Quero ser Escritor! #8 – A Casa Abandonada
sábado, fevereiro 11, 2012 15:30Olá leitores do Sobre Livros! Vamos conhecer hoje o texto do querido Nicolas Oliver? Preparados?
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A Casa Abandonada
Meu vizinho e amigo, Gringo, me pediu ajuda com problema em sua casa. A esposa dele havia conseguido, com o segurança de uma obra próxima ao trabalho dela, o favor de poder ficar com as telhas da casa que ocupava o terreno, pois a empresa que o adquiriu iria construir ali um edifício, demolindo a antiga residência.
Gringo me pediu ajuda, tanto de ceder o espaço de minha garagem para as telhas, visto que carro para minha família era algo que só existia em sonho; e de ir com ele, numa manhã de domingo, buscar as ditas telhas.
Ao fim da semana, numa manhã ensolarada, eu acordei, não muito tarde, pois já tinha marcado com Gringo. Saí de casa e o encontrei me esperando num furgão velho que ele contratara. Fui na frente, mais sua esposa, dona Áquila, e o dono do veículo. Gringo foi atrás com um cachaceiro que prometera ajudar, em troca de trocados para ”ajudá-lo a comer”. Por causa do escapamento feito de tubos de PVC, que mais jogavam fumaça dentro da cabine do que fora, Gringo teve de ir com a porta aberta, para nem ele nem o cacheiro ficarem asfixiados. O furgão em si era curioso; tinha o logotipo da Volks na frente, o da GM atrás, peças, que pude perceber serem de cinco modelos de carros distintos, com acabamento de peças de metal soldadas formando a estamparia, e um ventilador comum ligado nos fios do volante.
Após um minuto esperando o veículo pegar, o dono dele começou a fazer compensar o tempo perdido na saída, usando seu conhecimento prático dos atalhos por dentro dos becos, evitando as ruas principais engarrafadas, nos levando em pouco tempo para um bairro de casas altas próximo a área dos shoppings e prédios bancários. Era daqueles com várias ruas arborizadas e nos quais se via andando pouco mais que ocasionais vigias, que vestiam uniformes de certo mau gosto, que ficavam em guaritas amarelas ou brancas, equipados com rádios para ameaçar chamar o carro da empresa caso pessoas estranhas começassem a perambular por ali.
Paramos no terreno, que tinha dois seguranças próprios, deixados pela empreiteira. A casa já havia sido semi-demolida, deixada nua das janelas, armações de madeira, portas e pias. Sobrara a estrutura, que deixava perceber uma casa funcional e moderna por fora, e um tanto tradicional no interior.
De resto, bastante entulho, azulejos bonitos – mas cuja fragilidade fazia não compensar trabalho de retirá-los –, e as telhas que viemos buscar, que os operários, apesar de não poderem ficar com elas, tiveram a delicadeza de deixá-las inteiras e empilhadas para quem as quisesse. Após dona Áquila cumprimentar os seguranças, e estes nos deixarem entrar, começamos a carregar o furgão.
Enquanto fazia isso, percebi no chão coisas interessantes, como um manual MATLAB* ainda inteiro, jogado sob um monte de poeira. Provavelmente, pertencera ao antigo proprietário da casa.
No caminho até ali, dona Áquila me contou a história dele. Acontecera algo triste. Ele era engenheiro, de que tipo exatamente não lembro, e morava ali com, entre outras pessoas, a mãe e a filha. Certo dia, quando ele estava fora, homens deram um jeito de entrar, e a garota teve o azar deles não serem meros assaltantes.
Enquanto os homens estavam com ela, a avó, que nada podia fazer, se escondeu debaixo de uma cama. Inutilmente: algum barulho que ela fez, ou o fato dos homens possivelmente já terem buscado informações da família, os levou a ela quando terminaram com a garota.
Foi arrastada para um corredor, e ainda em choque, recebeu três tiros no rosto, para não dar alarme quando eles saíssem. O dono chegou mais tarde, viu tudo, e nunca mais voltou ali. Anunciou a venda do imóvel, com tudo dentro, de suas próprias roupas aos móveis da sala.
Quando o trabalho estava perto do fim, e minha ajuda deixou de ser tão necessária, pedi a Gringo para poder andar um pouco, explorando as ruínas. Ele permitiu, pedindo que eu tomasse cuidado, olhando para onde pisasse. Passei da ampla sala, a uma série de quartos, nos andares de baixo. O andar superior, onde ocorrera a tragédia, já era história, com as paredes já derrubadas, e a escada que lhe dava acesso desmantelada no chão, em cacos.
Uma das primeiras coisas com que trombei foi os restos de uma revista pornô, daquelas que vem com um DVD de quatro cenas. Achei engraçado aquele material e um manual MATLAB terem pertencido à mesma casa, e provavelmente à mesma pessoa. A parte da casa por onde comecei tinha algo que presumi ser o estúdio ou sala de estudos, pois tinha um espaço vazado, que reconheci ser o encaixe de uma mesa de desenho, e de estantes.
Depois passei para o que podia ser espaço tanto para sala de estar, como de visitas, com espaço para uma tevê tela grande e um bar americano no canto, com vista para a piscina mais abaixo, no quintal. Antes de tudo acontecer, pensei, aquela deve ter sido uma família que gostava de receber amigos, de ter vários deles em casa, que parecia mais ser feita para estar em festa do que ser endereço permanente de alguém.
Atravessando uma pequena entrada, por trás da cozinha, desci direto para a parte mais baixa, que ficava embaixo do quintal e da piscina. Encontrei ali uma cozinha em miniatura, cheia de talheres, e potes plásticos, há muito tempo sem uso, que deveria servir de suporte para as festas que ocorriam ali. Seu acesso ao quintal se fazia por uma escada em espiral, já em péssimo estado por estar exposta ao sol e a chuva, mas ainda utilizável.
Quando ouvi a voz de Gringo me chamando ao longe, gritei que já estava indo, e decidi subir pela escada, para poder conhecer um pouco mais aquela parte. Emergi através do pequeno alçapão que dava acesso à cozinha de suporte, e vi Gringo na parte alta, no lugar onde fora a garagem, acenando para mim e gritando para eu ir logo.
Acenei de volta, e subi por outro caminho, que me fez sair perto do furgão. Entramos todos. Primeiro o cachaceiro, resmungando que o serviço estava muito pesado, para depois poder pedir algumas moedas a mais; depois Gringo, que teve de dar um jeito de sentar sobre as telhas, sem quebrá-las, e depois o dono do furgão, dona Áquila e eu, após verificarmos que o marido dela – e o cachaceiro – tinha conseguido entrar e estava bem. O furgão andou algumas quadras, e passamos por um sinal onde guardas de trânsito não viram nosso carro. A cabine tinha um bom cheiro de gasolina, que exalava de um galão de cinco litros, conectado ao motor por um tubo plástico semelhante ao do escapamento que defumava a parte de trás.
Dona Áquila comentou:
– Um luxo a casa, né? Aquilo ali que era gente de bom gosto. Era mesmo.
Não consegui deixar de pensar no resto de revista pornô, que era daquelas com atrizes oxigenadas atuando em cenas que repetiram em centenas de filmes diferentes, e pela qual poderia se adivinhar o conteúdo do filme só por olhar a capa. Era um tipo de material que eu próprio deixara de ver há um certo tempo. Mas não pude deixar de dizer:
– Com certeza, dona Áquila. Pior que é mesmo.
*MATLAB: Software de expressão matemática, usado por variados profissionais que trabalham com cálculos complexos.
Meu nome é Nicolas Oliver, atualmente estudante. Conclui o Ensino Médio há pouco tempo, e atualmente estou aguardando o resultado de variados vestibulares e testes para ingressar na faculdade. Atualmente concorro para Letras com Inglês na UNEB (Universidade do Estado da Bahia), Gestão da Produção no SENAI CIMATEC, e para Admnistração ou Análise de Sistemas no IFBA(Instituto Federal da Bahia, antigo CEFET), através do SISU.
Leitor semi-compulsivo desde a pré-adolescência, desenvolvi uma habilidade que chamo de ”meta-leitura”, adequada para os textos modernos: ao invés de ler completamente os textos, presumo as partes que se repetem, e leio só as linhas que se diferenciam, o que me dá uma certa vantagem na área de Humanas, embora ainda não saiba como usá-la direito nas Exatas. Me envolvi, um tanto quanto amadoristicamente, em Jornalismo e Política estudantil, com resultados pífios devido a algumas insuficiências pessoais, e a uma certa obsolescência de nossa Cultura em geral.
Atualmente em busca de construir uma carreira na Área de Gestão/Divisão de Tarefas, refinando tanto a base filosófica que já acumulei, como construindo uma base científica na qual ainda estou deficiente. Interesse em busca de novos paradigmas mentais e culturais, que envolvam especificamente a não-substituição de paradigmas antigos por novos, e sim a construção de um Raciocínio que não busque se mostrar definitivo, mas sim efetivo. Hobbies: Desenvolvimento de jogos , debates pela Internet, animes, leitura.

































Mariana disse:
fevereiro 14th, 2012 às 14:02
Muito bom seu texto!
Parabéns!!!!