deixar de ser num processo industrial de produção de histórias em quadrinhos, não possuía qualquer valor colecionável.

Na virada do milênio, o tom sombrio da Era Miller foi suavizado quando a estética visual começou a imitar mais de perto o tom e o ritmo da narrativa cinematográfica. Brian Michael Bendis foi convocado pela Marvel para reinventar o Homem-Aranha. Enquanto isso, Grant Morrison e Frank Quitely receberam a tarefa de renovar a série X-Men. Esses artistas iriam imprimir agilidade aos diálogos e aos quadros. As alterações estilísticas refletiam s mudanças nos negócios da Marvel. A empresa agora se transformava numa usina de blockbusters para servir a Hollywood. A consolidação disso ocorreu com a aquisição da Marvel Comics pela Walt Disney Company em 2009.

Fonte da Imagem: http://longboxgraveyard.files.wordpress.com/2012/06/steve-ditko-amazing-spider-man-17.png

Considerações sobre a nostalgia

O bullpen da Marvel Comics, como dissemos, foi uma oficina de criação coletiva. Os padrões artísticos haviam sido impostos pelo modelo Lee-Kirby. Todos os criadores tiveram seu trabalho alocado, quer quisessem ou não, dentro desse paradigma denominado “universo Marvel”. No entanto, isso não impediu a dinâmica iconográfica e literária dos artistas das gerações posteriores à de Stan Lee e Jack Kirby. O universo Marvel possuía tantos mundos quantos fosse possível imaginar. De certo modo, super-heróis e vilões surgiam, morriam e renasciam ao sabor de ventos trazidos pelos autores e pelo mercado.

Lembra-se do uniforme do Quarteto Fantástico que nunca saia do seu corpo? E do escudo do Capitão América feito com a tampa da lata de lixo? O Mjölnir lançado contra um Loki imaginário era mesmo o batedor de bifes da sua mãe? Recorda dos amigos com os quais formou a equipe “Vingadores” lá no bairro? Quando conheceu os X-Men não lhe pareceu que tudo fazia sentido e que ninguém estava sozinho? Confesse. Quantas vezes você sonhou em ganhar o beijo que a MJ deu no Aranha? A toalha de banho serviu de capa para muitos heróis. E não é que você foi cada um deles!? O tempo de ler Mickey e Pato Donald definitivamente havia chegado ao fim. O universo que se descortinava naquelas páginas de papel jornal possuía trama, sequência, coerência, filosofia, física e história. Por anos a fio, aquele mundo de heróis uniformizados encantou as paredes do velho quarto de dormir.

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