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Alan Moore e a disneyzação da cultura pop

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Alan Moore e a disneyzação da cultura pop

Cláudio Diniz

Olá, Leitor! Alan Moore, em mais uma de suas declarações polêmicas, afirmou ao The guardian que odeia os super-heróis estadunidenses. “Eles não significam mais o que costumavam significar”, disse o autor de Watchmen, From hell e V for Vendetta. Pois bem, creio que o papo de odiar é bastante subjetivo. Quer dizer, Moore não explica exatamente o porque de odiar os super-heróis estadunidenses. No entanto, quando afirma que eles não conferem a mesma representação simbólica aos nossos dias, o mago está coberto de razão.

Fonte da imagem: http://www.numero.com/en/culture/alan-moore-jerusalem-watchmen-v-for-vendetta-from-hell-dave-gibbons

De acordo com Moore, “eles [os super-heróis] ficavam originalmente nas mãos de escritores que ativamente expandiam a imaginação de seu público, formado por crianças de nove a 13 anos. (…) Hoje, os quadrinhos de super-heróis não tem nada a ver com essas crianças de nove a treze anos.” O público dos quadrinhos, em nossos dias, de acordo com Moore, está com mais de 30 anos de idade. E o problema é que as histórias continuam a ser criadas para crianças. Então, a crítica de Moore vai de encontro ao excesso de infantilização das produções estadunidenses.

Os super-heróis, de acordo com admiradores mais dedicados, compõem um universo “específico” e, por isso, estão acima de críticas. As HQ’s mais comerciais e os filmes blockbusters, para boa parte da crítica, colocam-se num lugar muito além do bem e do mal. A simples tarefa de divertir ou entreter (quem?) o grande público, justifica uma crítica construída tão somente a partir de subjetivismos e visões interiores (making offs) das produções. No mais das vezes, quando acossados por questões incômodas, essa crítica ingênua vem logo com a representação de minorias e grupos étnicos como salvaguarda de um empenho que vai um pouco além do meramente econômico. Isso significa que, quando criticados quanto ao seu papel histórico, a resposta é sempre uma negativa de qualquer imposição realista. Mas, se observado o projeto capitalista de adaptação do roteiro à cultura de massas, reivindicam seu papel artístico. Quer dizer, a ideia é amortizar a visão crítica e trabalhar a aceitação passiva e o consumo compulsivo de roteiros e personagens.

Fonte da imagem: http://marvelcinematicuniverse.wikia.com/wiki/File:High-res-avengers-poster.jpg

Aquilo que Alan Moore afirmou na polêmica entrevista ao The Guardian já foi dito no clássico trabalho de Henri Giroux sobre A disneyzação da cultura infantil. A ideia de branquidade é sinônimo de domínio e opressão. Quando as minorias são representadas, o retrato produzido as abstrai de suas histórias reais. De acordo com Giroux (1999. P. 111), “ao mesmo tempo reforçando todos os estereótipos demasiado familiares que vão do preguiçoso e imóvel ao ameaçador e perigoso.” Sinceramente, a infantilização da cultura prossegue mar adentro e de mãos dadas com a afirmação da supremacia branca estadunidense.

Para além da declaração de Moore, ainda existe uma espécie de não dito que surge na interpretação dessa narrativa. Ocorre que a stanleenização da arte sequencial impede a introjeção de um olhar crítico sobre uma perspectiva nova do plano ideológico dos quadrinhos. Os super-heróis estão na base das representações eugenistas do mundo ocidental. Estamos falando não apenas de questões físicas, mas de um problema relacionado ao caráter. A fabricação e o uso de consensos sobre como os diversos povos do planeta devem ser são mensagens implícitas na imagem moral dos super-heróis. A eugenia passa por uma leitura racista do século XIX, é verdade, mas guarda estreita relação com a visão clássica do ideal de homem em nosso tempo. Pedagogicamente, essa moral atual como condicionadora e modeladora de pessoas das mais diversas etnias e com as mais diversas características físicas.

Fonte da imagem: http://tudosobremagiaeocultismo.blogspot.com.br/2012/08/monstro-do-pantano-swamp-thing.html

A afirmação da infantilização da cultura de massas e da supremacia branca estadunidense revela-se nas grandes produções. O método consiste em trazer para um universo infantilizado qualquer público que se disponha a acompanhar as narrativas independente do suporte que as ampare. Na visão de Noah Chomski (2005), “se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de doze anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de doze anos ou menos de idade.” Isto é, se o público for tratado como idiota ele reagirá como idiota na maior parte das vezes. Creio que as teses de Chomski e Giroux poderiam ser confirmadas mediante a apuração de que os estúdios Walt Disney são donos da Marvel Comics desde 2009. Ora, precisamos de maiores evidências?

Fonte da imagem: https://hd-report.com/2017/05/16/logan-early-digital-release-includes-black-white-version-extras/

O universo geek inteiro caiu sobre Alan Moore após sua declaração ao The Guardian. Amizades foram desfeitas no facebook, os marvetes e os dcnautas de carteirinha ficaram de mal e a mídia paga com royalties das superproduções procurou não render o assunto. É sempre um incômodo ver um astro de um universo afirmar que nem todas as estrelas desse cosmo são bonitas de se ver. Sorte estarmos a milhões de anos-luz de distância da maioria delas porque assim os trâmites acertados entre os demiurgos não se revelam. Isso abala o mainstream. O que Alan Moore fez foi dizer o que todos já sabem. Isto é, o milionário mercado editorial das HQ’s, filmes e séries de super-heróis não apresenta nada de novo há décadas. A fórmula é sempre a mesma e o direcionamento ideológico é um abuso à inteligência de qualquer leitor.

Fonte da imagem: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Watchmen_cast.png

Caro leitor, não tenho dúvidas quanto à qualidade das grandes produções em HQ’s e filmes como, por exemplo, Watchmen ou Logan. Mas sejamos sinceros, Watchmen é uma série de HQ’s, e depois filme de longa metragem, de Moore e Gibbons, da metade dos anos 80. O filme Logan é um espelho do épico de George Stevens, Os brutos também amam (1953), num distópico cenário pós-apocalíptico. Quer dizer, nenhuma das produções citadas tem raízes vincadas no cenário atual. Sinceramente, uma demonstração apoteótica de efeitos especiais não substitui um roteiro bem dirigido e, quase nunca, o impulso blockbuster vai além do lugar comum. O problema levantado por Alan Moore está na forma desrespeitosa com que o público é tratado. E, nesse ponto, Moore acertou em cheio.

Cláudio Diniz é colunista do Sobre Livros. Para sugerir, criticar, elogiar, ou simplesmente bater um papo sobre quadrinhos e cultura, basta adicioná-lo no facebook e dar sua opinião.

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A “poética do detalhe” em Persépolis de Marjane Satrapi: Revolução Iraniana (1979) e resistência feminina

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A “poética do detalhe” em Persépolis de Marjane Satrapi: Revolução Iraniana (1979) e resistência feminina.

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

 

Em 1990, a época dos grandes ideais revolucionários e das manifestações tinha acabado. Entre 1980 e 1983, o governo tinha prendido e executado tantos secundaristas e universitários que a gente não se atrevia a falar de política. Nossa luta era mais discreta. Estava nos pequenos detalhes. Para os nossos dirigentes, qualquer coisinha poderia ser sinal de subversão. Pois é… Tudo era pretexto para nos prender.

(Marjane Satrapi, 2007)

Olá leitor! A cidade de persépolis (Takhte Jamshid – 518-331 ac.) foi a capital dos antigos governantes do Império Persa, os Aquemênidas. As ruínas da capital, redescobertas em 1930, ao sul do Irã, atestam a grandiosidade da cultura persa. Nos seus arredores, ficam os túmulos dos imperadores Dario e Xerxes. A maior parte das informações dessa cultura encontra-se nos relatos gregos porque muito pouco da produção escrita dos persas, que era imensa, chegou até nós. No terceiro século antes da era cristã, Alexandre da Macedônia saqueou e incendiou a cidade de Persépolis. Movido por antigas rivalidades – como o incêndio de Atenas, promovido por Xerxes, em 480 ac. -, o helenista deu provas de sua gananciosa barbárie.

A escritora iraniana Marjane Satrapi confeccionou sua autobiografia, em formato de graphic novel, utilizando-se de elementos épicos da história da Pérsia e a arte pop ocidental. Aliás, como a obra foi publicada na França (2000), é correto se referir ao suporte usado por Satrapi como BD (bande-dessinée). A Persépolis de Satrapi aproxima o antigo do moderno, o épico do pop e o drama do humor. Na leitura da obra fica evidente o fato de que a autora procura afirmar uma identidade muito mais antiga que o regime dos aiatolás. Nesse caso, é perceptível que a orientação política da obra relaciona-se à negação e resistência velada ao regime ditatorial no Irã.

A estética da obra, em branco e preto, também é uma crítica à imposição da sharia xiita referente aos costumes ultraconservadores impostos à mulher iraniana. A imposição do shador (véu escuro), por exemplo, é vista como emblema de repressão. Apesar disso, Marjane Satrapi revela o modo como as pessoas podem desenvolver estratégias de sobrevivência em situações extremas. A vida, que se esvai com tamanha facilidade, recebe um significado especial nesse cenário marcado pela Revolução Iraniana (1979) e a consequente aniquilação das liberdades civis.

A história do Irã, no século XX, foi assinalada pelos interesses da indústria ocidental do petróleo. O imperialismo britânico dominou a região até 1951, quando o primeiro ministro iraniano, Mohammad Mossadegh, nacionalizou a exploração petrolífera. Em 1953, Mohamed Reza Pahlevi implantou uma ditadura comprometida com os interesses do bloco capitalista. O Irã foi tomado de práticas e padrões de consumo do Ocidente. Acrescente-se a isso, o fato de que, em plena Guerra Fria, a fronteira do Irã com a URSS deveria ser interessante aos olhos da OTAN.

Ao mesmo tempo, no interior das mesquitas, um discurso nacional fundamentalista ganhava contornos na figura do aiatolá Ruhollah Khomeini. No fim dos anos 70, Khomeini estava no exílio, mas sua voz era ouvida por todo o Irã, nas fitas K7 que o líder islâmico enviava do exterior. A interferência política conservadora do clero iraniano tornou-se uma espécie de alternativa à administração denominada “libertina” de Reza Pahlevi. Finalmente, em 1979, o governo Pahlevi sucumbiu à onda de protestos e revoltas no país. Khomeini instaurava o regime dos aiatolás.

Um ano após o golpe de Khomeini, o cenário iraniano era bastante caótico e desagradável aos interesses do bloco capitalista. Saddam Hussein, presidente iraquiano apoiado por Washington, promoveu uma guerra contra o Irã. Seus objetivos eram enfraquecer a influência política dos xiitas e controlar as reservas de petróleo iranianas. A Guerra Irã-Iraque matou quase um milhão de pessoas e deixou sequelas nos dois países.

O aiatolá Khomeini morreu logo após a guerra. Seu sucessor, o aiatolá Ali Khamenei, mostrou-se mais receptivo a pequenas alterações na sharia xiita. Uma luz de esperança, mesmo que tímida, acendeu o coração dos iranianos. A eleição de presidentes moderados – como Ali Rafsanjani (1989-1997), Sayed Khatami (1997-2005), Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), Mohammad Khatami (2013-2021) – dá mostras de um país ainda polarizado na encruzilhada dos antigos com os modernos.

Parece-nos, ainda, que existe um nível mais profundo na obra de Marjane Satrapi. Em Persépolis, a instância da memória inventa e assegura a existência de uma identidade capaz de resistir ao próprio tempo. “Nunca se esqueça”, diz o pai de Marjie, “de quem você é e de onde vem.” A identidade, então, é essa rocha que dá sustentabilidade à história da autora e do Irã. Uma terra que sobreviveu a imperadores, califas e xás, só o fez porque soube preservar e reinventar sua identidade. Se o pano de fundo, em Persépolis, é a história trágica do Irã, o eixo central da narrativa é a identidade feminina e sua condição objetiva de existência sob a hostilidade de um regime autoritário.

A propósito, o lado mais encantador da autobiografia de Marjane Satrapi é o olhar feminino lançado sobre a história. É um ponto de vista desfocado da análise consensual. Persépolis escapa às opiniões pré-fabricadas para oferecer um retrato pessoal da sociedade iraniana. Sabemos que Marjane Satrapi é proveniente dos grupos mais favorecidos do Irã, com ancestrais entre os imperadores persas e que sua família ideologicamente aproxima-se de horizontes marxistas. No entanto, não é a veracidade da informação que mais importa à análise da autobiografia, mas a sua sinceridade. Em Persépolis, a “poética do detalhe” aproxima a análise sociocultural do pormenor cotidiano. O processo sorrateiro de luta pela sobrevivência física e espiritual ganha contornos subjetivos. A linguagem dos detalhes evidencia aquela afirmação de Foucault de que onde existe poder também existe resistência.

Fabricar o consenso é obter apoio criando “ilusões necessárias”. A visão orientalistsa, característica indelével do olhar colonizador, evidencia apenas o lado exótico e ou violento do mundo islâmico. Não é preciso dizer que na obra de Marjane Satrapi não há espaço para esse tipo de estereótipo. O que observamos em Persépolis é a narrativa de uma vida nada comum e as delícias, as dores e a resistência que ela pode oferecer.

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Conheça “Tudo soma zero – Histórias de outros futuros”

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No último dia 30 de novembro, foi lançado a coletânea de contos “Tudo soma zero – Histórias de outros futuros“, organizado pela Ana Luiza Rizzo e Cris Vazquez. A coletânea reúne escritores da turma de 2015 da Oficina de Criação Literária do Assis Brasil, que pelo quarto ano consecutivo se desafiam a escrever alinhados.

Desta vez, o tema norteador é o futuro. Os contistas aceitaram imaginar cenários distópicos, que apesar da clara caminhada da humanidade, tememos em alcançar.

“O que a literatura faz de melhor é olhar para onde não se olha, nos forçar a encarar o reflexo nos espelhos do labirinto, investigar suas distorções, enxergar imagens ocultas. E a ficção especulativa (palavra que compartilha etimologia com “espelho”) atreve-se a uma pergunta específica: se o passado é prólogo, o presente não é o futuro? Em tempos como estes, a indagação é quase um clamor.”

Apresentação de Renata Wolff

Você pode adquirir seu exemplar no site da editora Bestiário, neste link.

AUTORES
Alexandre Alaniz, Alexandre Baldasso Schossler, Ana Cláudia Martins, Ana Luiza Rizzo, André Roca, Andrezza Postay, Andriolli Costa, Caroline Joanello, Cris Vazquez, Fred Linardi, Gustavo Melo Czekster, Irka Barrios, Kathy Krauser, Laila Ribeiro, Leandro Demeneghi, Lorena Otero, Lúcio Humberto Saretta, Matheus Borges, Nara Vidal, Paulo Pinheiro, Rejane Benvenuto, Renata Wolff, T.K. Pereira, Taiane Maria Bonita, Tiago Germano, T.S. Marcon e Vanessa Maranha.

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Cinema

Coringa, de Todd Phillips, o espelho de um mundo doente

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Coringa, de Todd Phillips, o espelho de um mundo doente

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

 

“É do inferno dos pobres que é feito o paraíso dos ricos.”

(Victor Hugo)

Olá, Leitor!

Uma das tópicas mais importantes do filme Coringa (2019), de Todd Phillips, é a melancolia do palhaço fracassado que enxerga na violência desmedida um caminho a seguir em meio ao caos de um mundo que não deu certo. O cenário é uma Gothan City que poderia se assemelhar a qualquer cidade onde a falta de esperança num Estado que “caga” para o cidadão resulta na revolta das maiorias silenciosas. O desprezo dos mais ricos com os deserdados do capitalismo conduz à carnavalização da miséria no festim diabólico da indústria cultural. No fim, a revolta iminente dos invisíveis da história não é apenas uma visão dantesca de um inferno utópico, mas uma assustadora e complexa escatologia.

Definitivamente, não é um filme que deve ser interpretado com simplismo a partir de uma chave de leitura política de direita ou de esquerda. Tampouco, uma ficção baseada no projeto de desenvolvimento da origem do vilão como já se fez para o próprio Batman. Na Gotham de Todd Phillips, não há espaço para romantismos de qualquer inspiração. Coringa é um filme que impacta porque é perturbador, sanguinário e sem um sentido ficcional previamente estabelecido. Talvez, a chave de leitura mais importante do filme reside na percepção de que o protagonista desse thriller dramático está muito mais próximo do ser humano do que jamais se pensou que tal vilão poderia estar.

Disponível em https://www.cineset.com.br/critica-coringa-joaquin-phoenix-2019/ Acesso em 16.10.2019

“Um soco na cara” é uma possível definição que se pode ter após assistir a este filme perturbador e magnífico.

Logo no início da sessão nos deparamos com um protagonista doente, que necessita da ajuda do Estado para cuidar de si e da mãe convalescente. Sua perturbação e suas preocupações são grandes.

O clima que envolve a trama, sua fotografia e a forma como são expostos os seus dramas nos comovem desde o primeiro momento pois, a imersão no universo do personagem é enorme e tudo o que lhe acomete provoca um grande incômodo.

Se existe uma palavra para definir o que sentimos ao longo das mais de duas horas de filme é desconforto. Desconforto ao ver uma Gotham decadente, suja, desorganizada, sem apoio político para as pessoas menos favorecidas e desconfiada, acima de tudo, de sua classe política que nada faz pelos cidadãos. Afinal, a invisibilidade social e o desprezo aos mais necessitados é recorrente. É neste cenário que está Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um palhaço triste e sem talento, que sobrevive em meio à criminalidade e à dificuldades econômica. Um cara ocupado com trabalhos pouco dignos e que busca ganhar a vida fazendo os outros rir numa Gotham City sem qualquer disposição para isso. A cidade cheia de lixo, fruto de uma greve prolongada do serviço de limpeza urbana, é apenas uma dentre as várias metáforas visuais do filme.

O pobre e solitário palhaço vive com a sua mãe doente (Frances Conroy), que o chama desde criança de happy (uma pequena ironia relacionada com um problema neurológico que faz com que Arthur ria de forma descontrolada quando se sente eufórico ou nervoso). Mãe e filho, carregados de traumas psicológicos, apoiam-se na esperança de que o magnata Thomas Wayne  apareça para ajuda-los porque, supostamente, ele seria o pai biológico de Arthur Fleck.

Devido a sua doença ele carrega consigo um cartão para explicar sua condição e o entrega a desconhecidos sempre que tem um ataque de riso no momento errado, o que é deprimente. Arthur é uma vítima na maior parte da história, humilhado e enganado por todos, e que se afunda cada vez mais numa miséria tão abismal que o suicídio é uma ideia recorrente. No entanto, Arthur acaba se transformando em um assassino frio e cruel. Esse processo é gradual e nos faz questionar se alguns daqueles problemas poderiam acometer qualquer um de nós em algum momento.

É de se esperar, tendo em vista toda a história, canônica ou não, que a transformação de Arthur seja uma coisa previsível desde o primeiro frame, porém a história ainda consegue oferecer algumas surpresas ao longo da descida de Arthur à loucura homicida.

Pode-se perceber as inúmeras influências diretas presentes no filme e alguns fans services. Os rascunhos no diário, no qual anota suas ideias criativas fazem lembrar de Psicopata Americano (2000). A narrativa triste remete a HQ A Piada Mortal (1988) e a sequência no talk show tem uma homenagem ao seminal O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller. A presença de Robert DeNiro como o apresentador Murray Franklin, uma inversão propositada de O Rei da Comédia (1983), em que o apresentador era Jerry Lewis e De Niro fazia o papel do sociopata que aspirava ser comediante. Zazie Beets traz uma normalidade precisa ao papel de vizinha e interesse amoroso de Arthur e, Frances Conroy, representa com brilho uma mãe instável.

Coringas. Disponível em https://nerdficina.com.br/2018/09/25/a-evolucao-do-coringa-nos-cinemas/ Acesso em 16.10.2019

Enquanto o Coringa de O Cavaleiro das Trevas é uma encarnação enigmática, porém de ótimo gosto, de puro caos, imprevisibilidade e animalesco, Joaquin Phoenix concretiza sua interpretação tornando o personagem mais humano e tridimensional.

O Coringa de Phoenix é um personagem renovado, uma versão mais fiel às HQ’s, mais patético, mais performático e, ao mesmo tempo, com sequências de dança e expressões corporais memoráveis que remetem  ao personagem Alex, de Laranja Mecânica (1972). O trabalho de Joaquin Phoenix é fantástico até nos mais pequenos detalhes. Os 23 kg a menos, as unhas roídas até ao sabugo e, propositalmente, manchadas de nicotina, ajudam Phoenix a compor a encarnação real de Arthur, dá a ele substância.

Percebe-se que a linha criativa que Todd Phillips procura seguir é a de Martin Scorcese. Este é sua inspiração e o filme claramente baseia-se nos clássicos dos anos 70 como O Rei da Comédia e Taxi Driver (1976). É uma interpretação profunda, construída sobre um ponto de vista subjetivo de uma pessoa com graves distúrbios mentais que se arrasta lutando para sobreviver. A trilha sonora completa a imersão do filme. É o melhor trabalho de Todd Phillips, incluindo o figurino, produção e fotografia impecável.

Existe, porém, uma tênue camada de interpretação. Para uns isso pode levar a uma glamorização do vilão carismático e seu comportamento. Porém, subsiste certa discussão sobre o fato de o personagem poder ou não incentivar as massas para a desordem e o caos por motivo do tamanho desconforto e inquietação dessa película. Mas, absolutamente, o Coringa não foi feito para ser uma apologia ao comportamento de seus personagens. Talvez seja um instrumento fantástico de questionamento das mazelas do nosso tempo. Entretanto, podemos pensar que ele é uma interpretação fidedigna de uma realidade atual e maçante, aturdido por um sistema, seja ele político e ou financeiro, que espreme as pessoas que precisam de ajuda, que esmaga os mais necessitados. Ao mesmo tempo, é uma crítica a muitos comportamentos da nossa sociedade doente, um questionamento sobre tudo o que fazemos no mundo.

É claro que um filme sobre um dos maiores vilões da cultura pop não poderia deixar de se atirar nos temas atuais levando ao confronto com o espectador. A película é uma obra de arte, uma ode a um reflexo da psique de um personagem de enorme grandiosidade. Coringa é desconfortável, instável, carregado de controvérsias, e um dos filmes que melhor captura o estranho espírito do tempo, nosso Zeitgeist de 2019.

Uma mensagem sobre a nossa falta de empatia que faz com que cada vez mais pessoas com problemas passem despercebidas, sem acolhimento, relegadas ao esquecimento e ao desprezo. É uma crítica contundente a uma sociedade que sobrevive dos restos de uma minoria rica que pouco se importa com seus problemas e sua miséria, fazendo com que toda essa mistura mágica tenha como resultado o caos e a convulsão social.

Enfim, uma obra que se passa num outro tempo, mas que fala tanto de nosso presente e nos faz duvidar do futuro. Isto é, um verdadeiro soco na cara.

Conrad Veidt e Joaquin Phoenix. Disponível em https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/10/02/o-homem-que-ri-o-filme-assustador-de-palhacos-que-inspirou-coringa.htm Acesso em 16.10.2019

O Coringa, principal antagonista do Batman, foi criado em 1940 por Jerry RobinsonBill Finger e Bob Kane para a DC Comics. Sem dúvida, o vilão é uma evidente menção ao personagem Gwynplaine da obra O homem que ri (1869), de Victor Hugo. Com o propósito de exibi-lo como atração de feiras e circos, os traficantes de crianças (comprachicos) da Inglaterra do fim do século XVII cortam os dois lados da boca de Gwynplaine transformando-o num verdadeiro monstro. Contudo, é o mundo em que Gwynplanine vive que é monstruoso. O descaso com os mais desafortunados é a demonstração de uma modernidade medíocre que busca o exótico e o pitoresco na fronte dos invisíveis do capitalismo. Mais tarde, em 1928, a obra de Hugo foi apresentada em suporte cinematográfico pelo diretor expressionista alemão Paul Leni. Essa tradução intersemiótica revelou-se como a base para a criação do personagem dos quadrinhos. O filme de Leni foi visto como uma obra de terror por causa da excelente caracterização de Conrad Veidt (1893-1943), mas o gênero é evidentemente dramático. A relação com o filme de Todd Phillips, nesse sentido, fica mais próxima ainda. Coringa de Todd Phillips é o drama de um invisível que, como procuramos demonstrar, oferece um espelho melancólico de um mundo doente.

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