Resenha: Faca de Água – Paolo Bacigalupi

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As pessoas só vivem realmente quando estão prestes a morrer – disse ele. – Antes disso, é um desperdício. Você não aprecia como é bom até estar realmente na merda.

Olá leitores do Sobre Livros! Eu adoro imaginar e/ou ser apresentada ao futuro. AMO histórias pós-apocalípcas, pois acredito que nesses cenários nefastos conseguimos enxergar com clareza a natureza humana. E quase surtei de empolgação quando a Intrínseca anunciou a publicação da ficção científica Faca de Água, pois além de estar ambientado no futuro, ainda traz à baila a questão da água. No futuro, como estará nossos reservatórios de água potável?

O livro foi escrito por Paolo Bacigalupi, autor de cinco romances, uma novela e uma coletânea de contos. Mora atualmente no Colorado, junto com sua esposa e filho.

Faca de água nos apresenta três focos narrativos. Narrados em terceira pessoa, cada capítulo dá destaque para um dos focos, os personagens Angel, Lucy e Maria. A narrativa é fluída, apesar de tropeçar as vezes no detalhamento do ambiente (característico de diversas ficções científicas).

Você não julga as pessoas sob pressão, mas por aqueles poucos momentos em que tiveram sorte bastante para haver alguma escolha.

O livro abre-se acompanhando Angel, um “faca de água”. Resumidamente, seu trabalho consiste em fazer qualquer coisa para assegurar o direto sobre algum reservatório de água. Ênfase no fazer qualquer coisa, pois não há limites para ação desse mercenário. Para garantir que sua chefe, uma empresária voraz de Nevada, mantenha o controle dos reservatórios de água ele é capaz das maiores atrocidades.

Depois conhecemos Lucy, uma repórter premiadíssima. Ela mora na cidade de Phoenix, com seu cachorro Sunny. Há alguns anos ela se mudou para essa cidade com a intenção de vê-la implodir: a falta de água apagou o Texas e estava fazendo o mesmo, agora com o Arizona. Mas depois de tantos anos seu envolvimento tornou-se pessoal, e agora ela tentava lutar contra o aniquilamento. E essa luta eclode no momento que Lucy reconhece o corpo de um amigo, assassinado brutalmente.

Também conhecemos a adolescente Maria, uma texana que acompanha a trilha da destruição. Saiu do Texas e viu sua mãe e pai morrerem, para acabar nas “favelas” de Phoenix, tendo como companhia sua amiga Sarah. Maria nos é apresentada ao tentar faturar algum dinheiro vendendo água: ela descobre que em alguns momentos do dia a bomba de água tem uma variação de preço, então ela consegue comprar alguns livros com o preço baixo. Maria sonha em ir morar em Las Vegas, onde existem mais oportunidades e água. E se puder fazer isso, sem acompanhar a amiga em seu trabalho vendendo o corpo, melhor.

Tudo é ruim até você encontrar algo pior.

Acompanhar os primeiros capítulos acompanhando Angel é difícil, pois seu trabalho e sua falta de consciência nos impele a odiá-lo. Mas veja bem, esse ódio só dura no primeiro terço do livro. Depois de alguns episódios, Angel precisará agir para salvar a própria pele, mostrando então habilidades interessantes. O faca de água se torna uma espécie de Agente 007.

Lucy por sua vez me soou tediante… Nada que me fizesse desejar interromper a leitura, mas seu forma de enxergar o mundo foi enfadonho. Agora a Maria… Emocionante! Uma personagem muito bem construída e imprevisível. Se a Maria está em cena, segura o coração porque vem episódios eletrizantes!

– Se ele era tão esperto, deveria ter visto no que estava se metendo. Talvez ainda estivesse vivo.

– Há diferentes tipos de esperteza.

– Espertos vivos e espertos mortos.

Como vocês devem imaginar, as três histórias se entrelaçam em algum momento, e foi surpreendente a forma como o autor fez isso. A história é muito bem entrelaçada, sem falhas de construção. De maneira alguma eu imaginei como as coisas iriam se desenrolar e foi maravilhoso ler uma ficção científica que seu universo foi muito bem criado, mas foi o desenvolvimento das personagens do destaque central. Acho terrível quando leio histórias que focam tanto na ambientação, que esquecem que são os personagens que garantem uma grande história.

A edição da editora Intrínseca está excelente, com pouquíssimos erros de revisão. Todas as primeiras páginas dos capítulos foram impressas em preto com as letras na cor branca, e apesar de gostar do efeito, não ajuda na leitura (astigmatismo mandou um abraço). Eu não acho a capa e título chamativos, se eu não tivesse lido a sinopse, com certeza teria ignorado o livro em uma prateleira.

Recomendo a leitura para todos aqueles que adoram ficção científica. Para aqueles que gostam de uma história que acompanha uma investigação. Para aqueles que gostam de cenários pós-apocalípticos. Boa leitura!

P.S.: Tem cenas hot!

#MelhorElesDoQueNós

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Laila Ribeiro é mestra em Escrita Criativa pela PUCRS; pós-graduada em Gestão Empresarial, em Gestão Pública e MBA em Gestão de Recursos Humanos; graduada em História pela PUC Minas (2014) e em Administração Geral e Agroindustrial pela Universidade Presidente Antônio Carlos (2007). Atualmente, é membro da equipe do site literário Sobre Livros (www.sobrelivros.com.br), e mantém o canal literário https://www.youtube.com/c/ribeirolaila. Participou de antologias de contos (Insanas - Elas Matam!, Onisciente Contemporâneo, Translações Singulares e Não Culpe o Narrador) e, em 2016, foi monitora da Oficina de Criação Literária do professor e escritor Luiz Antonio de Assis Brasil.

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