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Crítica e Criação Literária #19: Resenha – Esta terra selvagem

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Olá leitores! Vem conferir a minha melhor leitura de 2016! E de quebra, morrer de curiosidade sobre quem é o dono desse pseudônimo. Boa leitura!

Laila Ribeiro é mestra em Escrita Criativa pela PUCRS; pós-graduada em Gestão Empresarial, em Gestão Pública e MBA em Gestão de Recursos Humanos; graduada em História pela PUC Minas (2014) e em Administração Geral e Agroindustrial pela Universidade Presidente Antônio Carlos (2007). Atualmente, é membro da equipe do site literário Sobre Livros (www.sobrelivros.com.br), e mantém o canal literário https://www.youtube.com/c/ribeirolaila. Participou de antologias de contos e, em 2016, foi monitora da Oficina de Criação Literária do professor e escritor Luiz Antonio de Assis Brasil.

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The Sandman | O Mal-estar da Eternidade

Em nova coluna “Sobre Quadrinhos” no site Sobre Livros, reflexões sobre Sandman, personagem criado pelo escritor inglês Neil Gaiman.

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The Sandman: O Mal-estar da Eternidade

If only i was sure

That my head on the door was a dream.”

(The cure. Close to me. In:  The head on the door. 1985.)

Olá leitor! No verão de 2013 a San Diego Comic-Con comemorou os 25 anos do lançamento da série Sandman de Neil Gaiman. Na ocasião, o autor revelou as identidades “secretas” desse ilustre personagem. Para ele, Sam Keith, desenhista das primeiras edições, teria se inspirado em pessoas como Bono Vox, David Bowie e Robert Smith para recriar o Sandman. Com Gaiman, o antigo personagem da DC comics ganhou roupas novas. Harlan Ellison assinala, numa introdução à Estação das Brumas (Conrad. 2006.), a pertinência do personagem. Em comparação aos outros sandmans da DC, afirma Ellison, o de Neil Gaiman “deixou de ser apenas uma figura mítica, fabulosa e divertida para se tornar um símbolo da excelência num mundo em que a mediocridade é nossa prisão cotidiana.”

Sandman 1

A propósito, na obra de Neil Gaiman, as referências pululam entre o pop rock, a literatura clássica, os contos de terror, a arte gótica e até numa raríssima garrafa de Chateau Lafitte compartilhada com Hob Gadling Difícil encontrar um leitor de quadrinhos que não tenha ouvido falar de Neil Gaiman. O trabalho sistemático em Sandman, de 1988 a 1996, rendeu-lhe muita experiência e, claro, uma grande quantidade de prêmios. Prova disso é o fato de que só o prêmio Will Eisner, uma espécie de Oscar dos quadrinhos, o autor ganhou treze vezes. Sandman (além de O cavaleiro das trevas, Watchmen e Mauss) ocupa a lista do The New York Times dos cem livros mais vendidos de todos os tempos. Neil Gaiman é inglês, tem três filhos e mora nos EUA. Mora com Amanda Palmer e já viveu mais de cinco décadas.

Sandman 2

The Sandman é o nome de uma série de personagens do universo DC. Desnecessário mencionar que o personagem é uma referência aos seres mitológicos que existem em diversas culturas (Morfeus, João Pestana, Serápis, Kitsune etc.) como modeladores dos sonhos. O primeiro Sandman a surgir no universo DC foi um milionário detetive, Wesley Dodds, criado nos anos 30 por Gordon Fox e Bert Christman. Wesley Dodds foi membro honorário da importante Sociedade da Justiça da América, precursora da Liga da Justiça. Na década de 70, Joe Simon e Jack Kirby reviveram o Sandman na pele de um super-herói protetor das crianças contra os pesadelos do sono. Antes mesmo do Sandman de Neil Gaiman, ele faria parte dos roteiros de Roy Thomas (Wonder Woman) e de Paul Levitz e Len Wein (Justice League) no início dos anos 80. No fim da mesma década ressurgiria na obra de Rick Veitch (Swamp Thing) e, finalmente nas páginas de Neil Gaiman.

O Sandman de Neil Gaiman, como se viu, é uma sucessão de ressignificações. Nessas estórias foi recriado o protagonista e alguns personagens há muito esquecidos do universo DC. Neil Gaiman refere-se à “combinação terror, fantasia e super-heróis” como a principal força motriz das estórias de Sandman. Para o reino de Sandman seguem as almas de todos os que dormem. Sandman é antropofágico. Quer dizer, quem mais iria trazer à baila Caim e Abel, Eva e outros personagens secundários da DC no final dos anos 80? O último voo de Lúcifer pelo inferno, com Sandman por companhia, evoca as obras de Dante e Milton. Onde mais alguém como Samuel Clemens, vulgo Mark Twain, teria inventado Joshua Norton, primeiro e único a se declarar imperador dos EUA e continuar vivo? Ressuscitar Aleister Crowley e Roderick Burgess, após Jimmy Page e Raul Seixas, foi uma tacada de mestre.

A série de Neil Gaiman teve setenta e cinco edições divididas em dez arcos principais. Os arcos podem ser vistos em separado, mas há um tênue fio a conduzir sua sequência. A maleabilidade do roteiro legitima a presença variada de desenhos. Daí a grande quantidade de desenhistas (Bill Sienkiewicz, Dave MaKean, Dick Giordano, Gorge Pratt, Matt Wagner, Milo Manara, Mike Dringenberg, Yoshitaka Amano etc.) nas estórias de Sonho dos Perpétuos. Sandman cria e personifica o sonho. Ele é o próprio sonhar. Cada Perpétuo (Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo e Desespero), seres antropomórficos que existem desde a origem dos tempos, define a si mesmo e o seu oposto. Do mesmo modo com que Morte determina a vida, o rei Sonho define a realidade. Quer dizer, Sandman é o demiurgo do sonhar e, também, do despertar. Em termos metalinguísticos, Sandman caracteriza a presença do autor como modelador da própria estória.

Sandman 3

A série Sandman é dionisíaca no uso de recursos da tragédia clássica. Na narrativa de Gaiman, Sandman surge como uma espécie de deus ex machina. Isto é, Sandman aparece como solução mirabolante para desatar os nós da trama. É um recurso utilizado na tragédia grega que oferece uma solução não-natural à estória. Como se vê, a narrativa pós-moderna de Neil Gaiman assenta-se em bases antigas. Já nos referimos à variedade de leituras de Neil Gaiman para compor o Sandman. As referências mais explícitas, sem dúvida, encontram-se nas mitologias grega, egípcia, nórdica, japonesa etc. As citações que abundam na narrativa de Sandman espelham a erudição do autor e indicam o caráter universal da obra. Seu único limite (até os Perpétuos possuem algum) é o universo da DC comics. Ainda assim, ao engendrar uma nova estória, Neil Gaiman cria um novo universo. A ideia de universos paralelos nunca fez tanto sentido.

Pode-se dizer que Sandman é um personagem triste. Na solidão de monarca único revela-se uma alma melancólica. Seu caráter é de tristeza com sintomas de deslocamento. Sandman vive a constante sensação de não-estar e de não-pertencer a nenhum lugar e a nada. Isso implica na saudade de um tempo não-vivido e na identificação do seu ego com a representação daquilo que desapareceu. Sandman molda o sonhar, mas não o tempo. As cicatrizes da memória preenchem sua alma. Os equívocos do passado sempre o atormentam e a estória do mestre dos sonhos desenvolve-se em meios às lembranças de culpas e crimes passados. Incapaz de romper com o processo histórico, o rei dos sonhos acumula tristezas muito humanas para um ser perpétuo. Ele é a representação erudita de um mundo em plena decomposição. Os heróis se revelaram covardes e os inimigos estão à espreita. Nesse caso, Sandman representa o anti-herói que sobreviveu aos movimentos de contracultura. O típico “rapaz mais triste do mundo” dos anos 80.

Sandman 4

Leitor, devo revelar que Sandman morre no fim da saga. O cortejo fúnebre foi seguido pelos personagens de suas estórias. “Passo a passo, cruzavam o céu como gigantes, levando seu fardo nos ombros; avançando em uníssono, lentos como o tempo.” (Fim dos mundos. Conrad, 2007. p. 153.) Sandman não assiste ao próprio funeral porque, em sua concepção, isso seria uma indelicadeza. Sua morte foi uma opção pela mudança ou apenas uma forma de se desembaraçar dos problemas da existência. Sandman escolhe morrer para reviver em Daniel Hall, seu filho, a vida que sonhou para si. Segundo Neil Gaiman, “ele não estava vivo da forma que entendemos a vida nem poderia morrer da forma que entendemos a morte.” Outro personagem de Gaiman, Mr. Punch, disse que tudo isso é realidade. Nunca aconteceu antes, mas é real. Exceto para o leitor que ainda permanece nesse sonho.

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Angola Janga: convite a uma reflexão antirracista

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Angola Janga: convite a uma reflexão antirracista

Cláudio Diniz

 

“O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui.”

(Gil; Caetano. 1982.)

Olá, leitor!

Angola janga (2017), de Marcelo D’Salete, é uma leitura indispensável e, sem dúvida, um dos mais importantes quadrinhos da história dessa arte no Brasil. A obra aborda a história de Zumbi e do Quilombo dos Palmares pela ótica dos vencidos. Mas ela é muito mais que isso. É o resultado de um extenso processo de pesquisa bibliográfica e documental sobre o assunto. É também uma escolha ficcional na qual o foco narrativo é muito bem manejado. O apuro estético alcançado com o uso do carvão vegetal imprime profundidade e realismo ao desenho de D’Salete. Por fim, toda a narrativa visual e escrita dessa graphic novel tem o plano sequencial ordenado por um flagrante flerte com o cinema.

https://veneta.com.br/produto/angola-janga/

O jardim de Clio.

O trabalho de Marcelo D’Salete reúne verossimilhança e historicidade da representação do passado. Angola Janga (“Pequena Angola” em quimbundo) guarda a efetividade do acontecido e a riqueza pictórica de um relato cheio de vida. A encenação ficcional dos dilemas vividos pelos personagens possibilita o engajamento do leitor num produtivo diálogo interno. A obra de D’Salete apresenta o pacto característico do romance histórico celebrado entre narrador e leitor.

Na narrativa gráfica do cotidiano e dos conflitos na Serra da Barriga, na antiga capitania de Pernambuco, Marcelo D’Salete possibilita ao leitor um encontro com uma história ainda muito pouco explorada. O Quilombo dos Palmares é um fato histórico que terminou por se tornar símbolo da resistência negra no Brasil. A figura de Zumbi alcança grande importância mítica no sentido de que povoa o imaginário dos debates sobre a luta pela liberdade e a justiça social. Se a história é a argamassa na definição da alteridade, o Quilombo dos Palmares é um pilar na construção das identidades negras.

Portugal procurou criar as condições para o Brasil se enquadrar no pacto colonial mercantilista entre os séculos XVI e XVIII. Os portugueses concentraram seus esforços para a colônia se transformar num grande produtor de açúcar de modo a abastecer a demanda do mercado internacional e se beneficiar dos lucros de sua comercialização. Os engenhos de açúcar na Capitania de Pernambuco, a partir de 1570, assumiram o protagonismo econômico do governo colonial português.

Para suprir a demanda de mão-de-obra na monocultura canavieira, Portugal decidiu pela utilização do trabalho compulsório de africanos. A introdução do trabalho escravo na produção do açúcar baixava os custos de sua produção. Os portugueses também exploravam o lucrativo tráfico de escravos negros africanos. E a simples existência do tráfico já constituía um estímulo à utilização da mão-de-obra escrava nas colônias pertencentes a Portugal.

O primeiro registro conhecido que faz menção ao Quilombo dos Palmares remonta a 1597, mas é possível supor que ele já existisse antes desse tempo. Palmares foi o resultado de uma junção de mocambos construídos na Serra da Barriga, na atual divisa dos estados de Alagoas e Pernambuco. No caso de Palmares, os mocambos formavam uma espécie de confederação quilombola que se estendia por um vasto território. O centro administrativo da confederação era o mocambo Cerca Real de Macaco. O caminho que levava a Macaco era conhecido apenas pelos quilombolas e toda a organização social, política e econômica assemelhava-se a um pequeno Estado africano.

A presença holandesa na Capitania de Pernambuco (1630-1654) desorganizou a indústria açucareira e criou um vazio de poder que possibilitou a fuga massiva de escravos. Foi o período de maior crescimento de Angola Janga ou do Quilombo dos Palmares. Os quilombolas organizaram expedições de libertação de escravos nos engenhos da Capitania levando o medo e o pavor à população da colônia. As táticas de guerrilha e de incursões rápidas contavam com a genialidade de seus líderes militares. A figura de Zumbi (1655-1695), sucessor de Ganga Zumba (1630-1678), teve importância capital na organização militar dos quilombolas. Zumbi nasceu livre na Serra da Barriga, mas foi capturado aos seis anos de idade e educado pelo padre Antônio de Melo. Batizado como Francisco, aprendeu português, latim, história e, provavelmente, foi assim que fortaleceu seu espírito guerreiro com conhecimento estratégico.

Muitas Entradas foram organizadas pelo governo colonial na tentativa de destruir o quilombo. Com a expulsão dos holandeses da capitania, até o Terço dos Henriques, batalhão de homens negros e mestiços criado em homenagem a Henrique Dias, herói na luta contra os invasores, foi lançado contra Palmares. Não obtiveram sucesso assim como todas as expedições anteriores. Tentativas de acordos de paz com promessas de perdão tampouco lograram êxito. Ganga Zumba, primeiro líder de Palmares, chegou a aceitar um acordo de paz com o governador da Capitania de Pernambuco, Pedro de Almeida (1630-1679), mas descobriu tarde demais que foi ludibriado. Alguns dizem que Ganga Zumba foi assassinado por seguidores de Zumbi, outros afirmam que foram seus próprios homens que o mataram e, ainda, há aqueles que dizem que cometeu suicídio ao perceber que fora enganado pelos portugueses.

Finalmente, em 06 de fevereiro de 1694, o bandeirante Domingos Jorge Velho (1641-1705) e o capitão-mor Bernardo Vieira de Melo (1658-1714), à frente de um batalhão de mais de seis mil homens, atacou e conquistou a Cerca Real de Macaco. Começava a destruição dos mocambos do Quilombo dos Palmares que se arrastaria pelas próximas três décadas. Zumbi conseguiu fugir por quase dois anos pela Serra da Barriga, mas foi atraiçoado e morto em 20 de novembro de 1695. Nesse dia, no Brasil, comemora-se o Dia Nacional de Zumbi ou da Consciência Negra.

Angola Janga, como dissemos, revela uma história de resistência ainda pouco conhecida pela maioria dos brasileiros. A leitura dessa obra permite também questionar a instância metalinguística na tensão que estabelece entre o passado e o presente. Os questionamentos e o confronto com a contemporaneidade da questão racial no Brasil são inevitáveis. Por ser uma obra aberta, nas perguntas lançadas ao passado ecoam as vozes ansiosas do presente.

https://revistacult.uol.com.br/home/graphic-novel-angola-janga-palmares/

O racismo nosso de cada dia.

O racismo no Brasil é uma construção social e histórica envolvida no tecido estrutural da sociedade. Isso quer dizer que o racismo não é algo naturalizado, mas que constitui e se constrói nas relações sociais em sua porção consciente e inconsciente. Ele faz parte do funcionamento dito “normal” da vida cotidiana nas dimensões econômica, política e psicológica.

O constrangimento cotidiano do racismo estrutural faz parte da dinâmica social e de sua própria racionalidade. Toda a estrutura da sociedade funciona em torno de uma razão racista que estabelece a polarização política, econômica e legal entre brancos e negros. A pequena representatividade negra nas instituições políticas e jurídicas brasileiras seria demonstração suficiente do funcionamento do racismo estrutural não fosse tão evidente falar também da maior incidência de impostos sobre as pessoas negras, particularmente as mulheres, e de um ordenamento jurídico direcionado para a criminalização da cor preta. Enquanto os espaços de privilégio e poder são ocupados por brancos, o lugar da servidão e da subcidadania segue destinado ao povo negro.

https://www.geledes.org.br/angola-janga-conta-em-quadrinhos-historia-de-zumbi-dos-palmares/

O lugar de fala como espaço de manifestação legítima de subjetividades é importante e deve ser considerado em todos os debates. Mas parece que o estabelecimento de limites ainda não é suficiente diante de relações sociais, econômicas e políticas desiguais entre brancos e negros. E quase todos os detentores da riqueza e do poder são brancos. O fosso entre ricos e pobres é tão grande que obriga a quase totalidade da população a produzir a riqueza de menos de 1% dela. Os dados fornecidos pelo IBGE, IPEA, Oxfam Brasil, dentre outros, definem a imensidão de nossa desigualdade social e racial.

A população pobre é quase toda preta. Parece óbvio dizer isso, mas quem está abaixo da linha de pobreza é negro. Na cor ou na alma. Essas pessoas formam a “ralé brasileira”, de quase 100 milhões de pessoas, conforme já foi descrita por sociólogos como Florestan Fernandes e Jessé Souza. Essa imensa minoria ainda vive em conformidade com um passado de escravidão. A ralé brasileira é uma “classe sem futuro” que vive para “ser explorada a preço vil” (SOUZA. 2017. P. 67.). O 13 de maio de 1888 representou tão somente uma mudança de status legal. No limite, as condições sociais e econômicas dessa classe não sofreram grandes transformações.

Abismos tropicais.

O quadro da desigualdade racial é institucionalizado por meio do encarceramento em massa de negros. A autoridade do Estado sustenta-se na produção de inimigos internos, quase todos negros, e no uso sistemático da violência contra minorias e movimentos sociais. A luta de classes por privilégios construiu alianças e preconceitos através da legitimação intelectual da dominação oligárquica.

As elites do atraso contam com uma Intelligentsia para a produção em massa de ideologias liberais-conservadoras, revanchistas e militaristas que terminam por construir uma cultura de ódio às minorias. Por isso, a criminalização do negro, jovem e morador de periferia é a tônica do pensamento autoritário compartilhado por milhões de brasileiros. O modo cruel e medíocre como se banaliza o mal cometido contra as minorias raciais e sociais é a substância dessas ideologias. O ódio ao pobre de hoje é o mesmo ódio devotado ao escravo de antes.

http://www.pordentrodaafrica.com/wp-content/uploads/2018/12/quadrinhos.jpg

Num país onde 56% da população é negra e a população pobre quase toda é negra também, o único modo de assegurar a estrutura de desigualdades é com o uso sistematizado da violência. Essa violência, que é física e simbólica, tem na expropriação e desumanização do negro uma forma de naturalizar a existência do racismo estrutural.

Os exemplos da extrema violência sofrida por mulheres negras e homens negros dão conta de uma condição que faz parte do processo histórico da sociedade brasileira. A rede Observatório da Segurança publicou há pouco o relatório Racismo motor da violência (2020) que confirma que, entre junho de 2019 e junho de 2020, 75% das pessoas mortas pela polícia eram negras. Da mesma forma, dentre todos os policiais mortos em confrontos no último ano, aproximadamente 62% eram negros.

Um caso recente dá conta do que estamos falando. Enquanto o presidente do STJ, João Otávio Noronha, concedia um habeas corpus a Fabrício Queiroz, o amigo miliciano da família Bolsonaro, um jovem negro, preso por conta de 10 (dez) gramas de maconha, a quem foi negado o habeas corpus, morreu de COVID-19 num presídio em Minas Gerais. Certamente, essa seria uma situação eventual não fosse o fato de que o presídio onde Lucas Morais morreu tem capacidade para 193 presos e 159 deles foram contaminados.

As imagens da mulher negra pisoteada no pescoço pelo policial branco, em Parelheiros, zona sul de São Paulo, evocam as gravuras oitocentistas de Debret (1768-1848) e Rugendas (1802-1858). Nelas figuram representações de escravos sendo supliciados, muitas vezes, por outros negros. A escravidão, portanto, é o berço de toda a estrutura desigual e racista da sociedade brasileira. É muito significativo o verso da canção Haiti (1982), de Gil e Caetano, que diz que tudo isso acontece “só pra mostrar aos outros quase pretos (e são quase todos pretos), e aos quase brancos, pobres como pretos, como é que pretos, pobres e mulatos e quase brancos, quase pretos de tão pobres, são tratados”.

https://www.waldineypassos.com.br/policial-que-pisoteou-pescoco-de-mulher-negra-durante-abordagem-e-denunciado-a-oea/

https://www.waldineypassos.com.br/policial-que-pisoteou-pescoco-de-mulher-negra-durante-abordagem-e-denunciado-a-oea/

Os ventos da diversidade.

É muito importante considerar o lugar de fala como espaço de respeito à diversidade étnica e de gênero. É necessário reconhecer os privilégios da branquitude para operar mudanças estruturais. Mulheres e homens brancos devem compreender que essa esfera de privilégios no Brasil é garantida através da exploração de uma “ralé” composta de mulheres e homens negros.

De fato, o processo de mudança na estrutura ideológica da sociedade é lento demais. São as ações afirmativas que possibilitam o empoderamento necessário para que grupos minoritários adquiram as forças necessárias para enfrentar o ideário racista. No entanto, as pessoas brancas também precisam compreender o modo como opera o racismo estrutural.  A consciência da prevalência branca nos espaços de poder, segundo a filósofa Djamila Ribeiro, “permite que as pessoas se responsabilizem e tomem atitudes para combater e transformar o perverso sistema racial que estrutura a sociedade brasileira” (2019. P. 25.).

O lugar de fala não é lugar de fragmentação, mas de diálogo. É um espaço de reconhecimento das diferenças. É falar e ouvir do lugar de onde pertencemos reconhecendo a diferença e o direito do outro. O lugar de fala é também lugar de ouvir. É lugar de derrubar muros porque a pauta antirracista é transversal. A adesão de brancos a essa luta desconstrói as narrativas de ódio que fundamentam o racismo estrutural. Somente a radicalização horizontal da democracia pode determinar o fim da centralidade do racismo nas relações sociais brasileiras.

O Capital tem alta capacidade de se reinventar e, diante do atual levante antirracista pelo mundo, o discurso de inclusão deve se sustentar na prática. Aqueles que lutam contra o racismo não podem aceitar o neoliberalismo e sua pauta de desigualdades. A ideia de democracia racial é tão falsa quanto a ideia de democracia social. A população negra e pobre carece da possibilidade de acesso às condições mínimas para uma vida digna. A luta antirracista exige a consciência de que nenhuma subjetividade isolada poderá transformar a estrutura de desigualdades do sistema capitalista.

A história de Zumbi e do Quilombo dos Palmares, contada em Angola Janga, deve ser lida como uma narrativa histórica e ficcional rigorosamente construída por Marcelo D’Salete. Contudo, também é um grito de resistência que ecoa através dos três séculos e meio desde que Ganga Zumba, Acotirene, Zumbi, Dandara e tantos outros guerreiros e guerreiras lutaram na Serra da Barriga.

 

Bibliografia.

ALMEIDA. Sílvio. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018.

CARREIRA, Denise. O lugar dos sujeitos brancos na luta antirracista. Sur: revista internacional de direitos humanos. V. 15, n. 28, São Paulo, p. 127-140, Dezembro, 2018.

D’SALETE, Marcelo. Angola janga: uma história de Palmares. São Paulo: Veneta, 2017.

GOMES, Flávio dos Santos. De olho e Zumbi dos Palmares. São Paulo: Claro Enigma, 2011.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.

_______, ______. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Cia. das Letras, 2019.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à lava jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

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A “poética do detalhe” em Persépolis de Marjane Satrapi: Revolução Iraniana (1979) e resistência feminina

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A “poética do detalhe” em Persépolis de Marjane Satrapi: Revolução Iraniana (1979) e resistência feminina.

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

 

Em 1990, a época dos grandes ideais revolucionários e das manifestações tinha acabado. Entre 1980 e 1983, o governo tinha prendido e executado tantos secundaristas e universitários que a gente não se atrevia a falar de política. Nossa luta era mais discreta. Estava nos pequenos detalhes. Para os nossos dirigentes, qualquer coisinha poderia ser sinal de subversão. Pois é… Tudo era pretexto para nos prender.

(Marjane Satrapi, 2007)

Olá leitor! A cidade de persépolis (Takhte Jamshid – 518-331 ac.) foi a capital dos antigos governantes do Império Persa, os Aquemênidas. As ruínas da capital, redescobertas em 1930, ao sul do Irã, atestam a grandiosidade da cultura persa. Nos seus arredores, ficam os túmulos dos imperadores Dario e Xerxes. A maior parte das informações dessa cultura encontra-se nos relatos gregos porque muito pouco da produção escrita dos persas, que era imensa, chegou até nós. No terceiro século antes da era cristã, Alexandre da Macedônia saqueou e incendiou a cidade de Persépolis. Movido por antigas rivalidades – como o incêndio de Atenas, promovido por Xerxes, em 480 ac. -, o helenista deu provas de sua gananciosa barbárie.

A escritora iraniana Marjane Satrapi confeccionou sua autobiografia, em formato de graphic novel, utilizando-se de elementos épicos da história da Pérsia e a arte pop ocidental. Aliás, como a obra foi publicada na França (2000), é correto se referir ao suporte usado por Satrapi como BD (bande-dessinée). A Persépolis de Satrapi aproxima o antigo do moderno, o épico do pop e o drama do humor. Na leitura da obra fica evidente o fato de que a autora procura afirmar uma identidade muito mais antiga que o regime dos aiatolás. Nesse caso, é perceptível que a orientação política da obra relaciona-se à negação e resistência velada ao regime ditatorial no Irã.

A estética da obra, em branco e preto, também é uma crítica à imposição da sharia xiita referente aos costumes ultraconservadores impostos à mulher iraniana. A imposição do shador (véu escuro), por exemplo, é vista como emblema de repressão. Apesar disso, Marjane Satrapi revela o modo como as pessoas podem desenvolver estratégias de sobrevivência em situações extremas. A vida, que se esvai com tamanha facilidade, recebe um significado especial nesse cenário marcado pela Revolução Iraniana (1979) e a consequente aniquilação das liberdades civis.

A história do Irã, no século XX, foi assinalada pelos interesses da indústria ocidental do petróleo. O imperialismo britânico dominou a região até 1951, quando o primeiro ministro iraniano, Mohammad Mossadegh, nacionalizou a exploração petrolífera. Em 1953, Mohamed Reza Pahlevi implantou uma ditadura comprometida com os interesses do bloco capitalista. O Irã foi tomado de práticas e padrões de consumo do Ocidente. Acrescente-se a isso, o fato de que, em plena Guerra Fria, a fronteira do Irã com a URSS deveria ser interessante aos olhos da OTAN.

Ao mesmo tempo, no interior das mesquitas, um discurso nacional fundamentalista ganhava contornos na figura do aiatolá Ruhollah Khomeini. No fim dos anos 70, Khomeini estava no exílio, mas sua voz era ouvida por todo o Irã, nas fitas K7 que o líder islâmico enviava do exterior. A interferência política conservadora do clero iraniano tornou-se uma espécie de alternativa à administração denominada “libertina” de Reza Pahlevi. Finalmente, em 1979, o governo Pahlevi sucumbiu à onda de protestos e revoltas no país. Khomeini instaurava o regime dos aiatolás.

Um ano após o golpe de Khomeini, o cenário iraniano era bastante caótico e desagradável aos interesses do bloco capitalista. Saddam Hussein, presidente iraquiano apoiado por Washington, promoveu uma guerra contra o Irã. Seus objetivos eram enfraquecer a influência política dos xiitas e controlar as reservas de petróleo iranianas. A Guerra Irã-Iraque matou quase um milhão de pessoas e deixou sequelas nos dois países.

O aiatolá Khomeini morreu logo após a guerra. Seu sucessor, o aiatolá Ali Khamenei, mostrou-se mais receptivo a pequenas alterações na sharia xiita. Uma luz de esperança, mesmo que tímida, acendeu o coração dos iranianos. A eleição de presidentes moderados – como Ali Rafsanjani (1989-1997), Sayed Khatami (1997-2005), Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), Mohammad Khatami (2013-2021) – dá mostras de um país ainda polarizado na encruzilhada dos antigos com os modernos.

Parece-nos, ainda, que existe um nível mais profundo na obra de Marjane Satrapi. Em Persépolis, a instância da memória inventa e assegura a existência de uma identidade capaz de resistir ao próprio tempo. “Nunca se esqueça”, diz o pai de Marjie, “de quem você é e de onde vem.” A identidade, então, é essa rocha que dá sustentabilidade à história da autora e do Irã. Uma terra que sobreviveu a imperadores, califas e xás, só o fez porque soube preservar e reinventar sua identidade. Se o pano de fundo, em Persépolis, é a história trágica do Irã, o eixo central da narrativa é a identidade feminina e sua condição objetiva de existência sob a hostilidade de um regime autoritário.

A propósito, o lado mais encantador da autobiografia de Marjane Satrapi é o olhar feminino lançado sobre a história. É um ponto de vista desfocado da análise consensual. Persépolis escapa às opiniões pré-fabricadas para oferecer um retrato pessoal da sociedade iraniana. Sabemos que Marjane Satrapi é proveniente dos grupos mais favorecidos do Irã, com ancestrais entre os imperadores persas e que sua família ideologicamente aproxima-se de horizontes marxistas. No entanto, não é a veracidade da informação que mais importa à análise da autobiografia, mas a sua sinceridade. Em Persépolis, a “poética do detalhe” aproxima a análise sociocultural do pormenor cotidiano. O processo sorrateiro de luta pela sobrevivência física e espiritual ganha contornos subjetivos. A linguagem dos detalhes evidencia aquela afirmação de Foucault de que onde existe poder também existe resistência.

Fabricar o consenso é obter apoio criando “ilusões necessárias”. A visão orientalistsa, característica indelével do olhar colonizador, evidencia apenas o lado exótico e ou violento do mundo islâmico. Não é preciso dizer que na obra de Marjane Satrapi não há espaço para esse tipo de estereótipo. O que observamos em Persépolis é a narrativa de uma vida nada comum e as delícias, as dores e a resistência que ela pode oferecer.

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