Semana Especial do Halloween: Olhos Negros por Jones V. Gonçalves
sábado, outubro 30, 2010 22:45
No próximo domingo, dia 31 de outubro, será comemorado o Dia da Bruxas, também conhecido por Halloween. O Sobre Livros convidou alguns autores para escrever contos não relacionados ao tema especificamente, mas que envolvam elementos macabros, algumas colheradas do sobrenatural e uma pitada de terror.
No primeiro dia foi apresentado o conto Jack da querida Georgette Silen, no segundo foi Sobre as Vezes Que Me Matei por Fábio Henckel, no terceiro Andrés Carreiro nos brindou com Reflexos Ardentes, no quarto contamos com as preces de Rober Pinheiro no conto Rogai Por Vós e a 1ª parte do conto Olhos Negros de Jones V. Gonçalves.
Para todos aqueles que estão se remoendo pela segunda parte do conto Olhos Negros, aproveitem agora, na véspera de Halloween, pois vale muito a pena.
Quem quiser conversar, conhecer e saber um pouco mais sobre os trabalhos de Jones V. Gonçalves, basta segui-lo no Twitter @jones_alef e visitar o seu site.
Leia a primeira parte do conto aqui.
Olhos Negros
Jones V. Gonçalves
Alguns minutos depois chegaram a casa de Alexandre, Marcelo conversou com os pais do rapaz, dando a Francisco e Daniel a oportunidade de inspecionar o recinto. Os dois investigadores olharam por todos os locais em que o rapaz havia dito que a criatura esteve, nenhum rastro, nenhuma evidencia, tudo limpo. Francisco inconsolado observava o chão da sala, passou ao corredor que levava ao quarto, apagou as luzes e puxou uma pequena lanterna de luz negra, mas nada, tudo estava limpo.
Daniel apenas acompanhava, não queria interferir, fotografa os ambientes, queria registrar tudo com uma Polaroid antiga, fotos retiradas na hora, sem intervenção dos reguladores e focalizadores digitais das câmeras mais novas. O outro investigador pegava cada foto e comparava com os cômodos, nada também. Nenhum resultado tiraram dali.
Pouco mais de duas horas depois de chegarem estavam de saída para a próxima casa, a mais perto era a casa de Davi, o primeiro a sumir. Não conversaram no caminho, Marcelo até pensou em perguntar algo, mas vendo os rostos dos dois desistiu de fazer qualquer pergunta.
A mãe de Davi foi quem os recebeu, uma senhora simpática que também ficou conversando com Marcelo, o policial civil informava a ela o andamento do caso e quais os avanços que já haviam obtido, não lhe disse que o caso não havia tido nenhum progresso, e nem o que aqueles dois outros agentes faziam ali registrando em fotos os cômodos da casa.
Foi ali que Francisco encontrou a primeira pista, com a luz negra pode ver que o chão da cozinha fora tomado por algum tipo de liquido orgânico. Coletou material junto com Daniel, esfregaram cotonetes no chão por um tempo e os embalaram em sacos herméticos. Pegaram pelo menos cinco daqueles cotonetes e coletaram material em vários pontos. Dali partiram para outra casa, a casa da senhora Bianca, uma velha que morava sozinha a menos de cinco quarteirões dali, decidiram que caminhariam até lá.
- Não sabemos ao certo há quanto tempo a senhora Bianca esta desaparecida. – Resmungou Marcelo enquanto arfava pela caminhada.
- Como assim? – Perguntou Daniel estranhando aquilo, geralmente as pessoas desapareciam e os parentes logo acionavam a policia.
- Ela mora sozinha, é muito difícil alguém vê-la, só deram falta dela quando a correspondência transbordou na caixa de correio, ai chamaram a policia entendeu. – Disse tudo de uma vez só, rápido, sem economizar ar, não sabia se conseguiria falar se fizesse alguma pausa, estava muito fora de forma e a rua era uma subida íngreme.
- Certo, então a casa esta vazia e nós teremos ela para nós, é isso? – Perguntou Francisco também arfando.
- Sim! – Foi tudo que Marcelo conseguiu falar.
Prosseguiram por mais algum tempo sem falar nada até chegarem a casa. Na sala encontraram mais daquelas marcas com a luz negra, Daniel continuou a tirar fotos, mas nada de novo foi encontrado, Francisco decidiu por não ir as outras casas. Provavelmente encontrariam o mesmo que naquelas que visitaram, então deixaram Marcelo no departamento e voltaram a Gravataí.
No departamento do D.E.I.S. os agentes deixaram as amostras com Alex, ele iria fazer os testes biológicos, Francisco foi para a mesa dele pensar, colocou as fotos tiradas em cada casa sobre a mesa e ficou ali olhando para elas. Daniel sentou-se a sua frente, na mesa de Matheus, os dois não trocaram nenhuma palavra, apenas ficaram ali quietos.
As horas passaram rápidas, Daniel já havia descido até a academia dentro do departamento, pensava melhor daquela forma, não era um investigador, mas sim um soldado, ajudaria no que conseguisse, mas sabia que o melhor era deixar Francis pensar naquilo. Francisco olhava para as fotos, uma a uma, até que algo chamou sua atenção, algo que estava em todas as casas. Em uma delas sobre a estante do televisor, em outra na mesinha de canto da sala, e na casa da senhora em uma prateleira da cozinha. O investigador olhou mais de perto, uma pequena estatua de metal, não deveria ter mais de quinze centímetros, e representava um menino.
Alex chamou os dois ao laboratório, as amostras que haviam trazido eram sangue, mas cada casa tinha duas amostras distintas, e uma das amostras de cada casa era a mesma, ou seja existia uma amostra de sangue igual na casa da velha e na casa de Davi. O pior é que o sangue desta amostra não era humano, trazia traços muito diferentes de qualquer coisa conhecida pelos investigadores mas os mesmos traços que Alex localizara antes nos meninos da vila Natal do caso da bruxa Adelaide.
- Então Alex, é sangue de que? – Apunhalou Daniel, a confusão no olhar do cientista na hora em que falava sobre as amostras dava conta de que ele não sabia do que se tratava.
- Não sei Dani, nunca vi nada assim, nada que já me trouxeram nestes dois últimos anos se parece com esta amostra. – Respondeu ele mantendo o ar confuso, voltando a mexer nas lâminas e apontando a Francisco que olhasse nos resultados impressos.
- Chumbo? – Francisco estava lendo alguns dos resultados, e a palavra havia lhe chamado a atenção, traços de chumbo misturados ao DNA estranho.
- Sim, também achei estranho, mas é o que esta ai, eu já conferi e refiz os testes duas vezes, então é isso mesmo. – Disse ele dando de ombros, sabia que o resultado era estranho, mas não podia fazer quanto aquilo.
- Obrigado Alex, vamos Dani, temos de voltar a Porto Alegre. – Francisco já se dirigia a porta, não esperava mais nenhuma revelação de Alex e este mesmo não disse nada, apenas recolheu as lâminas e guardou as amostras.
- Voltar, mas Francis, já esta de noite, o Marcelo deve estar em casa já, não poderemos fazer muita coisa agora. – Daniel relutou a voltar, mas Francisco não lhe deu ouvidos, já ia mais a frente quando replicou.
- Liga pra ele e pede para nos encontrar na casa do Alexandre, quero falar com os pais dele, saber quem trouxe para casa o menino de chumbo! – Tinha certeza do metal, principalmente depois dos testes, Daniel demorou um pouco para alcançá-lo, quando conseguiu já estavam em frente ao carro.
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Quase uma hora mais tarde chegavam a casa do menino, Alexandre havia sido internado em uma clinica para se recuperar do incidente, apenas Lúcio, seu pai estava em casa e recebeu aos detetives, não de braços abertos, mas pelo menos com educação.
- Sim? O que querem agora? – Lúcio parece ter sido tirado do sono, não dormia bem desde que o filho fora atacado.
- Apenas fazer algumas perguntas senhor, será que podemos entrar? – Marcelo também trazia o semblante cansado, quando Daniel ligara ele estava dormindo, teve de se arrumar como pode para voltar aquela casa.
- Em uma hora destas? São mais de onze da noite! – Replicou o homem com um tom um pouco áspero, mas ainda educado.
- Sim, sabemos que é tarde senhor, mas alguns fatos novos surgiram e precisamos de algumas informações. – Marcelo insistia da maneira mais polida que podia, queria mesmo era ir entrando, mas precisava de autorização do proprietário, já que era um oficial da lei.
- Certo, entrem, mas por favor sejamos breves, preciso acordar cedo para trabalhar e os últimos dias não tem sido fáceis vocês sabem. – O homem deu passagem aos três investigadores, precisou se esforçar um pouco para manter a cordialidade.
Tão logo entraram e Francisco caminhou até a sala, lá sobre a estante do televisor estava a estatueta. Ele a pegou, girou-a nos dedos, pesada, chumbo mesmo, maciço, o que a tornava ainda mais pesada. Debaixo dela uma marca vermelho escura.
- Garanto que Alex saberá nos dizer o que é isso! – Disse ele mostrando a marca para Daniel.
- O que querem com a estatua? – Lucio olhava para eles sem entender nada.
- Precisamos levar para analise, onde conseguiram ela? – Daniel olhava nos olhos do pai, o homem provavelmente não saberia de onde teria saído aquela peça, mas não custava perguntar.
- Eu comprei de um menino há alguns dias. – Respondeu o homem prontamente.
- Você a comprou, e sabe nos dizer como era este menino? – Francisco se interessou pela conversa que Daniel estava tendo com Lucio e ficou ouvindo.
- Sim, ele esta sempre por ai, e tinha algumas destas com ele. – O homem ainda não dava muita importância aquilo, era só uma estatueta para ele.
- Marcelo pega a descrição com ele, Dani leva isso pro laboratório, eu vou até a casa da senhora Bianca pegar a outra peça. – Francisco apenas deu as ordens e foi saindo, sabia que Daniel faria aquilo, precisava chegar a casa e pegar a outra peça para terem um melhor resultado nos testes de laboratório.
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Daniel entrou no carro, Francisco ia a frente subindo a estrada, ligou os faróis e tomou um susto. Mais ou menos a dez metros do carro um menino vestido de negro estava parado, os cabelos longos e lisos a cobrir a face, Daniel girou a chave, não esperou a criatura se mover. Em sua cabeça ouviu a voz, uma voz doce, que pedia para que abrisse a porta. Ao mesmo tempo em que ouviu a voz sentiu no peito o medo aumentar, um medo que não lembrava de ter tido em nenhuma de suas muitas missões. O menino caminhou para perto do carro, se dirigia a porta. Parou ao seu lado e agora o agente podia ouvir a voz saída da boca da criança.
- Por favor, abra a porta, preciso entrar. - Calmo, em sussurros, sem demonstrar qualquer tipo de sentimento, mas ainda assim era macia e encantadora. Daniel sequer olhou para o lado, acelerou e saiu dali deixando o B.E.K. para trás.
- Atende Francis. – Tão logo saiu da rua pegou o celular e ligou para o parceiro, precisava informar o que havia visto.
- Fala Dani, esta indo pra Gravataí? – Atendeu Francisco um pouco depois, queria saber o que o amigo queria tão cedo.
- Cara, toma cuidado, vê se avisa o Marcelo também, eu vi a coisa em frente a casa. Ele quis entrar no carro. – Respondeu de imediato, sentia os nervos voltarem ao normal, o medo havia passado.
- Entendi, Marcelo estará seguro, se o que vi na estatua for o que penso é possível que a criança siga apenas a estatua, quem estiver no local em que ela se encontra ou estar portando ela, sei lá. – Francisco já abria a porta da casa, queria encontrar o artefato de uma vez e sair da casa, Marcelo teria de levá-lo para Gravataí.
- Certo, te cuida então Francis, eu senti alguma coisa estranha enquanto aquilo estava perto de mim, senti muito medo! – Daniel se preparava para desligar o telefone, ouviu Francisco se despedir e então desligou o aparelho, a sua frente as ruas da cidade de Porto Alegre, teria de pegar a Dom Pedro II e dela sair na Assis Brasil, então seguiria reto para a FreeWay e depois Gravataí, algo em torno de quarenta minutos de viagem.
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Francisco olhou a imagem sobre a prateleira da cozinha, a mesma imagem que havia na casa de Alexandre, provavelmente comprada do mesmo vendedor. Pegou-a em sua mão e observou os mesmos detalhes que havia observado na outra. Chumbo, marca vermelho escura por baixo da base, lembrou do sangue diferente que Alex havia relatado a eles, lembrou dos meninos de Gravataí, que relação aquilo tudo teria, não saberia explicar agora, mas assim que resolvesse este caso iria investigar.
Saiu para a rua e deu de cara com o menino, do outro lado da rua ele sorria, de longe Francisco percebeu os dentes pontiagudos em sua boca, mas seus olhos estavam cobertos pelos cabelos, a primeira ação do investigador foi sacar a pistola e apontar, o menino não se mexeu, apenas o olhava e sorria. Com o vento a voz chegou aos ouvidos do agente.
- Isso não é necessário, sua arma não me fará mal algum policial. – A boca da criatura não se movia, com um leve movimento da cabeça os cabelos caíram para o lado revelando assim os olhos negros, sem órbitas, apenas o negror infinito. Ao focar seu olhar dentro dos olhos da coisa Francisco sentiu a barriga gelar, um tremor intenso se apoderou de seu corpo, não conseguia controlar, o coração pulsou mais rápido, uma angustia cresceu em seu interior, o medo se apoderou do investigador.
Na distancia o B.E.K. podia ver a arma tremendo na mão do homem a sua frente, começou a andar, atravessar a rua, sempre concentrado nos olhos do agente, não queria perder uma gota sequer da sensação que emanava do outro, queria absorver todo o medo, todos os sentimentos, sentiu o turbilhão de revigorante de seu néctar.
Na mente de Francisco vieram a tona todas as cenas terríveis que presenciara, todas as imagens de corpos mutilados, de criaturas bestiais que enfrentara, os rostos de seus amigos perdidos e das pessoas que não conseguira salvar. O agente caiu de joelhos, uma lagrima solitária correu em sua face, a pistola caída a sua frente, não conseguia se mover, aquela loucura toda o invadia, o dominava.
- Eu sinto seus temores policial, sinto sua angustia, você quer morrer policial, este é seu desejo? Sim eu posso vê-lo em seus olhos, posso senti-lo em sua alma. – A voz sussurrada, mas ainda macia, encantadora, a criança finalmente chegava a sua frente, menos de dois passos de distância. – Ah, sim eu posso sentir, tudo isso junto ao sabor de seu sangue.
Antes que a criatura atacasse o agente conseguiu se mover, atropelando seus próprios medos agarrou firme a pistola e atirou, o som de três tiros encheu o ar, a rua silenciosa foi tomada pelos ecos, surpreso o ser se afastou, com incredulidade na face viu Francisco levantar-se, sentia o medo de seu agressor, mas não entendia como com tanto medo o homem ainda conseguia erguer-se, não avançou novamente, ficou apenas olhando o agente se afastar correndo, e finalmente entendeu, um animal acuado e com medo pode ser mais perigoso que qualquer outra criatura, e aquilo fizera Francisco reagir, tamanho foi o medo, o sentimento, que o ataque veio irracional. A criatura se desfez, deveria voltar para seu abrigo, deveria se alimentar para se recuperar.
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Marcelo estava saindo da casa de Alexandre quando encontrou com Francisco, o agente mestiço estava pálido, sua pele geralmente marrom clara naquele instante era branca como leite. Quando o viu parou de correr, sua respiração era ofegante, longe de toda a calma que ele apresentava em quase todas as situações.
- O que aconteceu homem? – Gritou Marcelo ao vê-lo daquele jeito, caminhou até o outro enquanto falava.
- Eu o vi. Ele veio até mim! – Respondeu Francisco quando recuperou o ar. A respiração menos ofegante, o suor frio a escorrer pela testa.
- E? – Marcelo agora estava aflito, saber que o agente correra tal risco o apavorava, não gostava muito de Francisco, mas sabia que aquele homem já fizera muito em suas missões e isso o tornava quase um herói na corporação.
- Medo, minha mente foi tomada pelo medo, os olhos, aqueles olhos negros, é difícil crer que aquilo realmente existe, ele conseguiu me por pra correr! – Mais calmo, Francisco olhou para o policial, seu rosto ainda molhado pelo suor que encharcava seus cabelos, notou que a arma ainda estava em sua mão e na outra a estatua. Guardou a pistola no coldre e mostrou a Marcelo o outro objeto. – Temos de levar esta estatua para Gravataí, no laboratório podermos fazer os testes finais.
- Certo, vamos pro carro. – A voz de Marcelo estava controlada, não queria bancar o histérico na frente do colega, mas estava apavorado, o que poderia ter colocado um experiente agente acostumado a lidar com aquilo para correr.
Os dois entraram no sedan preto e deixaram Porto Alegre, no meio do caminho o policial contou a Francisco sobre o que o pai de Alexandre lhe havia contado. A descrição do garoto que vendia as estatuas, onde ele costumava andar, e um possível endereço da moleque. Do seu lado Francisco revelou sua teoria, as estatuas faziam parte de um ritual, o sangue da besta que fora encontrado nas casas era outro componente. As estatuas serviam de chamariz para o espírito materializado da criança, uma espécie de devorador de medo, um demônio menor que se alimentava de sensações, utilizava como os carniceiros da dor da carne para provocar estas sensações em suas vitimas.
Como uma criatura do medo ela exalava um pavor primal ao seu redor, qualquer um que chegasse perto sucumbiria a este medo e seria ainda pior se a olhasse nos olhos, os olhos negros agiam como um espelho da alma, mas que refletia apenas os medos, as culpas, as dores. A vitima era obrigada a enfrentar todos os seus traumas ao observar aqueles olhos. Se estivesse certo só teriam uma coisa a fazer para deter a criatura, como sendo um ser invocado, o demônio precisava que o ritual de invocação estivesse ativo, ou seja o altar no qual o ritual fora feito deveria estar imaculado, ou a sua ligação com o plano material seria quebrada, tudo o que tinham a fazer seria descobrir o altar e destruí-lo.
Tinham um endereço, mas ainda não era o destino, esperariam o sol raiar, a criatura era um ser da noite, poderia estar em qualquer lugar ao redor do altar a noite, mas enquanto o sol estivesse no céu teria de se esconder, ficaria o mais próximo do altar o possível.
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O dia raiou, Daniel estacionava o Scort em frente a um prédio antigo, ao seu lado Francisco repassava todo o caso em sua cabeça e no banco de trás Marcelo acompanhava a paisagem, a cidade acordando era algo que sempre o intrigava, o povo caminhava pelas ruas sem saber o que os rodeava, o que os observava de dentro dos prédios escuros e abandonados, a cada caso algo mudava no policial, mas este caso era diferente, estava aprendendo a ter medo do desconhecido, a ter medo do escuro.
Aos poucos saíram do carro, precisavam se preparar para o que viria, Daniel abriu o porta malas, ali ele sempre trazia a artilharia, armas de diversos tipos, munições variadas e proteções para tudo quanto é coisa. Francisco pegou apenas um colete Kevlar reforçado, uma fava e dois pentes extras para sua pistola, Daniel já vestia também um colete Kevlar, separara de antemão um fuzil e alguns pentes, a velha faca de ferro frio estava na bainha, presa a cintura do agente.
- Não sei se é uma boa tu vir conosco! – Disse Francisco barrando Marcelo quando este foi escolher os equipamentos.
- Mas nem a pau tu vai me segurar aqui fora Francis, eu acompanhei vocês até aqui, vou entrar lá com vocês! – Transtornado Marcelo afasta o agente da sua frente e escolhe uma escopeta com cartuchos de sal, um colete Kevlar e cartuchos extras, não seria deixado de fora daquele combate, não mesmo.
Um pouco contrariado Francisco segue a frente dos outros, não queria colocar Marcelo em risco, ele e Daniel já estavam acostumados com criaturas sobrenaturais, Marcelo não, e um contato com um demônio poderia arrasar a sanidade do policial, já havia visto soldados despreparados enlouquecerem na frente de criaturas semelhantes, não queria ver isso acontecer novamente, mas Marcelo não queria ficar para trás.
Daniel trouxe um alicate grande, feito para cortar correntes ou cadeados, sabiam que aquilo seria necessário para poderem entrar no pátio do prédio abandonado. Um corte, o som da corrente se embolando no chão, sem muita força abriram o portão que rangiu, emitindo um gemido grotesco, audível de dentro e fora do prédio. Os três policiais entraram no pátio e correram para a porta mais próxima, os garotos costumavam pular os muros, ou usar uma abertura nas telas na outra rua.
Com um chute preciso e firme a porta escancarou-se, o barulho do golpe ecoou dentro do galpão, enquanto Daniel protegia a entrada, Francisco foi o primeiro a entrar, fez sinal e Marcelo veio logo atrás, o salão era amplo, um depósito abandonado, existiam caixas de papelão mofadas, úmidas, containeres pequenos enferrujados, caixotes de madeira quebrados e apodrecidos, cheiro de mofo, de madeira podre e de morte. Moscas zuniam e voejavam em diversos lugares, formando verdadeiras nuvens de insetos.
O sol entrava pelas janelas altas, criando fachos de luz, emprestando ao lugar um aspecto de penumbra, muitas sombras se formavam por entre as caixas, o que corroborava com qualquer sentimento de medo que pudessem vir a sentir. O local era sinistro e com a pouca iluminação tornava-se ainda mais aterrorizante.
Não precisaram caminhar muito para encontrar por entre as caixas amontoados de carne, ossos e sangue, o cheiro de carne podre e ferro aumentava quanto mais se aproximavam dos amontoados de carniça que um dia foram pessoas. Roupas rasgadas, ensangüentadas estavam estendidas sobre algumas das caixas, e lá no canto a coisa parecida com um menino estava agachado, em uma das garras um osso, ainda vermelho e coroado com pequenos nacos de carne apodrecida, seus olhos negros direcionados aos intrusos, a cabeça ereta, em posição atenta acompanhava os movimentos de seus algozes.
- Então vieram me visitar! – A voz enfadonha, deixara de ter aquele aspecto angelical, tinha agora uma entonação neutra, não demonstrava ódio, nem presteza, não havia nenhuma emoção, apenas uma morosidade incomum.
- Sim, uma pequena visita, pode-se assim dizer! – Respondeu Francisco, devolvendo aquele tom casual, frio, até agora não sentia aquela sensação de medo pela qual fora assaltado no ultimo encontro com a criatura.
A coisa ergueu-se, em seus olhos apenas o negror, vacilante caminhou para frente, aproximando-se mais e mais, Daniel que vinha mais adiantado mirou com o fuzil e atirou, a criatura caiu, o tiro perfeito entre os olhos. Logo depois levantou-se, a testa imaculada e um sorriso de dentes pontiagudos nos lábios. O investigador atirou de novo, mas quando o som do fuzil se fez ouvir o demônio não mais estava lá, o medo começou a crescer nos três policiais, a angustia que a besta produzia com sua presença se fez notar.
- Francis! – Gritou Daniel. – Vai atrás do altar, deixa essa coisa com a gente! – O policial olhava para o amigo e voltava a apontar a arma para trás de Marcelo, pois em um vislumbre notou os olhos negros do B.E.K. naquela posição, mas este já havia evaporado.
Marcelo girava de um lado ao outro, a sensação de medo era enorme, não entendia o que estava acontecendo, que angustia era aquela, caminhou pelo pequeno corredor formado pelas caixas, o cheiro nauseabundo dos corpos a lhe encher as narinas, foi quando notou o sorriso malicioso e o olhar perturbador, estava frente a frente com a coisa, o suor começou a escorrer frio de seus poros, ele cambaleou para trás e caiu em um amontoado de carniça. Um tiro e a coisa desapareceu, Daniel vinha ao seu auxilio, mesmo sentindo a mesma sensação de medo, o agente era calejado demais para ficar parado.
Francisco corria por entre as caixas e contêineres, mesmo que o armazém não fosse muito grande, ainda tinha tamanho o suficiente para dar trabalho de encontrar qualquer coisa em seu interior. Longe da agitação, dos tiros e dos amontoados de carniça, onde o cheiro não chegava tão intenso, suas narinas foram atacadas por novo odor. O vapor azedo de fezes e urina fazia-se notar naquela área, mas Francisco não teve tempo para pensar naquilo, a sensação de medo crescente atingiu-lhe o peito, começou a tremer, a angustia profunda, os pensamentos disformes, todos estes sentimentos invadiam-lhe a mente de uma só vez, tudo o que conseguiu fazer foi gritar.
- Daniel, ele ta aqui! – Foram as palavras do agente clamando por auxilio, o soldado ouvia os gritos, mas não podia deixar Marcelo ali sozinho, o olhar da criatura haviam deixado o policial em estado catatônico, ele não reagia a nada, mas um novo grito do amigo fez Daniel correr.
O investigador do D.E.I.S. sentiu a mão poderosa agarrá-lo pelo ombro, em seus ouvidos a criança infernal sussurrava palavras desconexas, a cada palavra uma pontada maior de medo aterrorizar Francisco. Então o mundo girou, sentiu-se leve, por um instante flutuava nos ares, no outro chocava-se com uma caixa. Dor, muita dor nas costas, e medo, eram tudo o que ele conseguia sentir, involuntariamente soltou um grito enquanto era arremessado, ouviu o tiro e viu a criança desaparecer. Daniel chegou ao seu lado, ajudou-o a levantar sem falar nada, os dois tremiam, o soldado teria de voltar, apenas verificou se o amigo tinha condições de ficar sozinho e depois retornou para onde deixara Marcelo.
O policial da civil ainda estava catatônico, seu cérebro não conseguia entender o que era aquela coisa que agora estava de cócoras a sua frente, a mão em forma de garra da criança segurava seu queixo, fazendo-o olhar direto em seus olhos negros. Marcelo tremia, suas lembranças de medos infantis vinham a tona, as lagrimas escorriam por sua face. Se pudesse começaria a implorar, mas tudo que conseguia era apenas balbuciar.
Quando o soldado chegou onde o policial estava não encontrou seu conhecido, mas sim um ser desfigurado pelo terror, Marcelo estava deitado no chão, a face transfigurada em uma careta, não havia movimento em seu corpo, não havia respiração, o policial estava morto. Daniel não conseguiu ficar muito tempo olhando a cena, lembrou de Francisco e voltou a correr. Não perderia outro amigo.
Tateando no escuro com os nervos a flor da pele Francisco caminhava, seguindo o cheiro de fezes e urina ele chega até um nicho, um local escuro, iluminado apenas pelas luzes de três velas, uma vermelha, uma negra e outra branca. Cada uma disposta em um castiçal, abaixo das velas dez pequenas estatuas de chumbo idênticas as encontradas nos locais dos crimes e a frente delas uma tigela funda de ferro. Desenhados no chão diversos símbolos antigos, sua formação fechava um circulo perfeito ao redor do altar.
Deitado no chão ao lado da mesinha, um menino pálido, cercado por suas fezes e banhado na própria urina se contorcia, ele provavelmente fora o invocador, aquele que trouxe a besta ao mundo dos vivos e estava pagando o preço de seu erro, os olhos revirados denotavam que ele ainda estava em transe e isso mantinha a criatura em nosso mundo. Ao lado do invocador a criatura sorria, seus olhos negros sobre o agente, nada disse, apenas se aproximou e novamente Francisco sentiu a espinha congelar, o medo profundo e cruel a congelar-lhe os movimentos.
- Você terá o mesmo fim do outro, morrerá de medo policial. – A voz suave podia ser ouvida nitidamente, mas logo ela tornou-se um grito abissal, quando enfim um estouro de tiro ecoou por dentro do armazém, o projétil não atingiu a besta, mas a dor que causou e o estrago provocado foram muito maiores.
O demônio desmaterializou-se de imediato, enquanto o sangue escorria pela parede misturado aos miolos do invocador, Daniel dera um tiro perfeito. O que prendia o B.E.K. ao mundo material era apenas o transe de seu invocador, destruindo a cabeça do rapaz o soldado desfez o encanto e a criatura retornou para seu mundo sombrio. Daniel ajudou Francisco a levantar-se, o outro ainda tremia, pode notar que seu amigo parecia muito mais velho e cansado ali naquele momento, mas sabia que logo iria se recuperar, e provavelmente estaria pronto para outra missão.
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Do lado de fora os dois mais calmos chamaram a equipe de limpeza, teriam de avisar ao departamento de Marcelo que o policial havia morrido em serviço, e então voltar para Gravataí.
- Essa foi foda Dani! – Francisco já recuperado, olhava ao redor, tirara um maço de cigarros do bolso e aprontava um em sua boca. – Eu queria algo para fazer, não agüentava mais a preção de estar parado e quando vem é isso.
- Sei como é Francis, a coisa foi feia mesmo, não estávamos esperando uma coisa destas. – Foi só o que Daniel conseguiu dizer, fazia tempo que não via Francisco tão transtornado.
- Não sei não Dani, ele me pegou de jeito, me fez ver coisas que nunca mais queria ver! Me fez pensar em coisas que eu havia bloqueado. – O cigarro aceso, deu uma tragada, soltou a fumaça pelo nariz e voltou a olhar diretamente para Daniel.
- Cara tu não ta pensando? – Daniel parecia um pouco preocupado com toda aquela situação.
- Não cara, nem pensar, se eu parar vou enlouquecer, preciso disso como um viciado precisa das drogas, mas o problema é que certos casos criam feridas que não se cicatrizam entende! – Ele mais afirmava do que perguntava.
- Sim, eu entendo. – Os dois ficaram quietos um momento e então entraram no carro, rumo a Gravataí.

































Karlinha disse:
outubro 31st, 2010 às 0:48
Nossa eu ameiiiiiiiiii é cada um melhor que o outro. Cara que conto maravilhoso. Quero mais! Quero mais! srsrsrss
Deze disse:
outubro 31st, 2010 às 4:29
Ótimo!
Adorei o desfecho do conto. Muito bom.
Me lembrou os casos de supernatural hehe
Fiquei com vontade de ler mais sobre o projeto D.E.I.S. hehe
JonesVG disse:
outubro 31st, 2010 às 23:10
Muito obrigado pelos elogios, bom não falei com os guris a respeito, mas vou fazer um jabázinho por aqui, no link a seguir estão descrições dos contos que compões o primeiro livro e de lambuja a primeira versão de oito deles, mas já digo que no livro estes que vem no link estão beeem modificados!
http://www.onerdescritor.com.br/2010/03/livro-d-e-i-s-comecando-a-divulgacao/
Abraços a todos e novamente muito obrigado!