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Crítica e Criação Literária #22: Resenha – Sing

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Olá leitores! Quem adora romances fofos que nos ajudam a dar aquele up na auto estima? Então vem conferir a resenha de Sing! Boa leitura!

Laila Ribeiro é mestra em Escrita Criativa pela PUCRS; pós-graduada em Gestão Empresarial, em Gestão Pública e MBA em Gestão de Recursos Humanos; graduada em História pela PUC Minas (2014) e em Administração Geral e Agroindustrial pela Universidade Presidente Antônio Carlos (2007). Atualmente, é membro da equipe do site literário Sobre Livros (www.sobrelivros.com.br), e mantém o canal literário https://www.youtube.com/c/ribeirolaila. Participou de antologias de contos e, em 2016, foi monitora da Oficina de Criação Literária do professor e escritor Luiz Antonio de Assis Brasil.

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HQs

Angola Janga: convite a uma reflexão antirracista

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Angola Janga: convite a uma reflexão antirracista

Cláudio Diniz

 

“O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui.”

(Gil; Caetano. 1982.)

Olá, leitor!

Angola janga (2017), de Marcelo D’Salete, é uma leitura indispensável e, sem dúvida, um dos mais importantes quadrinhos da história dessa arte no Brasil. A obra aborda a história de Zumbi e do Quilombo dos Palmares pela ótica dos vencidos. Mas ela é muito mais que isso. É o resultado de um extenso processo de pesquisa bibliográfica e documental sobre o assunto. É também uma escolha ficcional na qual o foco narrativo é muito bem manejado. O apuro estético alcançado com o uso do carvão vegetal imprime profundidade e realismo ao desenho de D’Salete. Por fim, toda a narrativa visual e escrita dessa graphic novel tem o plano sequencial ordenado por um flagrante flerte com o cinema.

https://veneta.com.br/produto/angola-janga/

O jardim de Clio.

O trabalho de Marcelo D’Salete reúne verossimilhança e historicidade da representação do passado. Angola Janga (“Pequena Angola” em quimbundo) guarda a efetividade do acontecido e a riqueza pictórica de um relato cheio de vida. A encenação ficcional dos dilemas vividos pelos personagens possibilita o engajamento do leitor num produtivo diálogo interno. A obra de D’Salete apresenta o pacto característico do romance histórico celebrado entre narrador e leitor.

Na narrativa gráfica do cotidiano e dos conflitos na Serra da Barriga, na antiga capitania de Pernambuco, Marcelo D’Salete possibilita ao leitor um encontro com uma história ainda muito pouco explorada. O Quilombo dos Palmares é um fato histórico que terminou por se tornar símbolo da resistência negra no Brasil. A figura de Zumbi alcança grande importância mítica no sentido de que povoa o imaginário dos debates sobre a luta pela liberdade e a justiça social. Se a história é a argamassa na definição da alteridade, o Quilombo dos Palmares é um pilar na construção das identidades negras.

Portugal procurou criar as condições para o Brasil se enquadrar no pacto colonial mercantilista entre os séculos XVI e XVIII. Os portugueses concentraram seus esforços para a colônia se transformar num grande produtor de açúcar de modo a abastecer a demanda do mercado internacional e se beneficiar dos lucros de sua comercialização. Os engenhos de açúcar na Capitania de Pernambuco, a partir de 1570, assumiram o protagonismo econômico do governo colonial português.

Para suprir a demanda de mão-de-obra na monocultura canavieira, Portugal decidiu pela utilização do trabalho compulsório de africanos. A introdução do trabalho escravo na produção do açúcar baixava os custos de sua produção. Os portugueses também exploravam o lucrativo tráfico de escravos negros africanos. E a simples existência do tráfico já constituía um estímulo à utilização da mão-de-obra escrava nas colônias pertencentes a Portugal.

O primeiro registro conhecido que faz menção ao Quilombo dos Palmares remonta a 1597, mas é possível supor que ele já existisse antes desse tempo. Palmares foi o resultado de uma junção de mocambos construídos na Serra da Barriga, na atual divisa dos estados de Alagoas e Pernambuco. No caso de Palmares, os mocambos formavam uma espécie de confederação quilombola que se estendia por um vasto território. O centro administrativo da confederação era o mocambo Cerca Real de Macaco. O caminho que levava a Macaco era conhecido apenas pelos quilombolas e toda a organização social, política e econômica assemelhava-se a um pequeno Estado africano.

A presença holandesa na Capitania de Pernambuco (1630-1654) desorganizou a indústria açucareira e criou um vazio de poder que possibilitou a fuga massiva de escravos. Foi o período de maior crescimento de Angola Janga ou do Quilombo dos Palmares. Os quilombolas organizaram expedições de libertação de escravos nos engenhos da Capitania levando o medo e o pavor à população da colônia. As táticas de guerrilha e de incursões rápidas contavam com a genialidade de seus líderes militares. A figura de Zumbi (1655-1695), sucessor de Ganga Zumba (1630-1678), teve importância capital na organização militar dos quilombolas. Zumbi nasceu livre na Serra da Barriga, mas foi capturado aos seis anos de idade e educado pelo padre Antônio de Melo. Batizado como Francisco, aprendeu português, latim, história e, provavelmente, foi assim que fortaleceu seu espírito guerreiro com conhecimento estratégico.

Muitas Entradas foram organizadas pelo governo colonial na tentativa de destruir o quilombo. Com a expulsão dos holandeses da capitania, até o Terço dos Henriques, batalhão de homens negros e mestiços criado em homenagem a Henrique Dias, herói na luta contra os invasores, foi lançado contra Palmares. Não obtiveram sucesso assim como todas as expedições anteriores. Tentativas de acordos de paz com promessas de perdão tampouco lograram êxito. Ganga Zumba, primeiro líder de Palmares, chegou a aceitar um acordo de paz com o governador da Capitania de Pernambuco, Pedro de Almeida (1630-1679), mas descobriu tarde demais que foi ludibriado. Alguns dizem que Ganga Zumba foi assassinado por seguidores de Zumbi, outros afirmam que foram seus próprios homens que o mataram e, ainda, há aqueles que dizem que cometeu suicídio ao perceber que fora enganado pelos portugueses.

Finalmente, em 06 de fevereiro de 1694, o bandeirante Domingos Jorge Velho (1641-1705) e o capitão-mor Bernardo Vieira de Melo (1658-1714), à frente de um batalhão de mais de seis mil homens, atacou e conquistou a Cerca Real de Macaco. Começava a destruição dos mocambos do Quilombo dos Palmares que se arrastaria pelas próximas três décadas. Zumbi conseguiu fugir por quase dois anos pela Serra da Barriga, mas foi atraiçoado e morto em 20 de novembro de 1695. Nesse dia, no Brasil, comemora-se o Dia Nacional de Zumbi ou da Consciência Negra.

Angola Janga, como dissemos, revela uma história de resistência ainda pouco conhecida pela maioria dos brasileiros. A leitura dessa obra permite também questionar a instância metalinguística na tensão que estabelece entre o passado e o presente. Os questionamentos e o confronto com a contemporaneidade da questão racial no Brasil são inevitáveis. Por ser uma obra aberta, nas perguntas lançadas ao passado ecoam as vozes ansiosas do presente.

https://revistacult.uol.com.br/home/graphic-novel-angola-janga-palmares/

O racismo nosso de cada dia.

O racismo no Brasil é uma construção social e histórica envolvida no tecido estrutural da sociedade. Isso quer dizer que o racismo não é algo naturalizado, mas que constitui e se constrói nas relações sociais em sua porção consciente e inconsciente. Ele faz parte do funcionamento dito “normal” da vida cotidiana nas dimensões econômica, política e psicológica.

O constrangimento cotidiano do racismo estrutural faz parte da dinâmica social e de sua própria racionalidade. Toda a estrutura da sociedade funciona em torno de uma razão racista que estabelece a polarização política, econômica e legal entre brancos e negros. A pequena representatividade negra nas instituições políticas e jurídicas brasileiras seria demonstração suficiente do funcionamento do racismo estrutural não fosse tão evidente falar também da maior incidência de impostos sobre as pessoas negras, particularmente as mulheres, e de um ordenamento jurídico direcionado para a criminalização da cor preta. Enquanto os espaços de privilégio e poder são ocupados por brancos, o lugar da servidão e da subcidadania segue destinado ao povo negro.

https://www.geledes.org.br/angola-janga-conta-em-quadrinhos-historia-de-zumbi-dos-palmares/

O lugar de fala como espaço de manifestação legítima de subjetividades é importante e deve ser considerado em todos os debates. Mas parece que o estabelecimento de limites ainda não é suficiente diante de relações sociais, econômicas e políticas desiguais entre brancos e negros. E quase todos os detentores da riqueza e do poder são brancos. O fosso entre ricos e pobres é tão grande que obriga a quase totalidade da população a produzir a riqueza de menos de 1% dela. Os dados fornecidos pelo IBGE, IPEA, Oxfam Brasil, dentre outros, definem a imensidão de nossa desigualdade social e racial.

A população pobre é quase toda preta. Parece óbvio dizer isso, mas quem está abaixo da linha de pobreza é negro. Na cor ou na alma. Essas pessoas formam a “ralé brasileira”, de quase 100 milhões de pessoas, conforme já foi descrita por sociólogos como Florestan Fernandes e Jessé Souza. Essa imensa minoria ainda vive em conformidade com um passado de escravidão. A ralé brasileira é uma “classe sem futuro” que vive para “ser explorada a preço vil” (SOUZA. 2017. P. 67.). O 13 de maio de 1888 representou tão somente uma mudança de status legal. No limite, as condições sociais e econômicas dessa classe não sofreram grandes transformações.

Abismos tropicais.

O quadro da desigualdade racial é institucionalizado por meio do encarceramento em massa de negros. A autoridade do Estado sustenta-se na produção de inimigos internos, quase todos negros, e no uso sistemático da violência contra minorias e movimentos sociais. A luta de classes por privilégios construiu alianças e preconceitos através da legitimação intelectual da dominação oligárquica.

As elites do atraso contam com uma Intelligentsia para a produção em massa de ideologias liberais-conservadoras, revanchistas e militaristas que terminam por construir uma cultura de ódio às minorias. Por isso, a criminalização do negro, jovem e morador de periferia é a tônica do pensamento autoritário compartilhado por milhões de brasileiros. O modo cruel e medíocre como se banaliza o mal cometido contra as minorias raciais e sociais é a substância dessas ideologias. O ódio ao pobre de hoje é o mesmo ódio devotado ao escravo de antes.

http://www.pordentrodaafrica.com/wp-content/uploads/2018/12/quadrinhos.jpg

Num país onde 56% da população é negra e a população pobre quase toda é negra também, o único modo de assegurar a estrutura de desigualdades é com o uso sistematizado da violência. Essa violência, que é física e simbólica, tem na expropriação e desumanização do negro uma forma de naturalizar a existência do racismo estrutural.

Os exemplos da extrema violência sofrida por mulheres negras e homens negros dão conta de uma condição que faz parte do processo histórico da sociedade brasileira. A rede Observatório da Segurança publicou há pouco o relatório Racismo motor da violência (2020) que confirma que, entre junho de 2019 e junho de 2020, 75% das pessoas mortas pela polícia eram negras. Da mesma forma, dentre todos os policiais mortos em confrontos no último ano, aproximadamente 62% eram negros.

Um caso recente dá conta do que estamos falando. Enquanto o presidente do STJ, João Otávio Noronha, concedia um habeas corpus a Fabrício Queiroz, o amigo miliciano da família Bolsonaro, um jovem negro, preso por conta de 10 (dez) gramas de maconha, a quem foi negado o habeas corpus, morreu de COVID-19 num presídio em Minas Gerais. Certamente, essa seria uma situação eventual não fosse o fato de que o presídio onde Lucas Morais morreu tem capacidade para 193 presos e 159 deles foram contaminados.

As imagens da mulher negra pisoteada no pescoço pelo policial branco, em Parelheiros, zona sul de São Paulo, evocam as gravuras oitocentistas de Debret (1768-1848) e Rugendas (1802-1858). Nelas figuram representações de escravos sendo supliciados, muitas vezes, por outros negros. A escravidão, portanto, é o berço de toda a estrutura desigual e racista da sociedade brasileira. É muito significativo o verso da canção Haiti (1982), de Gil e Caetano, que diz que tudo isso acontece “só pra mostrar aos outros quase pretos (e são quase todos pretos), e aos quase brancos, pobres como pretos, como é que pretos, pobres e mulatos e quase brancos, quase pretos de tão pobres, são tratados”.

https://www.waldineypassos.com.br/policial-que-pisoteou-pescoco-de-mulher-negra-durante-abordagem-e-denunciado-a-oea/

https://www.waldineypassos.com.br/policial-que-pisoteou-pescoco-de-mulher-negra-durante-abordagem-e-denunciado-a-oea/

Os ventos da diversidade.

É muito importante considerar o lugar de fala como espaço de respeito à diversidade étnica e de gênero. É necessário reconhecer os privilégios da branquitude para operar mudanças estruturais. Mulheres e homens brancos devem compreender que essa esfera de privilégios no Brasil é garantida através da exploração de uma “ralé” composta de mulheres e homens negros.

De fato, o processo de mudança na estrutura ideológica da sociedade é lento demais. São as ações afirmativas que possibilitam o empoderamento necessário para que grupos minoritários adquiram as forças necessárias para enfrentar o ideário racista. No entanto, as pessoas brancas também precisam compreender o modo como opera o racismo estrutural.  A consciência da prevalência branca nos espaços de poder, segundo a filósofa Djamila Ribeiro, “permite que as pessoas se responsabilizem e tomem atitudes para combater e transformar o perverso sistema racial que estrutura a sociedade brasileira” (2019. P. 25.).

O lugar de fala não é lugar de fragmentação, mas de diálogo. É um espaço de reconhecimento das diferenças. É falar e ouvir do lugar de onde pertencemos reconhecendo a diferença e o direito do outro. O lugar de fala é também lugar de ouvir. É lugar de derrubar muros porque a pauta antirracista é transversal. A adesão de brancos a essa luta desconstrói as narrativas de ódio que fundamentam o racismo estrutural. Somente a radicalização horizontal da democracia pode determinar o fim da centralidade do racismo nas relações sociais brasileiras.

O Capital tem alta capacidade de se reinventar e, diante do atual levante antirracista pelo mundo, o discurso de inclusão deve se sustentar na prática. Aqueles que lutam contra o racismo não podem aceitar o neoliberalismo e sua pauta de desigualdades. A ideia de democracia racial é tão falsa quanto a ideia de democracia social. A população negra e pobre carece da possibilidade de acesso às condições mínimas para uma vida digna. A luta antirracista exige a consciência de que nenhuma subjetividade isolada poderá transformar a estrutura de desigualdades do sistema capitalista.

A história de Zumbi e do Quilombo dos Palmares, contada em Angola Janga, deve ser lida como uma narrativa histórica e ficcional rigorosamente construída por Marcelo D’Salete. Contudo, também é um grito de resistência que ecoa através dos três séculos e meio desde que Ganga Zumba, Acotirene, Zumbi, Dandara e tantos outros guerreiros e guerreiras lutaram na Serra da Barriga.

 

Bibliografia.

ALMEIDA. Sílvio. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018.

CARREIRA, Denise. O lugar dos sujeitos brancos na luta antirracista. Sur: revista internacional de direitos humanos. V. 15, n. 28, São Paulo, p. 127-140, Dezembro, 2018.

D’SALETE, Marcelo. Angola janga: uma história de Palmares. São Paulo: Veneta, 2017.

GOMES, Flávio dos Santos. De olho e Zumbi dos Palmares. São Paulo: Claro Enigma, 2011.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.

_______, ______. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Cia. das Letras, 2019.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à lava jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

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Destaques

A “poética do detalhe” em Persépolis de Marjane Satrapi: Revolução Iraniana (1979) e resistência feminina

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A “poética do detalhe” em Persépolis de Marjane Satrapi: Revolução Iraniana (1979) e resistência feminina.

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

 

Em 1990, a época dos grandes ideais revolucionários e das manifestações tinha acabado. Entre 1980 e 1983, o governo tinha prendido e executado tantos secundaristas e universitários que a gente não se atrevia a falar de política. Nossa luta era mais discreta. Estava nos pequenos detalhes. Para os nossos dirigentes, qualquer coisinha poderia ser sinal de subversão. Pois é… Tudo era pretexto para nos prender.

(Marjane Satrapi, 2007)

Olá leitor! A cidade de persépolis (Takhte Jamshid – 518-331 ac.) foi a capital dos antigos governantes do Império Persa, os Aquemênidas. As ruínas da capital, redescobertas em 1930, ao sul do Irã, atestam a grandiosidade da cultura persa. Nos seus arredores, ficam os túmulos dos imperadores Dario e Xerxes. A maior parte das informações dessa cultura encontra-se nos relatos gregos porque muito pouco da produção escrita dos persas, que era imensa, chegou até nós. No terceiro século antes da era cristã, Alexandre da Macedônia saqueou e incendiou a cidade de Persépolis. Movido por antigas rivalidades – como o incêndio de Atenas, promovido por Xerxes, em 480 ac. -, o helenista deu provas de sua gananciosa barbárie.

A escritora iraniana Marjane Satrapi confeccionou sua autobiografia, em formato de graphic novel, utilizando-se de elementos épicos da história da Pérsia e a arte pop ocidental. Aliás, como a obra foi publicada na França (2000), é correto se referir ao suporte usado por Satrapi como BD (bande-dessinée). A Persépolis de Satrapi aproxima o antigo do moderno, o épico do pop e o drama do humor. Na leitura da obra fica evidente o fato de que a autora procura afirmar uma identidade muito mais antiga que o regime dos aiatolás. Nesse caso, é perceptível que a orientação política da obra relaciona-se à negação e resistência velada ao regime ditatorial no Irã.

A estética da obra, em branco e preto, também é uma crítica à imposição da sharia xiita referente aos costumes ultraconservadores impostos à mulher iraniana. A imposição do shador (véu escuro), por exemplo, é vista como emblema de repressão. Apesar disso, Marjane Satrapi revela o modo como as pessoas podem desenvolver estratégias de sobrevivência em situações extremas. A vida, que se esvai com tamanha facilidade, recebe um significado especial nesse cenário marcado pela Revolução Iraniana (1979) e a consequente aniquilação das liberdades civis.

A história do Irã, no século XX, foi assinalada pelos interesses da indústria ocidental do petróleo. O imperialismo britânico dominou a região até 1951, quando o primeiro ministro iraniano, Mohammad Mossadegh, nacionalizou a exploração petrolífera. Em 1953, Mohamed Reza Pahlevi implantou uma ditadura comprometida com os interesses do bloco capitalista. O Irã foi tomado de práticas e padrões de consumo do Ocidente. Acrescente-se a isso, o fato de que, em plena Guerra Fria, a fronteira do Irã com a URSS deveria ser interessante aos olhos da OTAN.

Ao mesmo tempo, no interior das mesquitas, um discurso nacional fundamentalista ganhava contornos na figura do aiatolá Ruhollah Khomeini. No fim dos anos 70, Khomeini estava no exílio, mas sua voz era ouvida por todo o Irã, nas fitas K7 que o líder islâmico enviava do exterior. A interferência política conservadora do clero iraniano tornou-se uma espécie de alternativa à administração denominada “libertina” de Reza Pahlevi. Finalmente, em 1979, o governo Pahlevi sucumbiu à onda de protestos e revoltas no país. Khomeini instaurava o regime dos aiatolás.

Um ano após o golpe de Khomeini, o cenário iraniano era bastante caótico e desagradável aos interesses do bloco capitalista. Saddam Hussein, presidente iraquiano apoiado por Washington, promoveu uma guerra contra o Irã. Seus objetivos eram enfraquecer a influência política dos xiitas e controlar as reservas de petróleo iranianas. A Guerra Irã-Iraque matou quase um milhão de pessoas e deixou sequelas nos dois países.

O aiatolá Khomeini morreu logo após a guerra. Seu sucessor, o aiatolá Ali Khamenei, mostrou-se mais receptivo a pequenas alterações na sharia xiita. Uma luz de esperança, mesmo que tímida, acendeu o coração dos iranianos. A eleição de presidentes moderados – como Ali Rafsanjani (1989-1997), Sayed Khatami (1997-2005), Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), Mohammad Khatami (2013-2021) – dá mostras de um país ainda polarizado na encruzilhada dos antigos com os modernos.

Parece-nos, ainda, que existe um nível mais profundo na obra de Marjane Satrapi. Em Persépolis, a instância da memória inventa e assegura a existência de uma identidade capaz de resistir ao próprio tempo. “Nunca se esqueça”, diz o pai de Marjie, “de quem você é e de onde vem.” A identidade, então, é essa rocha que dá sustentabilidade à história da autora e do Irã. Uma terra que sobreviveu a imperadores, califas e xás, só o fez porque soube preservar e reinventar sua identidade. Se o pano de fundo, em Persépolis, é a história trágica do Irã, o eixo central da narrativa é a identidade feminina e sua condição objetiva de existência sob a hostilidade de um regime autoritário.

A propósito, o lado mais encantador da autobiografia de Marjane Satrapi é o olhar feminino lançado sobre a história. É um ponto de vista desfocado da análise consensual. Persépolis escapa às opiniões pré-fabricadas para oferecer um retrato pessoal da sociedade iraniana. Sabemos que Marjane Satrapi é proveniente dos grupos mais favorecidos do Irã, com ancestrais entre os imperadores persas e que sua família ideologicamente aproxima-se de horizontes marxistas. No entanto, não é a veracidade da informação que mais importa à análise da autobiografia, mas a sua sinceridade. Em Persépolis, a “poética do detalhe” aproxima a análise sociocultural do pormenor cotidiano. O processo sorrateiro de luta pela sobrevivência física e espiritual ganha contornos subjetivos. A linguagem dos detalhes evidencia aquela afirmação de Foucault de que onde existe poder também existe resistência.

Fabricar o consenso é obter apoio criando “ilusões necessárias”. A visão orientalistsa, característica indelével do olhar colonizador, evidencia apenas o lado exótico e ou violento do mundo islâmico. Não é preciso dizer que na obra de Marjane Satrapi não há espaço para esse tipo de estereótipo. O que observamos em Persépolis é a narrativa de uma vida nada comum e as delícias, as dores e a resistência que ela pode oferecer.

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Cinema

Coringa, de Todd Phillips, o espelho de um mundo doente

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Coringa, de Todd Phillips, o espelho de um mundo doente

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

 

“É do inferno dos pobres que é feito o paraíso dos ricos.”

(Victor Hugo)

Olá, Leitor!

Uma das tópicas mais importantes do filme Coringa (2019), de Todd Phillips, é a melancolia do palhaço fracassado que enxerga na violência desmedida um caminho a seguir em meio ao caos de um mundo que não deu certo. O cenário é uma Gothan City que poderia se assemelhar a qualquer cidade onde a falta de esperança num Estado que “caga” para o cidadão resulta na revolta das maiorias silenciosas. O desprezo dos mais ricos com os deserdados do capitalismo conduz à carnavalização da miséria no festim diabólico da indústria cultural. No fim, a revolta iminente dos invisíveis da história não é apenas uma visão dantesca de um inferno utópico, mas uma assustadora e complexa escatologia.

Definitivamente, não é um filme que deve ser interpretado com simplismo a partir de uma chave de leitura política de direita ou de esquerda. Tampouco, uma ficção baseada no projeto de desenvolvimento da origem do vilão como já se fez para o próprio Batman. Na Gotham de Todd Phillips, não há espaço para romantismos de qualquer inspiração. Coringa é um filme que impacta porque é perturbador, sanguinário e sem um sentido ficcional previamente estabelecido. Talvez, a chave de leitura mais importante do filme reside na percepção de que o protagonista desse thriller dramático está muito mais próximo do ser humano do que jamais se pensou que tal vilão poderia estar.

Disponível em https://www.cineset.com.br/critica-coringa-joaquin-phoenix-2019/ Acesso em 16.10.2019

“Um soco na cara” é uma possível definição que se pode ter após assistir a este filme perturbador e magnífico.

Logo no início da sessão nos deparamos com um protagonista doente, que necessita da ajuda do Estado para cuidar de si e da mãe convalescente. Sua perturbação e suas preocupações são grandes.

O clima que envolve a trama, sua fotografia e a forma como são expostos os seus dramas nos comovem desde o primeiro momento pois, a imersão no universo do personagem é enorme e tudo o que lhe acomete provoca um grande incômodo.

Se existe uma palavra para definir o que sentimos ao longo das mais de duas horas de filme é desconforto. Desconforto ao ver uma Gotham decadente, suja, desorganizada, sem apoio político para as pessoas menos favorecidas e desconfiada, acima de tudo, de sua classe política que nada faz pelos cidadãos. Afinal, a invisibilidade social e o desprezo aos mais necessitados é recorrente. É neste cenário que está Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um palhaço triste e sem talento, que sobrevive em meio à criminalidade e à dificuldades econômica. Um cara ocupado com trabalhos pouco dignos e que busca ganhar a vida fazendo os outros rir numa Gotham City sem qualquer disposição para isso. A cidade cheia de lixo, fruto de uma greve prolongada do serviço de limpeza urbana, é apenas uma dentre as várias metáforas visuais do filme.

O pobre e solitário palhaço vive com a sua mãe doente (Frances Conroy), que o chama desde criança de happy (uma pequena ironia relacionada com um problema neurológico que faz com que Arthur ria de forma descontrolada quando se sente eufórico ou nervoso). Mãe e filho, carregados de traumas psicológicos, apoiam-se na esperança de que o magnata Thomas Wayne  apareça para ajuda-los porque, supostamente, ele seria o pai biológico de Arthur Fleck.

Devido a sua doença ele carrega consigo um cartão para explicar sua condição e o entrega a desconhecidos sempre que tem um ataque de riso no momento errado, o que é deprimente. Arthur é uma vítima na maior parte da história, humilhado e enganado por todos, e que se afunda cada vez mais numa miséria tão abismal que o suicídio é uma ideia recorrente. No entanto, Arthur acaba se transformando em um assassino frio e cruel. Esse processo é gradual e nos faz questionar se alguns daqueles problemas poderiam acometer qualquer um de nós em algum momento.

É de se esperar, tendo em vista toda a história, canônica ou não, que a transformação de Arthur seja uma coisa previsível desde o primeiro frame, porém a história ainda consegue oferecer algumas surpresas ao longo da descida de Arthur à loucura homicida.

Pode-se perceber as inúmeras influências diretas presentes no filme e alguns fans services. Os rascunhos no diário, no qual anota suas ideias criativas fazem lembrar de Psicopata Americano (2000). A narrativa triste remete a HQ A Piada Mortal (1988) e a sequência no talk show tem uma homenagem ao seminal O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller. A presença de Robert DeNiro como o apresentador Murray Franklin, uma inversão propositada de O Rei da Comédia (1983), em que o apresentador era Jerry Lewis e De Niro fazia o papel do sociopata que aspirava ser comediante. Zazie Beets traz uma normalidade precisa ao papel de vizinha e interesse amoroso de Arthur e, Frances Conroy, representa com brilho uma mãe instável.

Coringas. Disponível em https://nerdficina.com.br/2018/09/25/a-evolucao-do-coringa-nos-cinemas/ Acesso em 16.10.2019

Enquanto o Coringa de O Cavaleiro das Trevas é uma encarnação enigmática, porém de ótimo gosto, de puro caos, imprevisibilidade e animalesco, Joaquin Phoenix concretiza sua interpretação tornando o personagem mais humano e tridimensional.

O Coringa de Phoenix é um personagem renovado, uma versão mais fiel às HQ’s, mais patético, mais performático e, ao mesmo tempo, com sequências de dança e expressões corporais memoráveis que remetem  ao personagem Alex, de Laranja Mecânica (1972). O trabalho de Joaquin Phoenix é fantástico até nos mais pequenos detalhes. Os 23 kg a menos, as unhas roídas até ao sabugo e, propositalmente, manchadas de nicotina, ajudam Phoenix a compor a encarnação real de Arthur, dá a ele substância.

Percebe-se que a linha criativa que Todd Phillips procura seguir é a de Martin Scorcese. Este é sua inspiração e o filme claramente baseia-se nos clássicos dos anos 70 como O Rei da Comédia e Taxi Driver (1976). É uma interpretação profunda, construída sobre um ponto de vista subjetivo de uma pessoa com graves distúrbios mentais que se arrasta lutando para sobreviver. A trilha sonora completa a imersão do filme. É o melhor trabalho de Todd Phillips, incluindo o figurino, produção e fotografia impecável.

Existe, porém, uma tênue camada de interpretação. Para uns isso pode levar a uma glamorização do vilão carismático e seu comportamento. Porém, subsiste certa discussão sobre o fato de o personagem poder ou não incentivar as massas para a desordem e o caos por motivo do tamanho desconforto e inquietação dessa película. Mas, absolutamente, o Coringa não foi feito para ser uma apologia ao comportamento de seus personagens. Talvez seja um instrumento fantástico de questionamento das mazelas do nosso tempo. Entretanto, podemos pensar que ele é uma interpretação fidedigna de uma realidade atual e maçante, aturdido por um sistema, seja ele político e ou financeiro, que espreme as pessoas que precisam de ajuda, que esmaga os mais necessitados. Ao mesmo tempo, é uma crítica a muitos comportamentos da nossa sociedade doente, um questionamento sobre tudo o que fazemos no mundo.

É claro que um filme sobre um dos maiores vilões da cultura pop não poderia deixar de se atirar nos temas atuais levando ao confronto com o espectador. A película é uma obra de arte, uma ode a um reflexo da psique de um personagem de enorme grandiosidade. Coringa é desconfortável, instável, carregado de controvérsias, e um dos filmes que melhor captura o estranho espírito do tempo, nosso Zeitgeist de 2019.

Uma mensagem sobre a nossa falta de empatia que faz com que cada vez mais pessoas com problemas passem despercebidas, sem acolhimento, relegadas ao esquecimento e ao desprezo. É uma crítica contundente a uma sociedade que sobrevive dos restos de uma minoria rica que pouco se importa com seus problemas e sua miséria, fazendo com que toda essa mistura mágica tenha como resultado o caos e a convulsão social.

Enfim, uma obra que se passa num outro tempo, mas que fala tanto de nosso presente e nos faz duvidar do futuro. Isto é, um verdadeiro soco na cara.

Conrad Veidt e Joaquin Phoenix. Disponível em https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/10/02/o-homem-que-ri-o-filme-assustador-de-palhacos-que-inspirou-coringa.htm Acesso em 16.10.2019

O Coringa, principal antagonista do Batman, foi criado em 1940 por Jerry RobinsonBill Finger e Bob Kane para a DC Comics. Sem dúvida, o vilão é uma evidente menção ao personagem Gwynplaine da obra O homem que ri (1869), de Victor Hugo. Com o propósito de exibi-lo como atração de feiras e circos, os traficantes de crianças (comprachicos) da Inglaterra do fim do século XVII cortam os dois lados da boca de Gwynplaine transformando-o num verdadeiro monstro. Contudo, é o mundo em que Gwynplanine vive que é monstruoso. O descaso com os mais desafortunados é a demonstração de uma modernidade medíocre que busca o exótico e o pitoresco na fronte dos invisíveis do capitalismo. Mais tarde, em 1928, a obra de Hugo foi apresentada em suporte cinematográfico pelo diretor expressionista alemão Paul Leni. Essa tradução intersemiótica revelou-se como a base para a criação do personagem dos quadrinhos. O filme de Leni foi visto como uma obra de terror por causa da excelente caracterização de Conrad Veidt (1893-1943), mas o gênero é evidentemente dramático. A relação com o filme de Todd Phillips, nesse sentido, fica mais próxima ainda. Coringa de Todd Phillips é o drama de um invisível que, como procuramos demonstrar, oferece um espelho melancólico de um mundo doente.

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