Alan Moore e a disneyzação da cultura pop

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Alan Moore e a disneyzação da cultura pop

Cláudio Diniz

Olá, Leitor! Alan Moore, em mais uma de suas declarações polêmicas, afirmou ao The guardian que odeia os super-heróis estadunidenses. “Eles não significam mais o que costumavam significar”, disse o autor de Watchmen, From hell e V for Vendetta. Pois bem, creio que o papo de odiar é bastante subjetivo. Quer dizer, Moore não explica exatamente o porque de odiar os super-heróis estadunidenses. No entanto, quando afirma que eles não conferem a mesma representação simbólica aos nossos dias, o mago está coberto de razão.

Fonte da imagem: http://www.numero.com/en/culture/alan-moore-jerusalem-watchmen-v-for-vendetta-from-hell-dave-gibbons

De acordo com Moore, “eles [os super-heróis] ficavam originalmente nas mãos de escritores que ativamente expandiam a imaginação de seu público, formado por crianças de nove a 13 anos. (…) Hoje, os quadrinhos de super-heróis não tem nada a ver com essas crianças de nove a treze anos.” O público dos quadrinhos, em nossos dias, de acordo com Moore, está com mais de 30 anos de idade. E o problema é que as histórias continuam a ser criadas para crianças. Então, a crítica de Moore vai de encontro ao excesso de infantilização das produções estadunidenses.

Os super-heróis, de acordo com admiradores mais dedicados, compõem um universo “específico” e, por isso, estão acima de críticas. As HQ’s mais comerciais e os filmes blockbusters, para boa parte da crítica, colocam-se num lugar muito além do bem e do mal. A simples tarefa de divertir ou entreter (quem?) o grande público, justifica uma crítica construída tão somente a partir de subjetivismos e visões interiores (making offs) das produções. No mais das vezes, quando acossados por questões incômodas, essa crítica ingênua vem logo com a representação de minorias e grupos étnicos como salvaguarda de um empenho que vai um pouco além do meramente econômico. Isso significa que, quando criticados quanto ao seu papel histórico, a resposta é sempre uma negativa de qualquer imposição realista. Mas, se observado o projeto capitalista de adaptação do roteiro à cultura de massas, reivindicam seu papel artístico. Quer dizer, a ideia é amortizar a visão crítica e trabalhar a aceitação passiva e o consumo compulsivo de roteiros e personagens.

Fonte da imagem: http://marvelcinematicuniverse.wikia.com/wiki/File:High-res-avengers-poster.jpg

Aquilo que Alan Moore afirmou na polêmica entrevista ao The Guardian já foi dito no clássico trabalho de Henri Giroux sobre A disneyzação da cultura infantil. A ideia de branquidade é sinônimo de domínio e opressão. Quando as minorias são representadas, o retrato produzido as abstrai de suas histórias reais. De acordo com Giroux (1999. P. 111), “ao mesmo tempo reforçando todos os estereótipos demasiado familiares que vão do preguiçoso e imóvel ao ameaçador e perigoso.” Sinceramente, a infantilização da cultura prossegue mar adentro e de mãos dadas com a afirmação da supremacia branca estadunidense.

Para além da declaração de Moore, ainda existe uma espécie de não dito que surge na interpretação dessa narrativa. Ocorre que a stanleenização da arte sequencial impede a introjeção de um olhar crítico sobre uma perspectiva nova do plano ideológico dos quadrinhos. Os super-heróis estão na base das representações eugenistas do mundo ocidental. Estamos falando não apenas de questões físicas, mas de um problema relacionado ao caráter. A fabricação e o uso de consensos sobre como os diversos povos do planeta devem ser são mensagens implícitas na imagem moral dos super-heróis. A eugenia passa por uma leitura racista do século XIX, é verdade, mas guarda estreita relação com a visão clássica do ideal de homem em nosso tempo. Pedagogicamente, essa moral atual como condicionadora e modeladora de pessoas das mais diversas etnias e com as mais diversas características físicas.

Fonte da imagem: http://tudosobremagiaeocultismo.blogspot.com.br/2012/08/monstro-do-pantano-swamp-thing.html

A afirmação da infantilização da cultura de massas e da supremacia branca estadunidense revela-se nas grandes produções. O método consiste em trazer para um universo infantilizado qualquer público que se disponha a acompanhar as narrativas independente do suporte que as ampare. Na visão de Noah Chomski (2005), “se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de doze anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de doze anos ou menos de idade.” Isto é, se o público for tratado como idiota ele reagirá como idiota na maior parte das vezes. Creio que as teses de Chomski e Giroux poderiam ser confirmadas mediante a apuração de que os estúdios Walt Disney são donos da Marvel Comics desde 2009. Ora, precisamos de maiores evidências?

Fonte da imagem: https://hd-report.com/2017/05/16/logan-early-digital-release-includes-black-white-version-extras/

O universo geek inteiro caiu sobre Alan Moore após sua declaração ao The Guardian. Amizades foram desfeitas no facebook, os marvetes e os dcnautas de carteirinha ficaram de mal e a mídia paga com royalties das superproduções procurou não render o assunto. É sempre um incômodo ver um astro de um universo afirmar que nem todas as estrelas desse cosmo são bonitas de se ver. Sorte estarmos a milhões de anos-luz de distância da maioria delas porque assim os trâmites acertados entre os demiurgos não se revelam. Isso abala o mainstream. O que Alan Moore fez foi dizer o que todos já sabem. Isto é, o milionário mercado editorial das HQ’s, filmes e séries de super-heróis não apresenta nada de novo há décadas. A fórmula é sempre a mesma e o direcionamento ideológico é um abuso à inteligência de qualquer leitor.

Fonte da imagem: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Watchmen_cast.png

Caro leitor, não tenho dúvidas quanto à qualidade das grandes produções em HQ’s e filmes como, por exemplo, Watchmen ou Logan. Mas sejamos sinceros, Watchmen é uma série de HQ’s, e depois filme de longa metragem, de Moore e Gibbons, da metade dos anos 80. O filme Logan é um espelho do épico de George Stevens, Os brutos também amam (1953), num distópico cenário pós-apocalíptico. Quer dizer, nenhuma das produções citadas tem raízes vincadas no cenário atual. Sinceramente, uma demonstração apoteótica de efeitos especiais não substitui um roteiro bem dirigido e, quase nunca, o impulso blockbuster vai além do lugar comum. O problema levantado por Alan Moore está na forma desrespeitosa com que o público é tratado. E, nesse ponto, Moore acertou em cheio.

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