Sobre Quadrinhos #17: História e memória na obra de Will Eisner

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Mas eis-me diante dos campos, dos vastos palácios da memória, onde estão os tesouros de inúmeras imagens trazidas por percepções de toda espécie. Lá estão guardados todos nossos pensamentos, quer aumentando, quer diminuindo, quer modificando de qualquer modo as aquisições de nossos sentidos, e tudo que aí depositamos ou reservamos, se ainda não foi sepultado ou absorvido pelo esquecimento. (Santo Agostinho. Confissões.)

Olá, leitor! Wil Eisner completaria cem anos nos idos do último mês de março. Nunca é demais relembrar a capacidade de reinvenção e resiliência desse mago dos quadrinhos. O criador de The Spirit talvez não possa ser chamado de criador da graphic novel, mas deve ser visto como o homem que reinventou os quadrinhos e a si mesmo. Essa tarefa adquire feições interessantes quando observamos que Eisner também produziu sua autobiografia em formato de HQ. Trata-se do emocionante livro Ao coração da tempestade (Cia das letras. 2010) lançado nos EUA em 1991.

 

Na obra de Eisner está a demonstração de que a realidade caótica pode ser pulverizada na poesia imagética. São as metáforas visuais que conferem leveza e dissolvem o peso do real. A procura da leveza é uma espécie de reação ao peso do viver. A precariedade da vida encontra na mudança de perspectiva uma possibilidade de flutuar em outro nível. Isto é, num lugar sem gravidade, mas carregado de força modificadora. Eisner entendia o papel transformador da arte sequencial. E, talvez, seja essa dinâmica demiúrgica que confere a alcunha de “clássico” ao seu trabalho.

Toda autobiografia implica em revirar as instâncias da memória. Com peculiar genialidade, Will Eisner reinventa sua história a partir de um interessante esquema mnemônico. A caminho da Segunda Guerra Mundial, durante uma viagem de trem que o levaria a integrar seu batalhão, momentos marcantes da sua vida e da história de sua família passam pela janela. Desde a vida como artista de seu pai em Viena até o alistamento do jovem Willie no exército estadunidense, o que se vê é uma edição de momentos marcantes da família Eisner. Relações familiares, crises sociais e o clima de guerra compõem o “pano de fundo” para a trajetória da família de Willie. Sua história de família confunde-se com a história dos judeus na América e na Europa na primeira metade do século XX quando predominava um sentimento geral de antissemitismo.

Fonte da imagem: http://mcpavao.blogspot.com.br/2012/03/ao-coracao-da-tempestade.html

 

Desse modo, o enredo de Ao coração da tempestade torna-se um flashback que permite acompanhar a vida de Will Eisner e de sua família. No entanto, os caminhos da memória e do esquecimento frequentemente entrecruzam-se nas estratégias de seleção. Lembrar e esquecer fazem parte de um mesmo jogo de intenções. A memória das sociedades é construída a partir de cortes que dizem respeito ao momento específico do acesso. Lembra-se ou se esquece daquilo que coaduna com a peculiaridade social. De acordo com Jacques Le Goff, “a memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia.” (1996. p. 427.).

Uma espécie de praxe em quase todos os trabalho de Will Eisner é sua crítica ao antissemitismo. O preconceito sofrido pelos judeus é, sem dúvida, um tema importante nessa história. Eisner denuncia a discriminação velada e o julgamento preconceituoso fundado em valores étnico-raciais. O que o autor apresenta não é aquela perseguição aberta e violenta, mas o antissemitismo presente no dia-a-dia.

A parte técnica dessa HQ revela o domínio de Eisner sobre o preto e branco. No entanto, um estilo caricato demonstra a proximidade empática de seu desenho com o leitor. Acrescente-se a isso um domínio narrativo que dispensa a definição e linhas divisórias entre os quadros. De modo quase instintivo, o leitor é conduzido ao próximo quadro e ou ao próximo balão. No entanto, isso é muito evidente, sua arte não se impõe ao roteiro. Há uma linha divisória bastante explícita que permite ao leitor prosseguir na história sem perder de vista a qualidade das ilustrações.

Fonte da imagem: https://gafanhotonerd.blogspot.com.br/2014/06/comentando-4-ao-coracao-da-tempestade.html

O jogo da memória que encontramos em Ao coração da tempestade revela uma percepção dialética da temporalidade. Lembrar o passado implica em selecionar aquilo que se pode esquecer. A ilha de edição da memória sugere uma busca por aquilo que se pretende lembrar, mas evidencia também aquilo que é preciso esquecer. Eisner nunca perdeu de vista a memória dos fascismos na primeira metade do século XX. Sua obra mantém um constante diálogo com a história e, nesse caso, olhar para trás é aprender para não repetir. Numa época em que o medo do autoritarismo volta a ser uma tópica, como lembra Zygmunt Bauman, qualquer estratégia de esquecimento implica na lembrança daquilo pelo qual vale a pena viver.

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