Resenha: Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

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Guy Montag é um bombeiro. Mas não do tipo que apaga incêndios. Ele os provoca. Para isso, basta que você tenha um único livro em casa e seja denunciado, ainda que anonimamente, para a companhia dos bombeiros cujo chapéu traz o número 451, no braço o desenho de uma salamandra e no peito, o disco de uma fênix.

Ler não é permitido. É permitido apenas assistir a programas inúteis, desprovidos de cultura e ouvir músicas ou programas de rádio igualmente emburrecedores.

Guy vivia sua vidinha de bombeiro, com as esposa, Mildred, quando, um dia, ao sair da Cia onde vive, enquanto voltava para casa conhece Clarice, sua vizinha adolescente. Ela é uma menina cheia de viva, alegria, mas é perigosa. Logo na primeira conversa com Guy ela faz com que ele comece a ter pensamentos conflitantes em relação à vida que acha que vive e a que deveria viver de verdade. À felicidade que acha que sente e o que deveria realmente estar sentindo em relação aos acontecimentos, às pessoas, ao seu trabalho.

Então, ele percebe que, na realidade, ele não é feliz. Nem no casamento, nem no trabalho, nem na vida. Mas, o que fazer em relação a isso sem ser preso? Morto? E sua esposa? Correria perigo caso ele não fizesse ou não fosse mais quem ele é e passasse a ser quem ele realmente queria ser?

Quem me conhece sabe que tenho uma queda especial pelos clássicos. Se tiver sido adaptado para o cinema então! Fahrenheit 451 é mais um desses clássicos que me chamou atenção principalmente pelo enredo, mas também por ter sido adaptado não uma, mas duas vezes para o cinema (e está sendo preparada uma terceira adaptação, como série! Mas, afinal, o que tanto atrai nessa história? Um livro que fala sobre livros. Como seria isso?

Antes de falar sobre a história em si, preciso dividir com vocês os significados de alguns símbolos trazidos ao longo do livro, começando pelo próprio título que não poderia ser mais sugestivo em relação à história: 451 graus Fahrenheit (ou 232,778 graus Celsius) a temperatura necessária para que um papel se queime.  Ao fazer essa descoberta não tem como não achar o título genial.

Seguindo, o símbolo da salamandra que está no braço do uniforme de Guy. Pesquisando o significado de salamandra, que todos nós sabemos se tratar de um anfíbio (que, diga-se de passagem, é encontrado em regiões temperadas), fiz outra descoberta interessante: pode ser também uma espécie de estufa para aquecimento de ambientes doméstico. Além disso, é nada mais nada menos do que um operário que, em oficinas mecânicas e nas fundições entram nas caldeiras quentes para consertá-las ou apaga fogos de poços de petróleo incendiados.

A fênix dispensa comentário acerca de seu significado, certo?

Superadas as explicações iniciais, vamos às minhas impressões sobre a história.

Guy é um cara do bem. Desde o primeiro capítulo dá para perceber que aquela pose de bombeiro incendiário não vai durar. Logo, de primeira já tive empatia pelo personagem e por Clarisse. Só não chippei o casal porque ele tava mais para pai dela. Não que eu tenha algo contra relacionamento entre pessoas mais velhas, mas é que a intenção do livro não era essa.

Beatty, o chefe dos bombeiros, é um cara mal, mas não é o vilão dessa história. Assim como Mildred, a esposa de Guy não é a vilã, tampouco a mocinha.

O livro tira as pessoas da zona de conforto, causa dor, sofrimento, choro. A chamada catarse. Provoca pensamentos inconvenientes, questionamentos, revoluções. Mostra o quanto sua vida pode não ser tão feliz quanto parece ou quanto você pretende fazer crer que é.

E um povo que pensa não é um povo fácil de lidar, de conduzir. Se torna um povo subversivo, cheio de idéias, de opiniões. Por que um governo ou pessoas que não gostam de sofrer ou de ter sua vidinha feliz revirada iria querer uma pessoa pensante, cheia de questionamentos?  É aquele velho ditado: “A ignorância é uma benção”.

O mais assustador desse livro é que, apesar de ele ter lançado originalmente em 1953, é atemporal. Somos consumidores de televisores cada vez maiores, para que a imagem não só fique melhor, mas que entre mais em sua cabeça, se aloje em seu cérebro e surta o efeito esperado. Somos bombardeados com programas e tecnologias cada vez mais avançadas com intuito único e exclusivo de entretenimento. E uma pessoa entretida é uma pessoa feliz! – “O televisor é “real”. É imediato tem dimensão. Diz o que você deve pensar e o bombardeia com isso. Ele tem que ter razão. Ele parece ter muita razão. Ele o leva tão depressa às conclusões que sua cabeça não tem tempo para protestar “Isso é bobagem!”

Isso me faz pensar naquela musica do Zé Ramalho: “Ê, ô, ô, vida de gado. Povo marcado, ê! Povo feliz!”

Enquanto isso, a cada ano que passa vejo o que já parece ser a mesma reportagem reeditada e republicada anualmente, anunciando que o brasileiro lê, em média, 4 livros por ano.

Há um trecho do livro que explica exatamente o que vivemos hoje, com a intensidade das redes sociais na vida das pessoas: “a escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas? (pág. 78)

E assim se chega à conclusão de que esta é uma dentre outras diversas formas de se “queimar” um livro e não só de forma literal como vi no livro. O próprio autor, em uma nota no final, conta sobre as várias tentativas das editoras de “queimar” seu livro, ao buscarem alterar a história para torná-la mais “vendável” (eles não leram ou não entenderam MESMO a mensagem do livro ¬¬)

Eu mesma recebo mais olhares atravessados do que de reconhecimento por ler muito, bem como minhas tentativas de indicar livros ou semear meu amor por eles nem sempre dão resultado. Mas é a vida e a gente segue tentando!

De outro lado, sei que o livro não é a única maneira de se resolver as mazelas do mundo, de transformar a ignorância em um incômodo, não em uma bênção.  Mas é um ótimo começo!

Sobre a adaptação, indico a versão lançada em 1966. Apesar da qualidade de imagem incomparável com o filme lançado em 2018, a adaptação anterior é muito mais semelhante ao livro.  HBO está preparando uma série sobre o livro. Vamos aguardar! Assistam ao trailer:

Filme de 1966:

Filme de 2018:

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