A “poética do detalhe” em Persépolis de Marjane Satrapi: Revolução Iraniana (1979) e resistência feminina

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A “poética do detalhe” em Persépolis de Marjane Satrapi: Revolução Iraniana (1979) e resistência feminina.

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

 

Em 1990, a época dos grandes ideais revolucionários e das manifestações tinha acabado. Entre 1980 e 1983, o governo tinha prendido e executado tantos secundaristas e universitários que a gente não se atrevia a falar de política. Nossa luta era mais discreta. Estava nos pequenos detalhes. Para os nossos dirigentes, qualquer coisinha poderia ser sinal de subversão. Pois é… Tudo era pretexto para nos prender.

(Marjane Satrapi, 2007)

Olá leitor! A cidade de persépolis (Takhte Jamshid – 518-331 ac.) foi a capital dos antigos governantes do Império Persa, os Aquemênidas. As ruínas da capital, redescobertas em 1930, ao sul do Irã, atestam a grandiosidade da cultura persa. Nos seus arredores, ficam os túmulos dos imperadores Dario e Xerxes. A maior parte das informações dessa cultura encontra-se nos relatos gregos porque muito pouco da produção escrita dos persas, que era imensa, chegou até nós. No terceiro século antes da era cristã, Alexandre da Macedônia saqueou e incendiou a cidade de Persépolis. Movido por antigas rivalidades – como o incêndio de Atenas, promovido por Xerxes, em 480 ac. -, o helenista deu provas de sua gananciosa barbárie.

A escritora iraniana Marjane Satrapi confeccionou sua autobiografia, em formato de graphic novel, utilizando-se de elementos épicos da história da Pérsia e a arte pop ocidental. Aliás, como a obra foi publicada na França (2000), é correto se referir ao suporte usado por Satrapi como BD (bande-dessinée). A Persépolis de Satrapi aproxima o antigo do moderno, o épico do pop e o drama do humor. Na leitura da obra fica evidente o fato de que a autora procura afirmar uma identidade muito mais antiga que o regime dos aiatolás. Nesse caso, é perceptível que a orientação política da obra relaciona-se à negação e resistência velada ao regime ditatorial no Irã.

A estética da obra, em branco e preto, também é uma crítica à imposição da sharia xiita referente aos costumes ultraconservadores impostos à mulher iraniana. A imposição do shador (véu escuro), por exemplo, é vista como emblema de repressão. Apesar disso, Marjane Satrapi revela o modo como as pessoas podem desenvolver estratégias de sobrevivência em situações extremas. A vida, que se esvai com tamanha facilidade, recebe um significado especial nesse cenário marcado pela Revolução Iraniana (1979) e a consequente aniquilação das liberdades civis.

A história do Irã, no século XX, foi assinalada pelos interesses da indústria ocidental do petróleo. O imperialismo britânico dominou a região até 1951, quando o primeiro ministro iraniano, Mohammad Mossadegh, nacionalizou a exploração petrolífera. Em 1953, Mohamed Reza Pahlevi implantou uma ditadura comprometida com os interesses do bloco capitalista. O Irã foi tomado de práticas e padrões de consumo do Ocidente. Acrescente-se a isso, o fato de que, em plena Guerra Fria, a fronteira do Irã com a URSS deveria ser interessante aos olhos da OTAN.

Ao mesmo tempo, no interior das mesquitas, um discurso nacional fundamentalista ganhava contornos na figura do aiatolá Ruhollah Khomeini. No fim dos anos 70, Khomeini estava no exílio, mas sua voz era ouvida por todo o Irã, nas fitas K7 que o líder islâmico enviava do exterior. A interferência política conservadora do clero iraniano tornou-se uma espécie de alternativa à administração denominada “libertina” de Reza Pahlevi. Finalmente, em 1979, o governo Pahlevi sucumbiu à onda de protestos e revoltas no país. Khomeini instaurava o regime dos aiatolás.

Um ano após o golpe de Khomeini, o cenário iraniano era bastante caótico e desagradável aos interesses do bloco capitalista. Saddam Hussein, presidente iraquiano apoiado por Washington, promoveu uma guerra contra o Irã. Seus objetivos eram enfraquecer a influência política dos xiitas e controlar as reservas de petróleo iranianas. A Guerra Irã-Iraque matou quase um milhão de pessoas e deixou sequelas nos dois países.

O aiatolá Khomeini morreu logo após a guerra. Seu sucessor, o aiatolá Ali Khamenei, mostrou-se mais receptivo a pequenas alterações na sharia xiita. Uma luz de esperança, mesmo que tímida, acendeu o coração dos iranianos. A eleição de presidentes moderados – como Ali Rafsanjani (1989-1997), Sayed Khatami (1997-2005), Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), Mohammad Khatami (2013-2021) – dá mostras de um país ainda polarizado na encruzilhada dos antigos com os modernos.

Parece-nos, ainda, que existe um nível mais profundo na obra de Marjane Satrapi. Em Persépolis, a instância da memória inventa e assegura a existência de uma identidade capaz de resistir ao próprio tempo. “Nunca se esqueça”, diz o pai de Marjie, “de quem você é e de onde vem.” A identidade, então, é essa rocha que dá sustentabilidade à história da autora e do Irã. Uma terra que sobreviveu a imperadores, califas e xás, só o fez porque soube preservar e reinventar sua identidade. Se o pano de fundo, em Persépolis, é a história trágica do Irã, o eixo central da narrativa é a identidade feminina e sua condição objetiva de existência sob a hostilidade de um regime autoritário.

A propósito, o lado mais encantador da autobiografia de Marjane Satrapi é o olhar feminino lançado sobre a história. É um ponto de vista desfocado da análise consensual. Persépolis escapa às opiniões pré-fabricadas para oferecer um retrato pessoal da sociedade iraniana. Sabemos que Marjane Satrapi é proveniente dos grupos mais favorecidos do Irã, com ancestrais entre os imperadores persas e que sua família ideologicamente aproxima-se de horizontes marxistas. No entanto, não é a veracidade da informação que mais importa à análise da autobiografia, mas a sua sinceridade. Em Persépolis, a “poética do detalhe” aproxima a análise sociocultural do pormenor cotidiano. O processo sorrateiro de luta pela sobrevivência física e espiritual ganha contornos subjetivos. A linguagem dos detalhes evidencia aquela afirmação de Foucault de que onde existe poder também existe resistência.

Fabricar o consenso é obter apoio criando “ilusões necessárias”. A visão orientalistsa, característica indelével do olhar colonizador, evidencia apenas o lado exótico e ou violento do mundo islâmico. Não é preciso dizer que na obra de Marjane Satrapi não há espaço para esse tipo de estereótipo. O que observamos em Persépolis é a narrativa de uma vida nada comum e as delícias, as dores e a resistência que ela pode oferecer.

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