Angola Janga: convite a uma reflexão antirracista

0
753

Angola Janga: convite a uma reflexão antirracista

Cláudio Diniz

 

“O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui.”

(Gil; Caetano. 1982.)

Olá, leitor!

Angola janga (2017), de Marcelo D’Salete, é uma leitura indispensável e, sem dúvida, um dos mais importantes quadrinhos da história dessa arte no Brasil. A obra aborda a história de Zumbi e do Quilombo dos Palmares pela ótica dos vencidos. Mas ela é muito mais que isso. É o resultado de um extenso processo de pesquisa bibliográfica e documental sobre o assunto. É também uma escolha ficcional na qual o foco narrativo é muito bem manejado. O apuro estético alcançado com o uso do carvão vegetal imprime profundidade e realismo ao desenho de D’Salete. Por fim, toda a narrativa visual e escrita dessa graphic novel tem o plano sequencial ordenado por um flagrante flerte com o cinema.

https://veneta.com.br/produto/angola-janga/

O jardim de Clio.

O trabalho de Marcelo D’Salete reúne verossimilhança e historicidade da representação do passado. Angola Janga (“Pequena Angola” em quimbundo) guarda a efetividade do acontecido e a riqueza pictórica de um relato cheio de vida. A encenação ficcional dos dilemas vividos pelos personagens possibilita o engajamento do leitor num produtivo diálogo interno. A obra de D’Salete apresenta o pacto característico do romance histórico celebrado entre narrador e leitor.

Na narrativa gráfica do cotidiano e dos conflitos na Serra da Barriga, na antiga capitania de Pernambuco, Marcelo D’Salete possibilita ao leitor um encontro com uma história ainda muito pouco explorada. O Quilombo dos Palmares é um fato histórico que terminou por se tornar símbolo da resistência negra no Brasil. A figura de Zumbi alcança grande importância mítica no sentido de que povoa o imaginário dos debates sobre a luta pela liberdade e a justiça social. Se a história é a argamassa na definição da alteridade, o Quilombo dos Palmares é um pilar na construção das identidades negras.

Portugal procurou criar as condições para o Brasil se enquadrar no pacto colonial mercantilista entre os séculos XVI e XVIII. Os portugueses concentraram seus esforços para a colônia se transformar num grande produtor de açúcar de modo a abastecer a demanda do mercado internacional e se beneficiar dos lucros de sua comercialização. Os engenhos de açúcar na Capitania de Pernambuco, a partir de 1570, assumiram o protagonismo econômico do governo colonial português.

Para suprir a demanda de mão-de-obra na monocultura canavieira, Portugal decidiu pela utilização do trabalho compulsório de africanos. A introdução do trabalho escravo na produção do açúcar baixava os custos de sua produção. Os portugueses também exploravam o lucrativo tráfico de escravos negros africanos. E a simples existência do tráfico já constituía um estímulo à utilização da mão-de-obra escrava nas colônias pertencentes a Portugal.

O primeiro registro conhecido que faz menção ao Quilombo dos Palmares remonta a 1597, mas é possível supor que ele já existisse antes desse tempo. Palmares foi o resultado de uma junção de mocambos construídos na Serra da Barriga, na atual divisa dos estados de Alagoas e Pernambuco. No caso de Palmares, os mocambos formavam uma espécie de confederação quilombola que se estendia por um vasto território. O centro administrativo da confederação era o mocambo Cerca Real de Macaco. O caminho que levava a Macaco era conhecido apenas pelos quilombolas e toda a organização social, política e econômica assemelhava-se a um pequeno Estado africano.

A presença holandesa na Capitania de Pernambuco (1630-1654) desorganizou a indústria açucareira e criou um vazio de poder que possibilitou a fuga massiva de escravos. Foi o período de maior crescimento de Angola Janga ou do Quilombo dos Palmares. Os quilombolas organizaram expedições de libertação de escravos nos engenhos da Capitania levando o medo e o pavor à população da colônia. As táticas de guerrilha e de incursões rápidas contavam com a genialidade de seus líderes militares. A figura de Zumbi (1655-1695), sucessor de Ganga Zumba (1630-1678), teve importância capital na organização militar dos quilombolas. Zumbi nasceu livre na Serra da Barriga, mas foi capturado aos seis anos de idade e educado pelo padre Antônio de Melo. Batizado como Francisco, aprendeu português, latim, história e, provavelmente, foi assim que fortaleceu seu espírito guerreiro com conhecimento estratégico.

Muitas Entradas foram organizadas pelo governo colonial na tentativa de destruir o quilombo. Com a expulsão dos holandeses da capitania, até o Terço dos Henriques, batalhão de homens negros e mestiços criado em homenagem a Henrique Dias, herói na luta contra os invasores, foi lançado contra Palmares. Não obtiveram sucesso assim como todas as expedições anteriores. Tentativas de acordos de paz com promessas de perdão tampouco lograram êxito. Ganga Zumba, primeiro líder de Palmares, chegou a aceitar um acordo de paz com o governador da Capitania de Pernambuco, Pedro de Almeida (1630-1679), mas descobriu tarde demais que foi ludibriado. Alguns dizem que Ganga Zumba foi assassinado por seguidores de Zumbi, outros afirmam que foram seus próprios homens que o mataram e, ainda, há aqueles que dizem que cometeu suicídio ao perceber que fora enganado pelos portugueses.

Finalmente, em 06 de fevereiro de 1694, o bandeirante Domingos Jorge Velho (1641-1705) e o capitão-mor Bernardo Vieira de Melo (1658-1714), à frente de um batalhão de mais de seis mil homens, atacou e conquistou a Cerca Real de Macaco. Começava a destruição dos mocambos do Quilombo dos Palmares que se arrastaria pelas próximas três décadas. Zumbi conseguiu fugir por quase dois anos pela Serra da Barriga, mas foi atraiçoado e morto em 20 de novembro de 1695. Nesse dia, no Brasil, comemora-se o Dia Nacional de Zumbi ou da Consciência Negra.

Angola Janga, como dissemos, revela uma história de resistência ainda pouco conhecida pela maioria dos brasileiros. A leitura dessa obra permite também questionar a instância metalinguística na tensão que estabelece entre o passado e o presente. Os questionamentos e o confronto com a contemporaneidade da questão racial no Brasil são inevitáveis. Por ser uma obra aberta, nas perguntas lançadas ao passado ecoam as vozes ansiosas do presente.

https://revistacult.uol.com.br/home/graphic-novel-angola-janga-palmares/

O racismo nosso de cada dia.

O racismo no Brasil é uma construção social e histórica envolvida no tecido estrutural da sociedade. Isso quer dizer que o racismo não é algo naturalizado, mas que constitui e se constrói nas relações sociais em sua porção consciente e inconsciente. Ele faz parte do funcionamento dito “normal” da vida cotidiana nas dimensões econômica, política e psicológica.

O constrangimento cotidiano do racismo estrutural faz parte da dinâmica social e de sua própria racionalidade. Toda a estrutura da sociedade funciona em torno de uma razão racista que estabelece a polarização política, econômica e legal entre brancos e negros. A pequena representatividade negra nas instituições políticas e jurídicas brasileiras seria demonstração suficiente do funcionamento do racismo estrutural não fosse tão evidente falar também da maior incidência de impostos sobre as pessoas negras, particularmente as mulheres, e de um ordenamento jurídico direcionado para a criminalização da cor preta. Enquanto os espaços de privilégio e poder são ocupados por brancos, o lugar da servidão e da subcidadania segue destinado ao povo negro.

https://www.geledes.org.br/angola-janga-conta-em-quadrinhos-historia-de-zumbi-dos-palmares/

O lugar de fala como espaço de manifestação legítima de subjetividades é importante e deve ser considerado em todos os debates. Mas parece que o estabelecimento de limites ainda não é suficiente diante de relações sociais, econômicas e políticas desiguais entre brancos e negros. E quase todos os detentores da riqueza e do poder são brancos. O fosso entre ricos e pobres é tão grande que obriga a quase totalidade da população a produzir a riqueza de menos de 1% dela. Os dados fornecidos pelo IBGE, IPEA, Oxfam Brasil, dentre outros, definem a imensidão de nossa desigualdade social e racial.

A população pobre é quase toda preta. Parece óbvio dizer isso, mas quem está abaixo da linha de pobreza é negro. Na cor ou na alma. Essas pessoas formam a “ralé brasileira”, de quase 100 milhões de pessoas, conforme já foi descrita por sociólogos como Florestan Fernandes e Jessé Souza. Essa imensa minoria ainda vive em conformidade com um passado de escravidão. A ralé brasileira é uma “classe sem futuro” que vive para “ser explorada a preço vil” (SOUZA. 2017. P. 67.). O 13 de maio de 1888 representou tão somente uma mudança de status legal. No limite, as condições sociais e econômicas dessa classe não sofreram grandes transformações.

Abismos tropicais.

O quadro da desigualdade racial é institucionalizado por meio do encarceramento em massa de negros. A autoridade do Estado sustenta-se na produção de inimigos internos, quase todos negros, e no uso sistemático da violência contra minorias e movimentos sociais. A luta de classes por privilégios construiu alianças e preconceitos através da legitimação intelectual da dominação oligárquica.

As elites do atraso contam com uma Intelligentsia para a produção em massa de ideologias liberais-conservadoras, revanchistas e militaristas que terminam por construir uma cultura de ódio às minorias. Por isso, a criminalização do negro, jovem e morador de periferia é a tônica do pensamento autoritário compartilhado por milhões de brasileiros. O modo cruel e medíocre como se banaliza o mal cometido contra as minorias raciais e sociais é a substância dessas ideologias. O ódio ao pobre de hoje é o mesmo ódio devotado ao escravo de antes.

http://www.pordentrodaafrica.com/wp-content/uploads/2018/12/quadrinhos.jpg

Num país onde 56% da população é negra e a população pobre quase toda é negra também, o único modo de assegurar a estrutura de desigualdades é com o uso sistematizado da violência. Essa violência, que é física e simbólica, tem na expropriação e desumanização do negro uma forma de naturalizar a existência do racismo estrutural.

Os exemplos da extrema violência sofrida por mulheres negras e homens negros dão conta de uma condição que faz parte do processo histórico da sociedade brasileira. A rede Observatório da Segurança publicou há pouco o relatório Racismo motor da violência (2020) que confirma que, entre junho de 2019 e junho de 2020, 75% das pessoas mortas pela polícia eram negras. Da mesma forma, dentre todos os policiais mortos em confrontos no último ano, aproximadamente 62% eram negros.

Um caso recente dá conta do que estamos falando. Enquanto o presidente do STJ, João Otávio Noronha, concedia um habeas corpus a Fabrício Queiroz, o amigo miliciano da família Bolsonaro, um jovem negro, preso por conta de 10 (dez) gramas de maconha, a quem foi negado o habeas corpus, morreu de COVID-19 num presídio em Minas Gerais. Certamente, essa seria uma situação eventual não fosse o fato de que o presídio onde Lucas Morais morreu tem capacidade para 193 presos e 159 deles foram contaminados.

As imagens da mulher negra pisoteada no pescoço pelo policial branco, em Parelheiros, zona sul de São Paulo, evocam as gravuras oitocentistas de Debret (1768-1848) e Rugendas (1802-1858). Nelas figuram representações de escravos sendo supliciados, muitas vezes, por outros negros. A escravidão, portanto, é o berço de toda a estrutura desigual e racista da sociedade brasileira. É muito significativo o verso da canção Haiti (1982), de Gil e Caetano, que diz que tudo isso acontece “só pra mostrar aos outros quase pretos (e são quase todos pretos), e aos quase brancos, pobres como pretos, como é que pretos, pobres e mulatos e quase brancos, quase pretos de tão pobres, são tratados”.

https://www.waldineypassos.com.br/policial-que-pisoteou-pescoco-de-mulher-negra-durante-abordagem-e-denunciado-a-oea/
https://www.waldineypassos.com.br/policial-que-pisoteou-pescoco-de-mulher-negra-durante-abordagem-e-denunciado-a-oea/

Os ventos da diversidade.

É muito importante considerar o lugar de fala como espaço de respeito à diversidade étnica e de gênero. É necessário reconhecer os privilégios da branquitude para operar mudanças estruturais. Mulheres e homens brancos devem compreender que essa esfera de privilégios no Brasil é garantida através da exploração de uma “ralé” composta de mulheres e homens negros.

De fato, o processo de mudança na estrutura ideológica da sociedade é lento demais. São as ações afirmativas que possibilitam o empoderamento necessário para que grupos minoritários adquiram as forças necessárias para enfrentar o ideário racista. No entanto, as pessoas brancas também precisam compreender o modo como opera o racismo estrutural.  A consciência da prevalência branca nos espaços de poder, segundo a filósofa Djamila Ribeiro, “permite que as pessoas se responsabilizem e tomem atitudes para combater e transformar o perverso sistema racial que estrutura a sociedade brasileira” (2019. P. 25.).

O lugar de fala não é lugar de fragmentação, mas de diálogo. É um espaço de reconhecimento das diferenças. É falar e ouvir do lugar de onde pertencemos reconhecendo a diferença e o direito do outro. O lugar de fala é também lugar de ouvir. É lugar de derrubar muros porque a pauta antirracista é transversal. A adesão de brancos a essa luta desconstrói as narrativas de ódio que fundamentam o racismo estrutural. Somente a radicalização horizontal da democracia pode determinar o fim da centralidade do racismo nas relações sociais brasileiras.

O Capital tem alta capacidade de se reinventar e, diante do atual levante antirracista pelo mundo, o discurso de inclusão deve se sustentar na prática. Aqueles que lutam contra o racismo não podem aceitar o neoliberalismo e sua pauta de desigualdades. A ideia de democracia racial é tão falsa quanto a ideia de democracia social. A população negra e pobre carece da possibilidade de acesso às condições mínimas para uma vida digna. A luta antirracista exige a consciência de que nenhuma subjetividade isolada poderá transformar a estrutura de desigualdades do sistema capitalista.

A história de Zumbi e do Quilombo dos Palmares, contada em Angola Janga, deve ser lida como uma narrativa histórica e ficcional rigorosamente construída por Marcelo D’Salete. Contudo, também é um grito de resistência que ecoa através dos três séculos e meio desde que Ganga Zumba, Acotirene, Zumbi, Dandara e tantos outros guerreiros e guerreiras lutaram na Serra da Barriga.

 

Bibliografia.

ALMEIDA. Sílvio. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018.

CARREIRA, Denise. O lugar dos sujeitos brancos na luta antirracista. Sur: revista internacional de direitos humanos. V. 15, n. 28, São Paulo, p. 127-140, Dezembro, 2018.

D’SALETE, Marcelo. Angola janga: uma história de Palmares. São Paulo: Veneta, 2017.

GOMES, Flávio dos Santos. De olho e Zumbi dos Palmares. São Paulo: Claro Enigma, 2011.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.

_______, ______. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Cia. das Letras, 2019.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à lava jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

COMPARTILHAR
Artigo AnteriorCursebreakers | Plataforma 21 publicará livro de Brigid Kemmerer
Cláudio Diniz é colunista do Sobre Livros. Para sugerir, criticar, elogiar, ou simplesmente bater um papo sobre quadrinhos e cultura, basta adicioná-lo no facebook e dar sua opinião.

COMENTAR