Resenha: The Kiss of Deception – Mary E. Pearson

Primeiro volume da trilogia Crônicas de amor e ódio

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Olá leitores do Sobre Livros! Morri de amores por ele desde o princípio. Lembro que, quando a editora revelou a capa, eu já o coloquei na lista de desejados. Na primeira oportunidade – desconto substancial – o comprei. Quando ele chegou, minha nossa!, surtei com o acabamento lindíssimo – edição maravilhosa! Tudo caprichado, capa dura, mapa, pôster, marcador de página, diagramação… – E não perdi tempo. Passei a leitura na frente de todas as outras.

Mas quando a expectativa é alta, a decepção é proporcional.

The Kiss of Deception para mim foi um misto de deslumbramento e desapontamento. E antes que os seus adoradores – até agora só vi pessoas o elogiando – clamem um “cortem-lhe a cabeça”, deixe-me explanar os pontos, positivos e negativos.

O livro foi escrito por Mary E. Pearson, que trabalha em tempo integral como escritora e mora em San Diego. Crônicas de amor e ódio é sua segunda trilogia, e de acordo com o Goodreads sua média de aprovação está aumentando desde que começou a publicar.

Esta é uma narrativa em primeira pessoa, com o focalizador na personagem Lia, intercalados com pequenos capítulos narrados pelos personagens masculinos (não falarei muito sofre isso para não soltar spoiler). É uma fantasia épica, isto é, o cenário remete a Idade Média com a presença de elementos fantásticos.

O livro abre-se com Lia sendo preparada para seu casamento. Nas primeiras páginas somos introduzidos na discussão sobre os casamentos arranjados e nos questionamos sobre tradições. Lia é a princesa do reino de Morrighan, e seu pai e o rei de Dalbreck negociaram a união desta primeira filha com o príncipe de Dalbreck.

Neste universo, as primeiras filhas nascem com um poder. Neste livro não se apresenta a fundo sua origem, mas sabemos que o poder de Lia não foi despertado – ou não existe.

Incapaz de aceitar esse casamento – tanto por desejar liberdade, quanto por não respeitar um príncipe que precisou do pai negociar um casamento – Lia decide fugir com sua criada e melhor amiga Pauline.

As duas se desdobram e chegam em segurança a Terravin, e são acolhidas por uma antiga conhecida de Pauline. Ao contrário que todos esperavam, Lia não somente se adapta a nova realidade, sem as facilidades e conforto de ser uma princesa, como aprende, gosta e trabalha servindo mesas em uma taverna.

Mas essa fuga não seria perdoada. O príncipe de Dalbreck, ultrajado com a fuga de sua noiva, vai atrás da garota. Vale ressaltar que ele é muito bem treinado e motivado para encontrá-la.

E o que ninguém esperava era que um estrangeiro fosse contratado para assassinar a princesa. O que era uma fuga “birrenta” de uma garota, torna-se uma aventura permeada de perigo.

“Meu peito estava esmagado com a dor, uma dor tão profunda e real que me levou a imaginar se corações eram literalmente capazes de se partir”.

Eu AMEI a proposta do livro. Apesar de apresentar várias situações clichês, a autora conseguiu aproveitá-las, nos presenteando com episódios de tirar o fôlego. Somos surpreendidos com alguns desdobramentos e a evolução da protagonista é digna de reverência.

A leitura demora a engrenar, e no esforço de gostar do livro demorei a entender que tinha algo errado. Minha atenção começou a despertar ao começar a implicar com a quantidade de vezes que a autora/tradutora usada a palavra “cálido”. É sério. Podem olhar. Quase em todas as páginas algo é descrito como cálido.

E nesse momento, aponto uma dificuldade minha: não sei precisar se o problema do livro é da rasa capacidade técnica da autora ou o vocabulário insuficiente da tradutora. Leiam a citação a seguir para entender o problema:

“De nosso primeiro ponto de vantagem aberto, vi terra plana estirando-se por quilômetros abaixo de nós, aparentemente até os confins da terra, mas, agora, em vez de deserto, era uma terra com grama, grama verde e dourada que ia tão longe quanto os olhos podiam ver. Ela brilhava em ondas ondulantes”.

Ondas ondulantes. Ondas. Ondulantes. ONDAS ONDULANTES. Prometo para vocês que vou pegar só esse exemplo, pois ele já é muito esclarecedor. O enredo, os personagens, a trama, podem ser exímios, mas quando se lê “ondas ondulantes” não tem como não perceber que o autor/tradutor tem pouca intimidade com a língua.

Durante toda a leitura somos bombardeados com a incipiente habilidade de se construir um texto. O livro nos oferece personagens interessantes e um enredo intrigante o suficiente para nos prender, porém muito se perde enquanto tropeçamos em uma narrativa pueril.

“Os próximos poucos dias seguintes trouxeram mais da mesma paisagem, exceto quando passamos por uma área em que a grama estava queimada, como se fosse uma gigantesca pegada chamuscada”.

Tudo bem, prometo que esse foi o último exemplo. Eu só queria que entendessem que não foi implicância apenas. Pouquíssimas pessoas tem o domínio da técnica narrativa. O problema é que no caso de The Kiss of Decepcion esse problema é lastimoso. Ter uma história tão envolvente se perder em palavras mal colocadas, perdendo-se no sentido das frases.

Aguardo o segundo volume da série com o coração aflito. Quero muito acompanhar a personagem Lia, porém não quero digladiar, de novo, com um texto mal escrito/traduzido. Rezo para que a autora continue a progredir. Boa leitura!

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