Cumbe de Marcelo D’Salete: um Eisner e muitos significados

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Cumbe de Marcelo D’Salete: um Eisner e muitos significados

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

Olá, leitor! No último dia 20 de julho, Marcelo D’Salete tornou-se o mais novo brasileiro agraciado com o prêmio Eisner (The Will Eisner Comic Industry Awards). Criado em homenagem ao quadrinista e ilustrador americano Will Eisner (1917-2005), o prêmio é concedido durante a San Diego Comic-Con, na Califórnia e, desde 1987, homenageia artistas em diversas categorias. Marcelo D’Salete foi o vencedor na categoria de melhor edição americana de quadrinho estrangeiro. Seu álbum Cumbe foi traduzido para o inglês sob o título de Run for it: stories of slaves who fought for the freedom.

Em Cumbe acompanhamos a trajetória de vida de quatro escravos durante o período colonial no Brasil. D’Salete lança mão de documentos históricos escritos e orais para construir a trama. Cumbe, palavra de origem quimbundo (banto) que significa força, fogo, luz e simboliza a resistência desses quatro escravos das histórias, cada um à sua maneira, ao sistema escravista. A HQ foi o resultado de uma pesquisa histórica que começou em 2004 e foi lançada em 2014. Essa mesma pesquisa serviu também para criar o aclamado álbum Angola Janga, lançado em 2017.

O fato é que já foi inventada uma tradição na produção de arte sequencial no Brasil que remonta às pioneiras publicações de Angelo D’Agostini (As aventuras de Nhô Quim ou impressões de uma viagem à corte. 1869) na imprensa brasileira na segunda metade do século XIX e início do século XX. D’Agostini foi um pioneiro da arte sequencial moderna e sua criação foi fundadora de uma tradição marcante, de forma direta ou não, no horizonte intelectual dos artistas brasileiros. As últimas Comic Con Experience, em São Paulo, assistiram o aumento significativo da presença de artistas brasileiros. Esse é um importante indicativo do crescimento dessas publicações no Brasil. Esses artistas também produzem seus trabalhos para editoras de fora do país e, por isso, nos últimos anos, tiveram seus trabalhos reconhecidos internacionalmente. É o caso dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, de Rafael Granpá e de Marcelo D’Salete, todos eles vencedores do prêmio Eisner.

O prêmio de D’Salete, no entanto, torna-se emblemático no contexto contemporâneo. Segundo o próprio autor, suas obras são um desprendimento do incentivo dado pelas políticas afirmativas e pela lei 10.639/03. Essa lei ressalta a importância do ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas, espaço onde o negro na história do Brasil sempre é caracterizado como escravo.

É importante lembrar que o negro africano não era escravo, mas foi escravizado e forçado ao trabalho compulsório em terras americanas. O Trabalho de D’Salete procura apresentar os homens negros na história do Brasil e não indivíduos caracterizados como “coisa”. A coisificação, portanto, do negro na história do Brasil retira a humanidade dessas pessoas e trata apenas como número a tragédia do escravismo e a respectiva diáspora africana. Desse modo, fica exposta uma faceta da dominação ideológica exercida sobre a população afrodescendente no Brasil.

A negação da importância do protagonismo negro na construção identitária do país é parte de um projeto de dominação que se manifesta na estrutura racista que caracteriza a sociedade brasileira. Se a malha escravocrata que predominou nos períodos colonial e imperial no Brasil não persistiu na República, isso não significa que o sistema de dominação da maioria da população ainda não sobreviva nas péssimas condições de trabalho e salários, no genocídio da população negra jovem e no preconceito velado que exclui de forma sutil esse segmento da sociedade.

Nesse sentido, a obra de D’Salete reveste-se de significado importante porque denuncia a sobrevivência das mazelas da escravidão nos dias atuais e justifica a necessidade e efetividade das ações afirmativas. Formar motores de mudanças sociais futuras é fundamental em um momento em que foi deflagrada a perspectiva de igualdade entre todos os segmentos étnicos da sociedade brasileira. Os movimentos contrários tem sido apenas os ventos desfavoráveis ao imenso caudal de transformações em curso. É certo que estamos longe de uma democracia racial e sabemos que as desigualdades étnicas e econômicas possuem alto grau de proximidade no país. No entanto, é preciso reconhecer que as ações afirmativas são um caminho seguro para a construção de uma sociedade menos desigual.

Leitor, como já vimos, Cumbe é força, luz e sol. O álbum é bem escrito e bem desenhado. Seus poucos traços são de expressividade intensa. Sua narrativa segura e poética procura aproximar-se da interpretação histórica atual. A mensagem de Cumbe é de uma representatividade étnica impactante porque sinaliza para as demandas raciais da atualidade. O professor e designer Marcelo D’Salete desfoca o olhar tradicional sobre o papel histórico do negro e oferece uma perspectiva transformadora na construção de uma nova visão sobre as relações étnico-raciais na sociedade brasileira. O prêmio Eisner não poderia estar em melhores mãos.

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