O primeiro natal sem Stan Lee

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O primeiro natal sem Stan Lee

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

Quando aquele jovem aspirante a escritor começou a trabalhar para Martin Goodman na Atlas Comics, seu único desejo era parar de “andar aos tropeços” como vinha acontecendo até ali. Corria o ano de 1940 e as pretensões literárias de Stanley Lieber pareciam bastante comprometidas. Afora o parentesco com o gerente de circulação, Robbie Solomon, o adolescente não demonstrava qualquer aptidão para trabalhar com histórias em quadrinhos. Mesmo assim, a pedido da mãe, foi contratado por Solomon. Stanley limpava as mesas, carregava as canetas, lavava pincéis e, enquanto Jack Kirby cantarolava em sua prancheta, o garoto limpava cinzeiros. Passados uns meses, o “tio Robbie” encarregou-o de escrever um conto do Capitão América. Para não prejudicar sua carreira de “escritor sério”, assinou a história com o pseudônimo de Stan Lee.

É impossível imaginar o universo dos quadrinhos sem a presença de Stan Lee. Na ocasião da morte de Jack Kirby, seu pupilo, Frank Miller, afirmou que o “rei havia morrido e ninguém poderia substituí-lo”. Isso é verdade, mas em parte. Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko são responsáveis pelas maiores criações da Marvel Comics. Quarteto Fantástico, Homem Aranha, Pantera Negra, Dr. Estranho e quase cinco centenas de outros personagens que, em maior ou menor grau, fazem parte daquilo que ficou conhecido como o Universo Marvel ou X-Universe. Não se pode contar a história dos quadrinhos sem mencionar o nome desses três criadores.

O leitor deve observar que a expressão “Excelsior!!!”, muito utilizada por Stan Lee, deriva do latim e significa “grandioso, majestoso, incrível, superior”. Na maioria das vezes, ela é usada para exaltar a qualidade das obras de arte. Talvez não exista melhor definição para a obra de Stan Lee. Muito provavelmente, um dos personagens reais mais intrigantes da cultura pop mundial.

O universo Marvel começou a se formar após a Segunda Guerra Mundial, entre as décadas de 40 e 50, quando ainda aparecia com o selo da Atlas Comics (antes ainda era a Timely Comics). No início, a Liga da Justiça era o principal competidor e expoente daquilo que viria a se tornar a DC Comics e era esse o desafio imposto a Stan Lee e Jack Kirby pelo editor e proprietário da Atlas, Martin Goodman. Eles deveriam criar algo que pudesse competir com igual sucesso contra os deuses olimpianos da editora do Superman.

A dupla cria o Quarteto Fantástico (1961) e, ao darem vida a esses personagens, quiseram que eles pudessem ser mais humanos, ter mais falhas, serem de fato incorporados ao cotidiano das pessoas. A “família” do Sr. Fantástico é a coluna vertebral das melhores histórias feitas pelos autores retratando humanos que foram transformados em seres superpoderosos através da exposição à radiação cósmica. Cinco cientistas (quatro americanos e um eslavo) são expostos à radiação cósmica durante uma viagem de exploração espacial. Na volta, os norte-americanos formam o Quarteto Fantástico e o latveriano Dr. Destino torna-se seu principal antagonista. Não faltava ali o contexto da Guerra Fria (1947-1991) para apimentar a dramaticidade histórica nas HQ’s do Quarteto. Personagens humanizados, com problemas e poderes que não eram nenhuma benção e que traziam em suas vidas alguma tragédia existencial. Ajudar as pessoas, então, torna-se uma escolha difícil que se assemelhava mais a um sacrifício.

As histórias dos super-heróis sempre foram sobre o cotidiano, sobre as pessoas, suas diferenças e dificuldades. Stan Lee, também, sempre se preocupou em falar sobre as minorias e os discriminados. Sempre houve de sua parte e do editorial da Marvel a preocupação de tocar no assunto dos problemas sociais e se ocuparem com os conflitos raciais e outras tantas coisas. Um fato importante é que os vários personagens foram criados para atuarem em momentos históricos distintos da história americana no século XX. Tudo isso para criar empatia com os leitores e agir como atores da sociedade à qual pertenciam. É o caso, por exemplo, do Pantera Negra e do Falcão, concebidos para explicar nos quadrinhos a luta pelos direitos civis dos negros nos EUA, ou mesmo os X-Men que traziam em si a marca da diversidade humana em todas as expressões de raça e gênero daqueles que são rejeitados e temidos pela humanidade.

O grande símbolo da empatia de Lee com o mundo real está justamente presente no conceito de utilizar lugares e personagens coadjuvantes existentes. A cidade de New York ou o presidente dos EUA podiam ser vislumbrados através dos olhos dos super-heróis. Os eventos históricos tomavam forma e, muitas vezes, encontraram desfechos interessantes nas páginas dos quadrinhos criados por Lee, Kirby, Ditko e etc. Na verdade, sob a direção de Lee, a Marvel construiu sua própria ilha chamada utopia. Ali, os eventos históricos e os homens da vida real podiam encontrar caminhos diferentes e, muitas vezes, soluções mais interessantes para os seus problemas comuns.

Mesmo depois de ingressar na terceira idade, o gênio ainda conseguiu realizar seu grande sonho: atuar no cinema. O sonho de ser ator realizou-se através da interação com suas criações. Definitivamente, Stan Lee criou seu próprio personagem.

Lee foi um humanista que nos deixou em um momento muito conturbado, porém, não sem cumprir bem seu papel e deixar uma mensagem que hoje faz tanto sentido: o culto da tolerância.

O fato é que Stan Lee era o último membro ainda vivo de uma sociedade de demiurgos, ou seja, dos deuses criadores de seres fantásticos. Para um amante de quadrinhos, nascido no fim dos anos 60, que se tornou leitor da Marvel no início dos anos 80, Lee, Ditko e Kirby já eram lendas nesse tempo. Foram promovidos a deuses após sua morte. No entanto, imaginar que não veremos mais os happenings de Stan Lee, deixa a vida um pouco mais pobre. Lee foi o rosto da Marvel, seu maior e mais esperado divulgador. Sem seu aval, nada faria sentido.

A explicação para isso está no fato de que, na trajetória de sua vida, é perceptível a transformação de um editor, criador e roteirista de quadrinhos, numa espécie de marca criada por ele mesmo. O mais interessante é que o jovem que queria esconder o verdadeiro nome porque a arte sequencial era algo “menor”, tornou-se um dos personagens de maior sucesso da Marvel e, sem dúvida, da história dos quadrinhos.

Stan Lee adentrou em seu próprio universo e ali paira em sua imortalidade. Mas saber disso não resolve o problema. O empresário que vendeu muito bem a sua marca, o criador que encantou os sonhos dos amantes da arte sequencial, o palhaço que nos matava de rir nas respostas das antigas sessões de cartas, o escritor que encontrou a literatura nos quadrinhos e o personagem querido do universo X, infelizmente não passou conosco o último natal.

 

 

 

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