O macartismo nosso de cada dia

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O macartismo nosso de cada dia

Cláudio Diniz e Warley Cardoso

 “Vivemos na cultura da ignorância agressiva.”  (Salman Rushdie)

 

Olá, Leitor!

Na bienal do livro de 2019, o prefeito do Rio de Janeiro ordenou a censura e apreensão de material com conteúdo proibido que estivesse sendo vendido no evento. Particularmente, Marcelo Crivella autorizou a apreensão de uma HQ da Marvel com o título de A cruzada das crianças (2012). A obra, com roteiro de Allan Heinberg e arte de Jim Cheung, traz um beijo entre os super-heróis Wiccano e Hulkling, o casal homoafetivo formado na nova geração de super-heróis da Marvel. A intolerância do chefe do executivo da capital fluminense quis dar o ar de sua graça, e este ordenou a proibição da venda da HQ na bienal. Antes que a Okhrana formada de fiscais da prefeitura chegasse ao local para recolher as revistas, todos os exemplares foram esgotados. No entanto, o mal já estava feito e a face aterrorizante do extremismo se apresentou.

Em muitos outros momentos da história recente o autoritarismo terminou por se mostrar. Quantas queimas de livros e assassinatos de seus autores a história registra? Quantos pareceres contrários a publicações e quantas obras foram recolhidas das bancas e livrarias?

Gostaríamos de lembrar que, em relação aos quadrinhos, existe um momento histórico importante que serve de marco para a compreensão de atitudes como a da prefeitura do Rio de Janeiro. Nos anos 1950, o macartismo promoveu uma verdadeira caça às bruxas que acabou afetando profundamente a indústria dos quadrinhos nos EUA.

Em tempos do macarthismo

Após o fim da 2° Guerra Mundial, o resultado direto da polarização entre EUA e URSS foi a perseguição dos opositores do regime socialista ou capitalista.  Nos EUA, a Guerra Fria (1945-1991) acabou favorecendo a perseguição daqueles que tivessem algum tipo de relação com a militância comunista. No Senado, Joseph Raymond McCarthy, usava de discursos inflamados e da imposição de projetos de lei que visavam combater qualquer “ameaça” comunista em solo estadunidense.

Qualquer manifestação de caráter antiamericano era classificada como ação comunista e os agentes e as instituições de justiça do Estado eram imediatamente acionados. Sem qualquer dúvida, os maiores prejudicados foram a produção cultural, científica e de informação que, em geral, também eram rigidamente censuradas. As histórias em quadrinhos foram consideradas subversivas e não tardaria o momento em que seriam vítimas do autoritarismo.

A subcomissão do Senado, liderada por McCarthy, convocou os editores da Timely e da EC comics para prestar depoimento. Essas editoras vendiam milhões de exemplares de histórias de suspense, terror e ação. As audiências se estenderam por todo o mês de abril de 1954, mas depois disso nunca mais foram retomadas. O perito convocado para acompanhar as audiências era o médico e psiquiatra alemão Fredric Wertham. Ele era responsável por atacar com veemência as produções de HQ’s que, de acordo com sua opinião, despertavam os “piores instintos na juventude”. Seu parecer serviu como justificativa para o macartismo e reforçou, ainda mais, a política de perseguição aos quadrinhos.

A satanização das HQ’s

Fredric Wertham (1895-1981) foi o autor de A sedução do inocente (1953). O livro começa com a história do assassino que alvejou a cabeça de um torcedor de baseball na cidade de New York. No apartamento da tia de Willie, a polícia encontrou várias armas, além da pistola de calibre 45 que o jovem utilizou para atirar no torcedor naquele ano de 1950. No entanto, segundo depoimento da tia de Willie, o jovem era um aficionado leitor de histórias em quadrinhos. Para Fredric Werthan, as HQ’s seriam obras “incrivelmente impressas e bastante distorcidas” tratando “de crônicas descaradas de sexo e violência.” (WERTHAN. P. 02.). Segundo esse autor, “o enfraquecimento da moral pública e privada”, principalmente nos jovens, teria sido a principal causa do aumento da violência. A solução para o problema da violência, segundo Wertham, estaria em “uma rígida vigilância na criação moral da nação e o renascimento espiritual” com os quais poder-se-iam refrear os instintos mais hediondos.

Seu livro foi considerado uma espécie de Mein Kampf no julgamento que fazia dos quadrinhos. Para Wertham, revistas em quadrinhos eram anúncios sedutores para os jovens, dando a eles uma predisposição para o crime que estaria latente no criminoso, no entanto, a história em quadrinho seria responsável por despertá-la.

É preciso dizer que o livro de Wertham é cheio de dados imprecisos e depoimentos alterados que desautorizam as análises preconceituosas que aparecem ali. Além do mais, o autor colheu um número tão insignificante de dados que servem tão somente para falsear quase todas as teses que defende. Álvaro de Moya afirma que, A sedução do inocente, “preconizava quase a danação dos infernos para as crianças que tivessem lido comics.” Quer dizer, era uma cruzada purificadora contra a subversiva literatura em imagens. Era a “condenação de um meio de expressão através de exceções” e de asserções precipitadas e parciais.

Para além do moralismo liberal e cristão que norteia A sedução do inocente, Wertham também acusa o problema do racismo na criação de vilões e heróis das histórias em quadrinhos produzidas nos EUA. Para ele, “enquanto os Estados Unidos gastam milhões de dólares para persuadir o mundo de que o racismo não faz parte da opinião da vida americana, milhões de revistas em quadrinhos exportadas para todo o mundo mostram uma sequência interminável de imagens com reprodução preconceituosa.” Certamente, essa afirmação não é suficiente para redimir a obra de Wertham, mas alerta para o perigo do julgamento precipitado.

O fato de acusar os quadrinhos de despertar paixões violentas, amorais e homossexuais nos jovens é muito mais uma representação do moralismo doentio da classe média dos EUA à época do que uma análise científica fundada na asserção racional. Seja como for, a manipulação sistemática dos dados e dos depoimentos, feita por Wertham, e usada pela subcomissão macartista do Senado, deflagrou uma crise sem precedentes na indústria dos quadrinhos nos EUA.

O Comics Code

Sob pressão do Senado, do Congresso e da sociedade norte-americana, em outubro de 1954, os editores de quadrinhos, através da Comics Magazine Association of America, criaram o Comics Code Authority, que censurava e certificava com selo próprio as publicações ditas “limpas”. Foi uma “espécie de autocensura, que baniu do mercado muitos títulos, inviabilizou a continuidade de várias editoras e mergulhou os quadrinhos numa séria crise de criatividade da qual só sairiam na década seguinte”, afirma Nobu Chinen.

O Code era ainda mais discricionário que o Código Hays, de Hollywood e, em alguns casos, tendia ao orwellianismo. As capas não podiam mostrar sangue ou cenas violentas e as palavras horror e terror foram banidas. Não se podia mostrar simpatia por vilões, desrespeitar a santidade do casamento e, nesta época, foi criada a máxima de que o “bem deve sempre triunfar sobre o mal”. O Comics Code foi efetivo durante quase duas décadas e só perderia força a partir dos anos 80 com as publicações de autores como Alan Moore (O monstro do pântano. 1983) e Frank Miller (O cavaleiro das trevas. 1986), por exemplo. Finalmente, o código de ética dos quadrinhos foi extinto em 2011 pela DC comics e pela Archie comics que passaram a apoiar a Comic Book Legal Defense Fund em defesa da liberdade de expressão nos quadrinhos.

A censura no Brasil

No Brasil, o livro de Wertham e o Comics Code nunca foram editados. Mesmo assim, tiveram boa repercussão, principalmente entre aqueles interessados em combater as HQ’s. Quer dizer, algumas pessoas usaram os argumentos de Wertham e do Code para detratar a produção nacional de quadrinhos e os títulos internacionais que eram vendidos por aqui. No fim, essas obras serviram apenas para corroborar a censura que se instalou no país após o Golpe de 1964.

É difícil afirmar, como o fez Álvaro de Moya, que a queima de várias coleções de gibis no Brasil é de responsabilidade da obra A sedução do inocente. Ainda que se trate de um país de vocação autoritária, dizer que apenas um livro ou outro teria sido responsável pela proibição de muitas crianças e adolescentes lerem suas revistas prediletas seria um erro. É mais fácil entender que o livro de Wertham e o Comics Code serviram apenas como pretexto para justificar uma política autoritária. A censura durante o regime militar tinha seu próprio código de ética [SIC] e este foi um de seus legados para os dias de hoje.

A narrativa preconceituosa de algumas autoridades da cidade do Rio de Janeiro, na bienal de 2019, a respeito da revista Vingadores: a cruzada das crianças, não poderia ser um reflexo direto da leitura de obras como a de Fredric Wertham ou o Comics Code authority. No entanto, existe um horizonte intelectual compartilhado por certos campos culturais mais ou menos específicos que usam de afirmações falaciosas como aquelas que surgem na obra de Wertham, por exemplo, para justificar sua ideologia de intolerância. Quer dizer, as narrativas fundadas no preconceito e no achismo encontram fundamentação retórica nessas obras. De modo algum o livro de Wertham, ou de qualquer outro autor, pode ser responsabilizado pela política do codex librorum prohibitorum do prefeito Marcelo Crivella. No entanto, as obras de De Paw ou do Conde de Gobineau, por exemplo, também não foram responsáveis por atitudes neocolonialistas, mas muitos governos colonialistas e colonizados seguiram o ideário racista proposto ali.

O problema consiste em saber que existem redes formadas a partir do conjunto de ideias preconceituosas que descambam em políticas de exclusão. Sem dúvida, poderíamos estender essa análise para diversos momentos históricos, no entanto, é suficiente lembrar que no antigo Congo Belga, a política racista de Leopoldo II exterminou quase 30 milhões de pessoas e, que o Estado nazista, fundou sua política genocida nesse conjunto de ideias. O livro de Wertham é mais um libelo homofóbico que talvez nem seja conhecido pelas autoridades cariocas, contudo, ele continua causando polêmica e merece atenção permanente por parte de estudiosos e interessados nos quadrinhos.

É certo que o amor e outros valores humanitários não são compartilhados por todos. É mais fácil e lucrativo cultivar o ódio. O mito da democracia no Brasil esconde a divisão econômica, étnica e política. Nossa democracia continua sendo um lamentável mal-entendido. Não existe consenso que possa camuflar a divisão da sociedade brasileira e o ódio que advém dessa polarização. Todos se esquecem que liberdade verdadeira é a liberdade de quem pensa diferente de nós. Dessa vez, foi apenas um beijo numa HQ o pretexto usado para justificar o histórico autoritarismo moralista. No entanto, é bom ficar atento porque ainda pode vir o tempo em que irão censurar muito mais que isso.

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