quinta-feira , 20 junho 2013
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Correspondente Inglaterra #2 – Camila Nascimento

Correspondente Inglaterra

- Um café, por favor? – peço a moça no balcão, que, nitidamente, não presta atenção em mim.

Ela está distraída e eu sei que em cinco segundos, quando se der conta da minha presença, vai levar um susto, pedir desculpas e perguntar o que foi mesmo que eu falei. É a sequência de praxe.

Sei disso porque também sou distraída, também já fui garçonete e também já trabalhei num Café.

Não num Café elegante e imponente como esse aqui da British Library. O meu era um Café mais simples, mais modesto, mas lembro de ter ficado muito feliz quando consegui o emprego.

Era o meu primeiro emprego em Londres!

- Oh! I`m so sorry! What have you said? – a moça me pergunta meio sem graça.

Não falei?

Sorrio e repito meu pedido, reconhecendo-me na polonesa (o sotaque não deixa dúvida!), como se me olhasse num espelho ou assistisse a uma cena solta da minha vida há alguns anos atrás, na época em que eu trabalhava no Cafe, em Hornchurch, e viajava quase uma hora num trem lotado para chegar ao Centro, onde eu estudava.

Eu achava estranhíssimo aqueles trens lotados! Nao pela muvuca do horário de rush (sendo carioca, isso não me surpreendia nadinha). Era a contradição entre a aglomeração de pessoas e o mais absoluto silêncio que me intrigava, pois na minha cabeça latina não fazia sentido que tanta gente junta resultasse numa total mudez.

Foi preciso um segundo olhar para decifrar! As pessoas liam.

Livros, jornais, revistas, bíblias, tablets, cadernos…

Mas podem ficar tranquilos que nao vou ser óbvia ao ponto de começar esse texto afirmando que os ingleses leêm muito. Muito menos terei a ousadia de afirmar que eles leêm mais que nós, brasileiros. Tampouco pretendo dizer aqui que os ingleses leêm uma média de sete livros por ano enquanto nós, apenas quatro, porque isso tudo seria tão inédito quanto informar a morte da Princesa Diana.

Além do mais, em se tratando de leitura, penso que as condições são muito mais importantes que o incentivo. Senão, pergunto: Quanto custa ler?

Vejamos.

Fazendo uma pesquisa por alto, com um romance mundialmente conhecido, com direitos de autor ainda vigentes, escrito originalmente num outro idioma (espanhol, no caso), tomarei por referência “Os Cadernos de Don Rigoberto” de Mario Varga Llosa. Na Livraria Saraiva, o brasileiro paga pelo livro R$ 49,90. Na Waterstone’s, os ingleses pagam £8.09 (cerca de R$ 24,00). Nas feirinhas de livros ou na Oxfam, uma espécie de brechó onde se compra livros usados, é possível achar o livro por £2 (cerca de R$ 6,00). Sem falar, é claro, nas bibliotecas de bairro, onde o livro poderia ser lido gratuitamente.

Veêm a diferença?

Em outras palavras, não da para comparar o hábito de leitura do inglês e do brasileiro e esperar uma equiparação, se as condições que propiciam a leitura nos dois países são totalmente diferentes. Em contrapartida, não se pode também tirar o mérito dos ingleses que, há séculos, cultuam o hábito de ler e acreditam no livro como forma de expandir conhecimento e transmitir ideias, tão quanto as artes visuais e a tecnologia.

Há, sem dúvida nenhuma, algo de muito apaixonante nesse cubo tridimensional de papel repleto de ideias, vidas, personagens e cheiro de gráfica. E, seja pelo significado, pela linguagem ou pela forma, os ingleses já sabem disso há séculos.

Acreditem se quiser, mas aqui em Londres, de manhã cedo, é possível ver filas se formarem na porta das bibliotecas da mesma forma que se formam na porta dos bancos, das lojas, dos post offices… Incrível, não?

Nem tanto se repararmos que os escritores ingleses quase sempre mencionam uma biblioteca em suas obras. Reais ou imaginárias, por aqui as bibliotecas são consideradas verdadeiros templos. Acredita-se que nenhum outro lugar permite, concomitantemente, o acesso a memórias passadas e perspectivas de futuro com tanta eficiência como as bibliotecas.

E o resultado disso qual é? Gente lendo e folheando livros por todo lado. Cenas bonitas de se ver!

Aqui, na British Library, por exemplo, além do riquíssimo acervo em livros, há uma sala denominada “Treasures of the British Library” que reúne preciosidades como rascunhos das letras dos Beatles escritas por Lennon e McCartney, manuscritos de Freud, a primeira versão escrita a mão por Jane Austen para “Orgulho e Preconceito”, rascunhos de “Alice no país das Maravilhas”…

No Brasil, tive a sorte de ser estimulada a leitura e ainda criança percebi que qualquer ficção ganha vida quando em contato com o leitor. Entretanto, foi só aqui na Inglaterra que compreendi que bons títulos são essenciais na formação de um povo livre e capaz, pois cultura também é desenvolvimento.

- Excuse me! – a polonesa interrompe minha linha de raciocínio.

Ela me cobra o café pela segunda vez, porque da primeira, entretida no texto, nao ouvi.

Eu pago, ela sorri.

Está tudo bem.

Os distraídos sempre se entendem.

Camila Nascimento é Correspondente Internacional do Sobre Livros. Para sugerir, criticar, elogiar, ou simplesmente bater um papo sobre sua estadia na Inglaterra, basta adicioná-la no Facebook ou segui-la no twitter @CamiNasciSilva e dar sua opinião!

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11 comentários

  1. Adorei o texto, escrito muito bem!

  2. Adorei o texto, as distraídas me levou mesmo que por alguns minutos para Londres, que cidade maravilhosa… e para mim ainda é uma situação imaginaria filas em bibliotecas, como em bancos e lojas, deve ser fantástico….viva a terra da rainha!!!  

  3. Luciana Silva

    Não é à toa que seu livro é tão bom…. Você escreve muito bem mesmo. A coluna está ótima, uma delícia! Parabéns, até a próxima, beijos

  4. Uau, o jeito que a Camila escreve me fez viajar na “história” e querer ler mais e mais. Incrível!
    Além das fotos e informações super interessantes (e que nos fazem ficar pensando né).
    Parabéns, amei tudo! :)

  5. Eu AMEI esse post. Um dos meus sonhos é conhecer a Inglaterra. Acho o país com uma cultura incrível!! Monumentos, castelos, praças, bibliotecas… =DDD E como eu gostaria de pegar um ônibus em BH e me deparar com todos lendo… seria lindo mesmo!! =D
    Parabéns pela coluna mais uma vez!

    Beijos
    @gabiipascoal

  6. Amei… Voce escreve muito bem Parabéns…

    Espereo que o Brasil um dia chega a isso!

  7. Camila que bacana a coluna *-*, assim me dá mais vontade de ir pra Inglaterra. Não há como equiparar o Brasil com lá, pelo menos no momento… filas em bibliotecas, isso é um sonho, mas primeiros precisamos conquistar bibliotecas no mínimo interessantes no interior dos estados também =D

  8. Texto bem gostoso de ler, realmente. E muito bem escrito. As informações são muito interessantes e acho que deixou qualquer leitor com muita vontade de passar uns tempos na Inglaterra.

  9. Rosemary Dayane

    Um maravilhoso texto! Me fez pensar no quanto um livro faz parte da história de um país.

    É também muito interessante observar a cultura de outros países com textos tão gostosos de ler quanto os seus.

    Muito grata  a você Camila pelo texto magnifico!

  10. Muito bom !

  11. Que texto delicioso Camila! Juro que senti o cheirinho do café enquanto lia. Melhor que esse, só cheirinho de livro novo. =)
    É otimo conhecer um pouco mais da cultura e dos habitos de outro país de forma tão agradável. Que vontade de vivenciar esse contato.
    Obrigada pela excelente leitura que deixou minha imaginação louca por se aconchegar em um livro e meu paladar sonhando com um café. Rsrsrs

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