“Se o que conhecemos nos governa, talvez o que nos determina
seja o que não sabemos.” – 
José Saramago

O criador de Monstro do pântano (1983), John Constantine (1983), V de vingança (1982-1988) e Do inferno (1989-1996), dispensa muitas apresentações. A obra de Alan Moore é tão importante para o universo das HQ’s quanto a obra de James Joyce para a literatura ocidental. Sua caracterização de heróis ou mesmo de personagens comuns busca uma transcendência incomum. O inegável viés melancólico de seus roteiros demonstra um modo implacável de questionamentos existencialistas. Moore surgiu no início dos anos 1980 repaginando velhos personagens da DC Comics e, em pouco tempo, criou uma coleção de personagens e histórias que marcam profundamente a história da arte sequencial.

Em Do inferno, Alan Moore acompanha a tese de que certo Sir William Gull, um médico maçon, denominado Jack, o estripador, teria cometido os crimes de Whitchapel, em 1888, por instrução da própria rainha Vitória. A motivação seria o envolvimento de um herdeiro do trono inglês com uma prostituta do bairro londrino. Sir William Gull teria cometido os assassinatos em nome de uma razão de Estado, mas a ritualística dos crimes e a destreza das operações demonstrava uma vocação incomum de seu autor. Moore valeu-se de uma pesquisa exaustiva que incluiu diversos documentos como atas policiais, cartas, jornais etc. Além disso, demonstra grande conhecimento da geografia e da arquitetura de Whitechapel. Eddie Campbell usou essa pesquisa para retratar os cenários descritos por Moore. De posse de todo esse arsenal de pesquisa e com a grande quantidade de lacunas que a história de Jack traz, Moore e Campbell criaram uma história repleta de simulações policialescas e ficção literária noir. Enfim, uma história que combina assassinatos em série com simbologia maçônica num ambiente de crueldade extrema.

Um ano antes que Jack cometesse os assassinatos de Whitechapel, Conan Doyle lançava a primeira aventura de Sherlock Holmes. O livro Um estudo em vermelho (1887) foi tão convincente do ponto de vista do conhecimento investigativo que, no ano seguinte, Doyle foi convocado pela Scotland Yard para ajudar nas operações de investigação. O fato é que nunca conseguiram solucionar completamente o caso. Mitomaníacos de toda a Inglaterra reclamaram nos jornais a autoria dos crimes. Não se sabe muito mais sobre Jack, o estripador, além da sua perícia cirúrgica. De modo que, o assassino poderia ser um médico ou, quem sabe, até mesmo um açougueiro. Tantas lacunas assim dependem integralmente da ficção, muito mais que da história, para serem preenchidas.

Contudo, nesse ponto, é interessante lembrar que o vitorianismo inglês não era tão somente um conjunto de preceitos moralistas. Na verdade, o que fez da Era Vitoriana (1837-1901) um período digno de nota foi o apogeu do império inglês e do predomínio do pensamento científico sobre todas as outras modalidades de conhecimento. Era uma época de cruzados, reformadores e teóricos frente a um contexto em que o imenso progresso e avanço do capitalismo contrastavam com a extrema injustiça e pobreza da população inglesa. A sociedade sofria de medo da modernização, da alta tecnologia e as mudanças radicais que ela acarretava. De todo modo, é evidente que não são os fatos relacionados aos assassinatos de Whitechapel que fazem do livro de Moore uma obra prima, mas o desenvolvimento de uma reflexão sobre o contexto histórico e seus múltiplos porquês.

Moore segue uma fórmula, desenvolvida também por Chris Claremont e Frank Miller, de construir histórias mais longas e temas mais sombrios. Basta lembrar que Do inferno foi publicada ao longo de oito anos entre 1989 e 1996. A invasão inglesa no comics dos EUA, ocorrida no início da década de 80 do século XX, também trouxe as críticas social, ambiental e política como temáticas relevantes. Moore trouxe comentários sociais explícitos e uma crítica ao legado inexorável da exploração das massas. Para além disso, a técnica de criação de ritmos visuais precisos, a partir das telas de nove quadrinhos, produz o efeito de anulação por constância deixando apenas a história em foco. (MAZUR; DANNER, 2014). Quer dizer, o leitor é transportado para uma tela única, como a de uma televisão, onde a história é exibida. É uma leitura que obedece a um padrão cinemático que ganha intensidade e movimento na confluência equilibrada e leve da narrativa de Moore com as ilustrações de Campbell.

A propósito, o traço perturbador de Eddie Campbell, impresso nas ilustrações em preto e branco, assinala o aspecto sombrio do caso narrado. A técnica do nanquim atribui um tom pesado à Graphic Novel e solidifica a morbidez e a violência da situação. O clima pesado apresenta uma Londres mergulhada na miséria, na corrupção e abastecida com álcool e prostituição pela sociedade vitoriana. O cenário revela uma arquitetura implacável de ruelas, sarjetas e bares fétidos onde seres quase humanos descarregam aquilo que tem de mais abjeto. A Londres de Campbell é carregada de significados que vão ao encontro da multiplicidade de histórias singulares produzidas na narrativa de Moore.

Borges refletia sobre a matéria que dava forma à literatura. Para ele a literatura não era feita somente de palavras senão e, sobretudo, de imagens em forma de metáforas. A literatura é feita de sonhos que o escritor traduz para um suporte específico. Alan Moore sabia que a única carta verdadeiramente atribuída a Jack, o estripador, trazia o endereço “do inferno” (From hell). Contudo, o título da obra faz uma espécie de referência que homenageia a Divina comédia (1315-1318), de Dante Alighieri. Os personagens sonhados por Moore, que transitam pelo inferno vitoriano, revelam semelhanças com os personagens sonhados pelo poeta florentino transitando por um inferno renascentista. “Estamos na mais extrema e absoluta região da mente humana, um mundo das profundezas escuro e inconsciente. Um abismo radiante onde os homens encontram a si mesmos… O inferno, Netley. Nós estamos no inferno.” (MOORE, 2014, IX-31).

É justo para um escritor contar uma história sem preocupar-se com a veracidade do tema. Essa história narrada precisa tão somente de uma aparência de verdade. Nenhuma obra ficcional ignora seu tempo, mas seu compromisso é com a verossimilhança. Aristóteles observava que história e ficção se avizinham. A história serve-se de mecanismos narrativos próximos aos da ficção. Na verdade, história e ficção usam os mesmos métodos alusivos e, muitas vezes, enigmáticos. O historiador é, segundo José Saramago (EDUFSC, 2000), um escolhedor de fatos. Não é possível reconstruir o passado “tal como se passou” e, nesse sentido, o trabalho do historiador é tão demiúrgico quanto ao do escritor de ficção. Esse limite parece estar perfeitamente compreendido por Alan Moore na configuração da obra Do inferno. Neste livro, Moore dilui a matéria histórica na matéria ficcional e, assim, consegue reorganizá-las numa interpretação que vai além do próprio fato. A história e a ficção, na obra de Alan Moore, são interrogações feitas ao passado e conduzidas pelos problemas, inquietações, curiosidades e angústias do tempo presente. (SARAMAGO, idem).

Alan Moore

A história de Jack poderia se confundir com a história de um assassino comum não fosse a riqueza simbólica produzida pelo evento. Foi exatamente isso que Moore percebeu ao reinventar a história dos assassinatos de Whitechapel. A violência, a crueldade e a perícia com a qual os corpos foram “estripados” assumem um significado importante na obra de Moore e Campbell. Jack, the ripper, era a personificação do próximo século. Era a necessária encarnação da razão instrumental aplicada na banalização do mal, essa característica do século XX. “Está começando, Netley. Apenas começando. Para o melhor e para o pior, o século XX. Eu fiz o seu parto.” (MOORE, 2014, X-33).

Existe ainda um significado mais profundo que repousa numa velha máxima da historiografia. Toda e qualquer obra que trate da história, mesmo que de modo inconsciente, produz uma síntese sobre a própria história e busca responder a um questionamento do presente de seu autor. As incertezas e os medos da nossa modernidade líquida, como sugere a obra de Zygmunt Bauman (2004) apontam para uma interpretação possível das motivações de Alan Moore ao investigar com rigor historiográfico os assassinatos perpetrados por Jack, o estripador. A passagem do século XIX para o século XX é assinalada por um aumento sem precedentes da violência em todo o planeta. É impossível não perceber a reflexão crítica de Moore em relação à convivência entre os homens de todos os continentes no final do século XX. O século XXI, nessa perspectiva, também foi forjado na mesma bacia de sangue do seu precedente.

Do inferno foi adaptado para o cinema, em 2001, pelos irmãos Hughes, com Ian Holm no papel de Sir William Gull e Johnny Deep interpretando o inspetor Abberline. Não é a melhor adaptação de uma obra de Alan Moore, mas possui uma bela fotografia e um enredo aceitável. No filme é o inspetor Abberline que detém o papel principal enquanto na graphic novel é o próprio Jack que protagoniza a história. O filme ganha um ritmo hollywoodiano que não deixa de acentuar alguma banalização à obra original. Contudo, chama atenção a maleabilidade da narrativa de Alan Moore e sua capacidade de ser relida em outro suporte. A genialidade de suas histórias repousa, sem dúvida, no apelo psicológico de seus personagens. No entanto, é a capacidade de captar sonhos que produz a matéria prima de sua narrativa.

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