Semana Especial do Halloween: Olhos Negros por Jones V. Gonçalves
sexta-feira, outubro 29, 2010 23:30
No próximo domingo, dia 31 de outubro, será comemorado o Dia da Bruxas, também conhecido por Halloween. O Sobre Livros convidou alguns autores para escrever contos não relacionados ao tema especificamente, mas que envolvam elementos macabros, algumas colheradas do sobrenatural e uma pitada de terror.
No primeiro dia foi apresentado o conto Jack da querida Georgette Silen, no segundo foi Sobre as Vezes Que Me Matei por Fábio Henckel, no terceiro Andrés Carreiro nos brindou com Reflexos Ardentes e ontem tivemos o conto Rogai Por Vós de Rober Pinheiro…
O conto de hoje foi escrito por Jones V. Gonçalves, conhecido no site por ser autor do livro D. E. I. S. – Departamento Especial de Investigação Sobrenatural.
Esse é um conto exclusivo feito para o site Sobre Livros que será dividido em duas partes, a primeira parte será colocado hoje e a segunda parte amanhã. Logo teremos uma resenha de D.E.I.S. aqui no Sobre Livros, aguardem!
Quem quiser conversar, conhecer e saber um pouco mais sobre os trabalhos de Jones V. Gonçalves, basta segui-lo no Twitter @jones_alef e visitar o seu site.
Olhos Negros
Jones V. Gonçalves
Davi olhou para a rua, lá fora chovia, teria chovido o dia inteiro, ele já estava cansado de ficar em casa sem nada para fazer. Queria estar na rua, jogar bola com os amigos, ou mesmo correr atrás das meninas, como costumava fazer. Moço forte, alto e bem apessoado, seu maior trunfo os olhos azuis ajudavam-no muito naquela cidade, dono de um olhar penetrante e uma lábia inconfundível sempre que saia se dava, assim era Davi, mas dentro de casa não era nada.
A chuva crescia em intensidade, o garoto apenas esperava, deitado no sofá da sala olhando televisão, a tv aberta era uma droga, nada que prestasse passava nos canais, apenas gente morrendo, novela e política, nada de bom para se fazer numa segunda a tarde. Impaciente levantou-se, foi para a cozinha, iria preparar algo para comer, esta era a única coisa para se entreter.
Enquanto preparava seu lanche ouviu o sinal do interfone, alguém estava lá fora, no portão, Davi olhou pela janela, uma criança esperava pacientemente do lado de fora, uma criança que ele nunca havia visto antes. Pegou o guarda-chuva e foi ao portão, mas quando chegou não havia ninguém lá fora, apenas a chuva continuava a cair, os únicos sons que ouvia eram os pingos batendo contra o guarda-chuva e contra chão.
Deu meia volta, parecia apenas brincadeira de alguém que nada mais tinha para fazer, ainda mais a noite, o que estes pirralhos estavam pensando. Chegando a porta de casa reparou que lá nos fundos do terreno um menino o observava, a mesma criança que antes estivera no portão, Davi ficou olhando enquanto a criança caminhava em sua direção, paços firmes, que não faziam som algum, sentindo os pêlos do braço se eriçarem o garoto entrou para dentro de casa, fechou a porta sem nem olhar para trás, fora rápido e trancara de vez a porta.
- Que moleque iria pular o muro! – Falou para si mesmo, lembrando do muro de alvenaria de mais de dois metros, e também dos fios eletrificados que ficavam acima dele, o portão era mais alto que o muro e se ia até a altura dos fios, não poderia um moleque pular aquela cerca.
Olhou pela janela da cozinha que dava para os fundos da casa, e lá estava o menino, olhava para ele com ar de desconsolo, cabelos e roupas molhadas, o cabelo escorrido lhe tampava os olhos, a postura ereta, firme, olhando para o rapaz, não importava para onde este fosse, não abriu a boca um momento sequer, mas Davi jurava ter ouvido uma voz, uma voz angelical que lhe pedia para abrir a porta, que lhe dizia estar com frio. O garoto ficou firme, não queria abrir a porta, não sabia quem era aquela criança, e não iria tentar descobrir. Trataria de chamar ajuda, chamar alguém, a policia que fosse, trombadinhas com menos de dez anos eram algo incomum naquele bairro de Porto Alegre, mas se existiam em outros lugares, ali também poderiam existir.
Pegou o celular e discou o cento e noventa, porém apenas estática, não havia linha, olhou para o aparelho e todas as barrinhas estavam lá, o sinal deveria estar limpo ali, colocou o aparelho no ouvido novamente e a mesma coisa aconteceu, apenas estática na linha. O suor frio percorreu sua espinha, estava com medo, o que era aquilo, quem era a criança que impassível esperava do lado de fora. Frio na barriga, sentou-se no chão contra a porta, colocou as mãos no rosto. Precisava pensar, ajeitou as longas madeixas louras, retirou os cabelos da frente dos olhos e voltou a olhar pela janela.
Surpreso percebeu que a criança não mais estava lá, apenas a escuridão da pecinha da lavanderia nos fundos da casa, nada mais. Meio ressabiado ainda, abriu a porta de leve, e aos poucos espiou lá fora, gritou ao ver a cena, caiu para trás ao perceber que a criança estava na porta, os cabelos negros antes colados ao rosto devido a chuva, agora estavam de lado, e Davi pode ver toda a negritude de seus olhos, não apenas íris, mas toda a órbita ocular era tomada por um negror profundo, que não era em nada comum.
- Por favor – disse a criança entre dentes e em um sussurro, mas com uma voz angelical. – Deixe-me entrar, estou com frio aqui fora, e preciso me esquentar. – Voltou a baixar a cabeça e seu rosto não mais era visível para Davi, que apenas balbuciava algo, não sabia o que fazer, tinha medo daquela criança, mas ao mesmo tempo havia algo em sua voz, algo que lhe dizia para que deixasse entrar.
Chorando pelo medo que a criatura lhe imbuia Davi apenas balançou a cabeça de modo afirmativo, a criança então caminhou para dentro da casa, com passos leves, mas precisos, em poucos movimentos estava a frente de Davi. Levantou a cabeça e olhou fundo nos olhos azuis e chorosos do rapaz.
- Seu olhar costumava ser firme, penetrante, o que aconteceu Davi? – A voz sussurrante do menino quase não podia ser ouvida, mas o outro entendia bem suas palavras, só não sabia como agir com aquilo.
- Voc…..ê me conhece? – Perguntou vacilante, sem saber ao certo o que perguntar, sem saber nem como perguntar. Os olhos negros da criança brilhavam, não um brilho reluzente, mas um brilho contido, um brilho que exalava medo.
- Não, não o conheço Davi, mas veja aqui estou. – Pingando no chão a água empossava-se a volta da criança, o garoto olhou para o chão e viu que não era água, mas sim sangue, gotas espessas de sangue cobriam o chão ao redor do menino, a roupa dele estava toda lambuzada do liquido vermelho, assim como os cabelos e as mãos.
O terror se traduziu em seus olhos, ao invés de mãos a criança tinha garras terríveis, sentiu o toque apertado dos dedos em seu braço e então a dor atingir-lhe o cérebro, o alerta vindo direto de seu estomago, o ser a sua frente sorriu, um sorriso de dentes pontiagudos como as presas de um tubarão. Davi sentiu as garras rasgarem a carne, gritou, mas seu grito foi abafado por um beijo, a criatura beijara-lhe a boca, e com as presas rasgara sua língua, fazendo com que o sangue vertesse. Com a mão repuxou nas tripas do rapaz retirando um punhado delas junto as fezes que já passavam por ali.
Pela perda de sangue Davi ficara pálido, com o olhar moribundo no ser que se alimentava de sua carne, e aos pouco a escuridão foi tomando conta da sua volta. A criança olhou para o rapaz, estirado em uma poça de sangue e tripas, em suas mãos parte da língua de sua vitima, a qual ele mordiscava enquanto se deliciava com a agonia do rapaz. Medo, carne e sangue, era disso que aquilo se alimentava e teve todos por um longo momento.
********
Francisco tamborilava o tampo da mesa, já faziam dois meses que nada acontecia, nada de anormal desde o bum que havia sido durante a estadia do diabo na terra dos homens. Tudo voltara ao normal e para ele aquilo era muito tedioso, queria estar nas ruas, queria um caso para investigar. Voltou a olhar os livros sobre a mesa, era tudo o que restava a fazer, mas não conseguia mais ler, não conseguia nem mesmo pensar em ler, sua mente estava parada, queria ação. Delegara a Matheus treinar Caio, mesmo sem ter novos casos deviam arranjar uma forma de treinar o novato, então os dois seguiram para o interior, coletar causos de fazendeiros e pessoas do campo. Sempre havia algo novo ou velho naqueles lugarejos, nada que fosse especial, nenhuma criatura que causasse problemas sérios, e que poderia ser deixada em paz.
Os agentes só agiam quando as criaturas fossem perigosas para a população, enquanto não eram, não precisavam agir. Assim Caio aprendia algo e Matheus se exercitava, mas Francisco continuava ali no tédio. Daniel já o havia convidado para descer a academia e treinar com o pessoal do apoio, mas este não era p tipo de ação pelo qual o investigador se interessava.
Voltou a tamborilar os dedos, em casa não teria o que fazer, ali pelo menos não estava sozinho, tinha medo de ficar sozinho, já havia visto coisas demais, perdido amigos demais, se ficasse sozinho talvez fizesse algo que não desejasse. Levantou-se, precisava de algo para espairecer os pensamentos, caminhou até o laboratório, lá Alex estava testando algumas substâncias, nada formal, apenas experiências.
- Bom dia Alex, e ai, o que tem por ai? – Perguntou Francis ao entrar no laboratório, vinha calmamente da sala de investigadores, queria apenas alguém parecido com ele para conversar.
- Opa, e ai Francis, estou fazendo uns testes com a amostra de sangue que vocês me trouxeram no caso dos moleques encrenqueiros. – Alex não se virou, ele estava por demais concentrado em seus estudos, gostava de falar com Francis, sempre aprendia algumas coisas, mas desta vez talvez fosse ele que ensinaria algo ao amigo.
- O caso dos guardiões e da bruxa velha? – Um pouco incrédulo o investigar teve um pequeno sobressalto, aquilo havia acontecido há mais de seis meses atrás, por que Alex iria querer mexer com aquilo de novo, e fora este caso que deixara Dani afastado por muito tempo.
- Sim, sim, este caso mesmo, estou trabalhando nestas amostras, encontrei algumas coisas aqui, alguns traços de substâncias que não havíamos encontrado antes. – Alex agora olhava para Francisco, seu rosto parecia divertido, já que via que realmente pegara o amigo de surpresa.
- Coisas novas, Alex o caso já foi resolvido, as coisas se foram, não há por que ver isso de novo. – Francisco caminhou para perto de Alex, em sua voz um tom de desinteresse quanto as novas descobertas do amigo.
- Sim, eu sei, mas o capitão liberou a compra de uns equipamentos novos para o laboratório, equipamentos com os quais posso fazer exames que antes não podia, e por nossos casos serem meio que secretos para os outros departamentos não poderia pedir aos outros laboratórios. – Como era normal para o cientista, ele sempre fazia muitos movimentos de mão enquanto falava, demonstrando e apontando para os novos equipamentos de que tanto falava.
- Ok, tudo bem, então o que descobriu de novo com estes exames? – Francisco parecia mais interessado agora, parece que havia conseguido algo para se concentrar, pelo menos durante aquela tarde.
- Bom, além do Iodo e do Enxofre que haviam nas amostras por conta do contato que fizeram com os guardiões, encontrei traços de um tipo estranho de sangue, o que indica que não tiveram contato apenas com os guardiões da bruxa. – O pesquisador trazia um sorriso nos lábios, ele sabia que sua descoberta não ajudaria em nada no caso da bruxa que já fora resolvido, mas quem sabe ajudasse em algum outro.
- Sim, entendo, e como eles estão mortos nunca saberemos o que mantinha este contato com eles. – Disse por fim Francisco voltando ao seu estado de desanimo.
- Este é um ponto no qual você pode estar certo. – Alex também desanimou, estava tão confiante de que descobrira algo a se orgulhar, mas agora com a falta de interesse do colega seu mundo havia caído.
- Francis o capitão quer te ver! – Era Eduardo, o novato que viera para o lugar de Fabio, agente morto em ação há alguns meses, um garoto tranqüilo, forte, de aparência séria, fora transferido do G.O.E. (Grupo de Operações Especiais) direto para o D.E.I.S. (Departamento Especial de Investigação Sobrenatural).
- To indo Edu. E Alex vai lá, continua com tuas experiências, elas podem nos ajudar em futuros casos. – Francis não olhou para o cientista enquanto falava, mas como não havia nenhum tom de sarcasmos em sua voz o rapaz sorriu e fez sinal de afirmativo.
O investigador seguiu o novato pelo corredor, Eduardo foi direto para a sala de reuniões, lá ele e Samuel estavam entretidos em um jogo de cartas. Francis olhou para dentro da sala e o novato apontou com o dedo para a direção da sala de Marco, parecia que a coisa era apenas com ele. Caminhou mais um pouco passando pos uma saleta menor, a qual se destinava a uma secretária, ou secretário que o capitão nunca teve, e então chegou a porta, bateu de leve e ouviu o convite para entrar.
- Me chamou Marco? – Perguntou ele o obvio, mesmo sabendo que sim, era normal este procedimento, não poderia demonstrar no departamento a liberdade que tinha com o capitão, ainda mais quando estavam apinhados de agentes novatos, isso tiraria a autoridade de seu superior.
- Sim, sim, chamei Francis, sente-se ai. – Marco respondeu apontando para uma cadeira a frente de sua mesa. O capitão endurecido pela experiência em muitas batalhas, acostumado a ver coisas em que poucas pessoas acreditariam existir, tinha o semblante rude de um oficial da policia, mas ainda mais rude por se tratar de um oficial do D.E.I.S..
- Alguma novidade senhor? – Perguntou Francisco sentando-se na cadeira, observando as anotações a frente do oficial, mas não havia nada de muito diferente ali.
- Fala direito Francis, não é por que o departamento ta cheio de novatos que você vai falar assim não é! – Marco parecia um tanto bravo, não era Francisco, mas a falta do que fazer, isso deixava o oficial bastante desnorteado, e ainda somava o fato de que sem serviço para seus homens logo o comando iria requerer a dispensa ou transferência de alguns.
- Calma Marco, o que ta acontecendo porra! Acalma ai cara, me conta o que foi! – Francisco meio assustado com a reação do oficial deixou a formalidade de lado de maneira rápida, conhecia seu superior há muitos anos, e sabia que algo estava o aborrecendo.
- Deixa pra lá Francis, só tira o tom formal da conversa que já ajuda! Fica sentado ai e espera o Dani vir que eu explico o que tem de novidade! – Marco terminou de falar e voltou sua atenção para o notebook, precisava responder alguns e-mails da corporação, precisava tomar algumas decisões.
Os minutos passaram e nada, Daniel havia estado treinando na academia do departamento, provavelmente iria tomar banho para depois subir, decidiu então ler o jornal do dia que estava sobre a mesa do capitão, notou nas paginas policiais uma matéria marcada, algo que era do costume de Marco, procurar coisas estranhas nos jornais e revistas, e aquela sem duvida era uma ocorrência curiosa. Cinco desaparecidos nas duas ultimas semanas no bairro Auxiliadora em Porto Alegre, nas imediações das Avenidas 24 de Outubro e Cristovão Colombo. O estranho não eram nem os desaparecimentos, mas sim que nenhum vestígio fora deixado, apenas as casas abertas, sem sinais de arrombamento.
Os desaparecidos segundo a policia não tinham ligação nenhuma, todos de faixas etárias diferentes, a única coisa em comum é que estavam sozinhos em casa. No inicio pensava-se em fuga, já que os primeiros desaparecidos eram jovens, mas logo depois pessoas adultas e enfim uma senhora de idade. Até agora a policia não tinha pistas e dizia seguir a premissa de seqüestro.
Enquanto Francisco lia a matéria Daniel chegava a sala do capitão. Marco levantou a cabeça da tela do notebook e fez sinal para que o soldado sentasse, só então viu que o investigador estava lendo o jornal. Com um sorriso o oficial começou a falar:
- Acho que chega de paz para vocês não é! Bom o Francis já achou o nosso caso no jornal, quero vocês dois auxiliando a policia nos desaparecimentos! – Não explicou mais nada, apenas olhou para os dois com ares de o que estão esperando, dêem o fora daqui.
- Ei capitão detalhes por favor! Apenas li algumas coisas aqui no jornal e dificilmente acho que é um caso para nós. – Francisco nem sequer moveu-se da cadeira, enquanto Daniel olhava atônito para o rosto de seu superior.
- Buenas, vamos ver se consigo ser mais detalhista então! Fazem pelo menos duas semanas que pessoas tem sumido na auxiliadora, ninguém as viu sair de casa, ninguém viu nada estranho, mas elas desapareceram de dentro de casa. A policia esta totalmente perdida no caso, não sabe o que pode ser, até aqui não dei interesse a isso, mas hoje pela manhã recebi um e-mail do comando, eles querem o D.E.I.S. no caso por que algo novo apareceu, uma testemunha, e segundo eles ou o cara é drogado, ou maluco, ou então tem algo muito estranho acontecendo no Auxiliadora. – Terminando de falar, Marco voltou a atenção para o notebook, precisava terminar mais algumas coisas ali.
- Ta, tudo bem, mas o que a testemunha disse? Detalhes Marco! – Francisco já se aborrecia ao mesmo tempo em que ficava eufórico, parecia que voltaria a ativa.
- Não tenho detalhes Francis, você vai ter de descobrir na 3° DP, lá estão os policiais do D.H.D. (Departamento de Investigação de Homicídios e Desaparecidos) que estão cuidando do caso. Agora vão, peguem suas coisas e dirijam-se a Porto, depois me avisem do que encontraram. – Francisco e Daniel levantaram-se e deixaram a sala de Marcos, o capitão voltou aos e-mails, precisava decidir quem seria transferido, precisava diminuir o quadro de agentes em dois, e isso só agora.
*******
No inicio da tarde os dois chegaram a 3ª DP da Civil na vila Floresta, a delegacia mais próxima da área dos desaparecimentos, lá Marcelo, agente do D.H.D. responsável pelo caso os recebeu, como já conhecia o serviço do D.E.I.S. e também já havia participado de algumas missões com Daniel antes deste ultimo sair do G.O.E., prestou todo auxilio que podia.
- Então Marcelo, conta pra mim o que conseguiu? – Francisco com seu ar debochado, de quem esta pronto para tirar um sarro da cara de quem deslizar a sua frente, estava sentado a frente do investigador, tratava Marcelo como costumava tratar um novato.
- Não tem muito o que falar investigador, não encontrei nada nas casas dos desaparecidos, sem sinal de arrombamento, sem sinal de violência, nada além de um aposento vazio. – O agente da civil respondeu com naturalidade, não dando importância ao deboche do colega de profissão.
- Certo cara, mas por que chamaram o D.E.I.S.? O pessoal falou algo sobre uma testemunha dos fatos, estamos aqui para ajudar! – Daniel interveio, sabia que Francis poderia entrar numa de ridicularizar o trabalho da policia convencional, havia uma rixa entre eles e o D.E.I.S., sendo os últimos chamados de caça fantasmas vez ou outra.
- Sim, sim, o cara pode ser apenas um maluco, ou estar chapado, sei lá, não esta falando coisa com coisa, apenas delirando. – Marcelo voltou a responder com calma, não queria atritos com os dois agentes, conhecia as rixas entre os departamentos e não queria que sua investigação fosse comprometida por isso. – Eu resolvi manter ele por aqui, pelo menos enquanto os exames toxicológicos não chegam.
- Ponto para você queridão, pensei que não existissem pessoas com bom senso no D.H.D.! – Atacou Francisco rindo, não estava se importando com o que Marcelo poderia pensar, já havia passado poucas e boas com a burrice dos outros, desta vez pelo menos encontrara um agente sensato. – Quero falar com esse cara.
- Ele já prestou depoimento agente. Se quiser pode ler a transcrição, não sei se quero você enchendo a cabeça do cara com coisas fora do comum! – Rebateu Marcelo, não ficou nada satisfeito com o comentário do outro, conhecia muitos colegas muito bons em suas funções e não poderia admitir tal falatório de seu amigos.
- Deixa disso, preciso falar com ele, você nos chamou agente esta lembrado. Sem nós você esta perdido no caso. – Francisco deixou um pouco o ar piegas e voltou a exibir a carranca séria de sempre, aquela que sempre usava quando estava a serviço.
- É eu sei que fomos nós que os chamamos, mas já estou ficando arrependido disso. Vamos eu levo vocês até ele. – Cedeu por fim, reconhecendo que estava perdido e que precisava de ajuda.
Os três caminharam pelos corredores da delegacia, Daniel como sempre vestindo a farda de combate do D.E.I.S., calças negras, camiseta branca e colete a prova de balas, cabeça raspada a zero, cicatrizes marcavam seu rosto, dando-lhe um ar selvagem de combatente, as tatuagens trançadas pelos braços o destacava no meio dos policiais comuns, uma para cada caso como ele costumava dizer, homem de porte físico avantajado. Francisco amarrara seus cabelos em um rabo de cavalo displicente, não trajava a farda do D.E.I.S., mas sim uma camisa negra sem estampa com detalhes mais claros, calças jeans negras, o medalhão da senhora da noite sempre a mostra, seu amuleto de proteção. Já Marcelo, homem alto, negro de porte considerável, vestido em roupas sociais, mais parecia um advogado do que um agente de campo, trazia o coldre da pistola a mostra no tórax.
Um grupo um tanto diferente, eles entraram em uma sala de espera, a sala tinha uma janela e era mobiliada por cinco poltronas dispostas nos cantos e uma mesinha com café. Sentado a uma das poltronas um rapaz parecia quase dormir, mas aprumou-se quando viu as três figuras entrarem pela porta.
- Este é Alexandre. – Apresentou Marcelo, o garoto não aparentava ter mais de dezessete anos, parecia apavorado, suas roupas molhadas pela chuva que caia já há alguns dias na capital gaúcha, tinha uma toalha em volta do pescoço.
- E por que não lhe deram roupas secas? – Perguntou Daniel ao ver o rapaz pela primeira vez.
- Nós até sugerimos, mas ele não quis, disse que não ficaria longe de suas próprias roupas. – Respondeu Marcelo na mesma hora sem estranhar a pergunta de seu colega, como se já estivesse preparado para aquilo.
- Bom inspetor, não sei se vai querer ficar por perto agora, mas se for ficar vou pedir que não me interrompa, fique quieto enquanto eu converso tudo bem? – Francisco impunha seu modo de trabalhar ao colega do D.H.D., sabia que iria ouvir muitas coisas que poderiam ser interpretadas erroneamente se sua atenção fosse perdida com comentários apáticos vindos de Marcelo, por isso já colocava direto as cartas mesa, esperando quem sabe que o outro o deixasse a sós com a testemunha, porém sabia que isso não aconteceria.
- Como quiser Francisco, farei boca de siri, só não vou permitir qualquer agressão a ele. – Respondeu o investigador sentando-se em outra das poltronas, queria ver como funcionava esses tais interrogatórios do Departamento especial.
- Certo, Alexandre né? Carinha, me conta exatamente o que aconteceu! – Incisivo Francis foi direto ao ponto sem apresentações, sem tempo a perder. Olhou nos olhos do rapaz e então sentou-se em uma poltrona próxima, Daniel encostou-se na parede, apenas observando a testemunha.
- Era um menino! Sem olhos! – Foi tudo o que Alexandre disse quase para si, em um sussurro, não se moveu para falar, nem fez menção de prosseguir.
- Não Alexandre, eu quero toda a história, quero os detalhes e você vai me contar. – O rapaz finalmente se mexeu, apenas o suficiente para encarar o policial, um brilho pode ser captado por Francisco, como se algo ressurgisse dentro dele.
“Eu estava em casa” Começou a falar, sua voz rouca quase não podia ser ouvida, mas foi aumentando em volume gradualmente enquanto a confiança naquilo que vira retornava a Alexandre. “Sentado no sofá da sala ouvindo musica, lá fora chovia sem parar, sim chovia, lembro de ver um vulto na janela da frente, uma sombra apenas. Não dei bola na hora, sabe como é, arvores, chuva, sombras aparecem e desaparecem, normal, mas algo me fez levantar, não sei dizer o que.”
“Caminhei até a janela e olhei lá fora, não tinha ninguém ali, nem na frente da casa, então voltei pro sofá, não tinha mais nada a fazer. Então a campânia tocou a primeira vez, fui até a janela e lá estava ele. Um menino, roupas ensopadas, rasgadas, pra mim um menino de rua apenas, sabe Porto esta infestada com eles, um pedinte, foi o que pensei. Quando fui até a porta para ir lá fora ver quem era, ele tinha sumido, não estava mais ali. Fui até o portão e nada, então dei meia volta e senti uma mão me pegando, olhei para aquilo, um braço pálido, muito branco passava pelas grades do portão, pulei pra trás e lá estava ele de novo. Cabelos sobre o rosto, pele branca, quase azulada, sei lá que cor era aquilo.”
“Corri de volta para dentro de casa, não queria ficar ali, tranquei a porta e olhei de novo pela janela, ele estava dentro do pátio, não sabia como aquilo era possível, o muro é alto, tem grades e tudo o mais, mas ele estava ali na minha frente dentro do pátio. Eu não sabia o que fazer, sai da janela e me escondi na sala, foi quando ouvi a voz pela primeira vez, ele pedia para entrar, uma voz encantadora, eu queria deixar ele entrar, não sei por que, queria que entrasse na casa, mas com medo não respondi.” Alexandre abraçava o próprio corpo, a insegurança retornava com as lembranças, mas manteria-se forte, iria terminar a história.
“Então como eu não havia respondido ele pediu de novo, e de novo, e de novo, até que enfim eu deixei.” O rapaz fez uma pausa, uma lágrima corria por seu rosto. “Eu deixei, tão logo respondi pude vê-lo nas sombras me observando, dentro da casa, sem que tivesse aberto qualquer porta, lá do outro canto ele me observava, de cócoras, com as mãos a arranhar o chão, vi a fumaça da respiração dele, e nem estava frio para que a respiração fizesse fumaça sabe, eu olhava para ele, não queria acreditar naquilo, o menino ergueu-se e veio na minha direção. Mesmo no escuro pude ver seus olhos, negros em todo o globo, nenhuma partezinha branca, nada, ele sorriu para mim e pude ver dezenas de dentes pontudos.” Uma nova pausa, o garoto balançava o corpo para frente e para trás, como um lunático ele continuou.
“Sai correndo da sala, queria chegar ao meu quarto, mas lá estava ele no corredor, não sei como ele fazia aquilo, só sei que fazia, dei meia volta em direção da sala novamente e adivinha, ele estava lá também, não tinha escapatória, cada vez mais perto, senti o hálito dele em meu rosto, a pressão forte dos dedos ao redor do meu braço”. Alexandre esfregava o braço onde Francisco podia ver marcas vermelhas, “não sei o que seria de mim, com sua voz suave ele me disse que seria rápido, mas também eterno, não entendi, tentei me soltar, queria sair correndo, queria me esconder daquela coisa, sem trabalho ele me atirou contra uma parede, como se eu fosse nada, fiquei ali estirado e ele a minha frente de pé, me olhando com aqueles olhos e sorrindo”.
“Minha sorte acho, foi minha mãe ter chegado, a luz dos faróis iluminaram a janela da sala, ele olhou para mim novamente, o sorriso havia desaparecido, o som do carro fez com que se afastasse, escutei uma última vez a voz dele enquanto o portão eletrônico era aberto, tudo o que ele disse é que voltaria, o convite já havia sido feito e ele poderia entrar sem problemas na casa, disse que sou dele. Logo depois minha mãe entrou na casa, me encontrou ali deitado, com medo encolhido no chão, não sabia o que fazer, me trouxe para cá.” As lagrimas findaram e Alexandre voltou a ficar se balançando, não iria mais falar, estava decidido.
Francisco levantou-se da poltrona, olhou para Daniel que entendeu prontamente o que deveria fazer, apenas girou nos calcanhares e abriu a porta, Marcelo sem saber o que estava acontecendo levantou-se logo após os investigadores saírem da sala. Já nos corredores alcançou os dois, queria respostas, sabia que alguma coisa naquela história toda havia sido de serventia para os agentes e desejava saber o que era.
- Então Francisco, o que você pescou naquilo tudo que eu não pesquei? – Perguntou ele ao alcançar os dois agentes no corredor.
Francisco suspirou, olhou para Daniel e então os dois pararam no corredor, passando a mão pelos cabelos rebeldes ele olhou para o agente do D.H.D. fez sinal para que seguissem até a sala de Marcelo.
- O caso é nosso agora Marcelo. – Começou Francisco logo que entraram na sala. – O que aquele piá viu na casa pode ser responsável pelos desaparecimentos no bairro Auxiliadora, não sei ao certo ainda o que é, mas tenho uma idéia.
- Como assim o caso é de vocês? Não mesmo, vocês vieram para cooperar conosco, não vou deixar pegarem o meu caso assim! – Marcelo cansara-se de ser razoável, como o agente queria tirar o caso de suas mãos, não podia, não deixaria, ou trabalhariam juntos, ou falaria com seus superiores, mas caso fosse comprovada existência de algo sobrenatural o D.E.I.S. teria jurisdição sobre ele.
- Não vai criar problemas investigador! – Daniel tentava mediar o impasse provocado pelos dois. – Que tal fazermos assim, você nos acompanha nas investigações, mas apenas você! – Francisco não se oporia a idéia de Daniel, já que provavelmente precisariam de auxilio, se fosse mesmo o que ele supunha toda ajuda seria bem vinda.
- Certo, eu vou acompanhar vocês, tenho acesso a todas as casas dos desaparecidos, acho que isso já justifica a minha companhia. – Marcelo queria participar, não acreditava muito naquilo, mas o caso era dele, ele que tinha feito todas as diligencias, não deixaria escapar assim.
- Certo, isso ajuda, precisamos primeiro ir a casa de Alexandre, ver o que encontramos lá! – Francisco não deixava transparecer sua alegria por ter pelo menos mais um reforço naquele caso, talvez fosse preciso.
- Ta Francis, tu disse que já tinha uma idéia do que pode ser, e então? – Perguntou Daniel enquanto saiam novamente para os corredores da delegacia, os três caminhavam lado a lado.
- Eu não sei bem ao certo, mas nos últimos anos sugiram na rede alguns relatos parecidos com os de Alexandre. – Francisco parecia desconcertado, era a primeira vez que Daniel o via assim, sem aquele ar de certeza, ele agora falava de relatos na rede e não de culturas antigas, ou rituais obscuros como era de costume.
- Relatos, e ai? O que tem? – Marcelo não pescara a incerteza do agente, até por que não o conhecia direito como Daniel.
- Sim, relatos sobre B.E.K.s, surgiram em fóruns de sites que abordam o tema de sobrenatural, Black Eye Kids, pessoas entre 12 e 17 anos que aparecem em frente a sua casa, ou carro, ou o que for, e pedem para entrar, dizem estarem perdidos, não ser da cidade ou o que seja. – Já estavam do lado de fora da delegacia quando Francis parou de falar, iriam com o carro de Daniel para a casa de Alexandre.
- Ta e ai? Pedem para entrar, até ai só isso é parecido com a história do Alexandre! – Marcelo parecia um pouco impaciente, não estava acreditando em nada daquilo, relatos da internet, loucura.
- Black Eye Kid Marcelo, Criança de olhos negros, isso te lembra alguma coisa? – Perguntou Daniel meio que surpreso pela ignorância do policial. – Ta Francis, e ai, pedem para entrar, e o que mais?
- Segundo as pessoas que falaram sobre, um medo muito grande aflora, algo que não se pode explicar, só de estar na presença destas coisas o medo aparece, e piora quando se percebe os olhos, órbitas negras, sem pupilas ou íris, nada, pretos como carvão. Dizem que com a negativa de entrada elas se tornam mais agitadas, mais agressivas, mas se você se mantêm firme em sua decisão elas vão embora. – Francisco ligava o motor do carro, finalmente sairiam dali direto para o auxiliadora, estava prestes a dizer o que mais o estava apavorando naquele caso, decidira-se a não falar, mas a pergunta de Daniel que veio a seguir o obrigou a isso.
- Então Francis, o que eles são na real e o mais importante, como se livra deles? – O sorriso que o agente trazia no rosto desapareceu quando ouviu a resposta do amigo, foi como um tiro no peito.
- Sinceramente Dani, eu não sei, ninguém sabe ao certo, alguns dizem que são demônios, outros dizem que são espíritos do mal, outros afirmam que por terem de pedir permissão para entrarem nas casas os B.E.K.s na verdade são vampiros, ninguém sabe ao certo, nem mesmo se os relatos são reais. – Pela primeira vez Francisco afirmava desconhecer o que eram as criaturas, e o pior não sabendo o que eram, também não sabia como pará-los.

































Deze disse:
outubro 30th, 2010 às 6:18
Adorei!
Deu medo de ficar sozinha em casa agora hehehe
lucas disse:
outubro 30th, 2010 às 22:49
muito legal também fiquei haaha quero ler amanhã a q **** falta de sacanagem…XD
Cintia Mara disse:
dezembro 16th, 2010 às 19:52
gostei muito de seu blog e suas historias são gostosas de se ler =)
vou segui-lo no blog
Fernanda disse:
janeiro 24th, 2011 às 14:36
Muito bom Jones, indo ler a segunda parte.