
Olá leitores do Sobre Livros!
Conforme disse ontem, foram dois livros que li para meu curso de História esse semestre e que gostaria de dividir com vocês. Para aqueles que não viram a primeira resenha clique aqui e confira O Romance de Tristão e Isolda, e hoje vou apresentar para vocês O Grande Massacre de Gatos.
A leitura deste livro foi pedida pelo professor Mário para a disciplina de Teoria da História II. A ideia do professor foi nos apresentar algumas obras (divididos em grupos) para que ao lê-las pudéssemos abstrair qual sua linha historiográfica.
No caso, O Grande Massacre de Gatos é um estudo da História das Mentalidades, isto é, o autor Robert Darnton objetivou apresentar, analisar e compreender como os franceses do século XVIII pensavam.
O autor norte americano Darnton nasceu em 1939. Formou-se em Havard e fez seu doutorado em Oxford, especializando-se em história da França do século XVIII. Atualmente ele dirige a biblioteca de Harvard.
Este livro nos apresenta um estudo bem interessante, onde o autor emprega a antropologia para desenvolver seu trabalho. Através de uma pesquisa etnográfica ele aponta em cada capítulo como os franceses do século XVIII pensavam.
No primeiro capítulo – o que provavelmente é o mais interessante para os leitores do Sobre Livros – o autor apresenta uma análise do pensamento dos camponeses. Como ele faz isso? Utilizando os contos de fadas! Isso mesmo! Darnton pesquisou as primeiras versões dos contos de fadas – Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, A Bela e a Fera, Mamãe Ganso, Pequeno Polegar, enfim, todos esses contos – e os analisou a fim de compreender como os camponeses franceses do século XVIII pensavam.
Ao ler esse capítulo eu decidi que TINHA que dividir com vocês essa experiência. Esse livro não é um romance no qual estamos habituados. O livro é um estudo muito bacana da História Francesa. Mas esse primeiro capítulo em especial nos ajuda a compreender toda a história dos contos que adoramos até hoje!
Foi realizando este estudo que finalmente entendi sobre os contos de fadas: Em sua origem, essas histórias eram completamente diferentes das que conhecemos hoje. Elas eram transmitidas oralmente e tinham o objetivo de causar a reflexão nos adultos. O foco NÃO eram as crianças e adolescentes, e sim mostrar aos adultos as formas mais adequadas de se viver.
Em sua origem os contos eram macabros, violentos, sombrios e sensuais. Isso para alertar os adultos dos riscos da vida. Neles era perpetuado o culto ao “velhaco” – as pessoas espertas e astutas sempre vivem melhor e conquistam seus objetivos (Na época se desejava comida e abrigo, hoje a grande massa deseja ganhar na mega sena ou engravidar de um jogador de futebol… Piadinha infame! Hihihihihi…). Para vocês terem uma ideia, no original a Chapeuzinho Vermelho pratica canibalismo e faz um “Strip-tease” para o lobo mal…
Enfim, nesse capítulo o autor nos apresenta diversos contos e os compara. Afinal os contos da França se diferem com os da Inglaterra e os da Alemanha… E como o autor queria compreender o pensamento dos camponeses veio a calhar realizar essa comparação. O capítulo é extenso e às vezes confuso pelo número de informações, mas indico que todos os amantes de contos de fadas o leiam para compreender o universo onde eles foram criados. Antes de a Disney deturpar as histórias com o objetivo de adaptá-las para nossa realidade e para um novo público: as crianças.
O segundo capítulo nomeia o livro e apresenta uma analise de um episódio ocorrido em uma gráfica – Os tipógrafos fizeram um julgamento público (bizarro!) e mataram dúzias de gatos. Não vou explicar o porquê para não soltar spoiler. O autor nos apresenta uma narrativa escrita por Nicolas Contat que conta como foi seu período como aprendiz na tipografia de Jacques Vincent durante o fim da década de 1730. O objetivo era analisar como os trabalhadores do século XVIII pensavam.
No terceiro capítulo o autor nos apresenta a analise de um documento escrito onde um burguês descreve sua cidade: Montpellier. Darnton neste capítulo buscar compreender como o burguês pensava através do estudo da forma como este descrevia as pessoas e relações da cidade. No quarto capítulo o autor nos apresenta os relatórios produzidos por um policial que tinha a responsabilidade de investigar e vigiar os intelectuais do comércio livreiro. Chega a ser cômico aos nossos olhos a descrição feita por este policial e Darnton nos apresenta uma análise interessante sobre como os burocratas pensavam.
No quinto capítulo Darnton nos apresenta os passos iniciais do Iluminismo, isto é, analisa o documento Encyclopédie – texto supremo do Iluminismo. O sexto capítulo o autor nos apresenta como foi “incorporada” a visão de mundo dos Philosophes para a população letrada. Para tanto, o autor analisou cartas trocadas entre um editor da STN (Société Typographique de Neuchâtel) e um burguês, procurando observar como as cartas apresentavam a visão de mundo deste burguês. Darnton afirma: “Entender como os franceses liam os livros, no século XVIII, é entender como pensavam”.
O sexto capítulo também é bem interessante para nós, já que apresenta como o livro La Nouvelle Heloise escrita por Rousseau foi recebido pelos leitores franceses do século XVIII. Porque isso seria interessante? Porque na época os filósofos se atinham a escrever sobre filosofia e esse livro revolucionou o mercado visto que é a transcrição de cartas amorosas – fiquei morrendo de vontade de ler o livro! Foi um romance que modificou o perfil dos leitores e causou grande impacto em toda a sociedade.
O Grande Massacre de Gatos foge totalmente do escopo de livros que apresentamos aqui no Sobre Livros, mas quis dividir com vocês essa experiência visto que ele nos faz compreender melhor a história dos livros que amamos tanto. Nele encontramos as origens dos contos de fadas e a analise do romance de Rousseau que abalou toda uma sociedade!
Então finalizo aqui esta resenha indicando o livro para aqueles que além de gostar de história, apreciem compreender as origens e evoluções do pensamento humano. Abra sua mente. Boa leitura!
Laila Ribeiro é newposter, contista e resenhista do Sobre Livros. Para sugerir livros, criticar, elogiar, ou simplesmente bater um papo sobre algum livro, basta segui-la no twitter @ribeirolaila e dar a sua opinião!
Sobre Livros Melhor site sobre livros do Brasil!

Gostei! Vai me ajudar muito no trabalho de antropologia.
amei o conteudo desse livro. proximo a ser lido. parabens Laila resenha maravilhosa.